Osório César foi um dos primeiros psiquiatras brasileiros interessado em estudar a arte produzida por pacientes psiquiátricos, tendo iniciado esses estudos nos anos 1920 no Hospital do Juquery. Seu nome e seus trabalhos estão quase esquecidos. Este blog procura divulgá-los.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Capítulo 1 – Parte 8 – A expressão artística nos alienados


continuação do texto...

“O homem primitivo”, diz Worringer (1), “por sua livre atividade psíquica, cria símbolos de necessidade nas formas geométricas ou estereogeométricas. Aturdido e aterrado pela vida, procura o inanimado, o que não tem vida, porque nele vê eliminada a inquietude do futuro e afirmada a fixação perdurável. Criar arte significa para o homem primitivo iludir a vida e seus caprichos, fixar na intuição algo permanente que transcende dos fenômenos e onde fica superada a caprichosidade e a mutabilidade dos fenômenos. Parte, pois, da linha rígida, em sua essencialidade abstrata e inanimada, sentindo obscuramente seu valor próprio, inexpressivo – isto é, livre de toda representação vital – como parte de uma regularidade inorgânica superior a todo vivente. Nela encontra o homem primitivo – torturado pela caprichosidade da vida, e portanto da mutação – paz e sossego, porque ela é para ele a única expressão intuitiva do inanimado, do absoluto. Assim, o primitivo persegue as restantes possibilidades geométricas da linha, cria triângulos, quadrados, círculos, ressalta igualdades, descobre a regularidade e em suma, produz uma ornamentação que representa para ele não só o gozo do adorno e do brinquedo, senão uma tábua de valores que simbolizam a necessidade e, portanto, satisfazem as profundas aspirações de sua alma”.
O que acabamos de ver com relação à arte dos povos primitivos tem uma significação bem patente no que diz respeito à arte atual.
O homem primitivo nasceu profundamente supersticioso. Todos os fenômenos da natureza que ele observa têm uma expressão de terror manifesta na sua estreita mentalidade. Dessa maneira ele interpreta o trovão, o raio e as chuvas copiosas. Vem daí, talvez, a necessidade da criação do símbolo – origem da arte – para amenizar esse primeiro sofrer, representando já o esboço de uma filosofia elementar da vida. E essa filosofia é uma religião, como se verifica com os totens e tabus (2).

Citações do texto:
1 – La esencia del Estilo Gótico. Trad. Hesp. Pag. 29. Madrid, 1925.
2 – Tabu: palavra polinésia que tem duas significações opostas: 1) sagrado, consagrado; 2) inquietante, perigoso, impuro. Freud analisa o problema pela psicanálise, isto é, com os dados fornecidos pelo exame da parte inconsciente de nossa vida psíquica. O processo do tabu se assemelha ao processo das proibições obsessionais entre os nervosos. A proibição principal, tanto entre os nervosos como no tabu – é o delírio de tocar. – Um homem que se comunica a um tabu, torna-se tabu (pg 51). O tabu manifesta-se nas sociedades contemporâneas. A condição de “homem livre” caracteriza e dá ideia do tabu selvagem, “o tabu dos senhores” (pg.62) – vivem os senhores de certas monarquias dependentes exclusivamente de seus súditos. Hoje adorado como Deus, pode ser morto amanhã como criminoso. Mas nós não temos o direito de ver nesta mudança de atitude de um povo uma prova de inconstância ou uma contradição; bem ao contrário; o povo permanece lógico até o fim (pg. 66). O tabu é uma fórmula social de tendência sexual, que é também o traço característico da nevrose (pg. 104). S. Freud. Totem e Tabu, Payot, Paris.

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A arte de hoje tem as suas raízes extensamente ligadas na do primitivo. Cada dia ela vai caminhando para essas representações primitivas, que são simbólicas, constituídas por linhas curvas, quebradas e simétricas, produzindo uma atitude mental materializada em forma grosseira, deformação da natureza, justamente como a arte do primitivo, que traduz sentimento e uma expressão da vida mais consoladora e humana.
“Na vida intelectual do culto moderno”, diz Lafora (1), “podemos surpreender constantemente intenções e volta aos períodos primitivos da vida humana. Nos sonhos hipnóticos, no pensamento esquizoide e na criação artística, vemos analogias extraordinárias com a vida mental das civilizações primitivas e com as da evolução mental da criança”.
“Na vida mental podemos dizer que existe uma ontogenia ou evolução individual, que reproduz as fases da filogenia, ou evolução da espécie, isto é, que a evolução mental do homem desde as raças primitivas até as organizações humanas modernas, e assim como na constituição anatômica do cérebro humano encontramos regiões semelhantes às dos inferiores da série animal ,e outras regiões de estatura superior peculiares do homem, assim também nas funções mentais do cérebro, podemos supor que há regiões de onde surgem as ideias primitivas e inferiores herdadas da série animal, que originam os mecanismos mentais primordiais, e outras regiões de onde assentam as ordenadas funções conscientes e elevadas do homem progressivo moderno”.

Citação do texto:
1 – Estudio psicológico del cubismo y expressionismo, Arquivos de Neurologia, tomo III, Nº 2, pag. 121.

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