Osório César foi um dos primeiros psiquiatras brasileiros interessado em estudar a arte produzida por pacientes psiquiátricos, tendo iniciado esses estudos nos anos 1920 no Hospital do Juquery. Seu nome e seus trabalhos estão quase esquecidos. Este blog procura divulgá-los.

domingo, 3 de outubro de 2021

A Expressão Artística nos Alienados - Capítulo 7 - Parte 7

  

...continua Osório César, citando noções da psiquiatria de sua época...

(1929)

 

     Poderemos citar também aqui, como exemplo típico de fecundidade intelectual na paralisia geral, o caso do consagrado novelista francês, Guy de Maupassant. Contaremos a sua história para melhor constatarmos a sua capacidade produtiva literária durante os períodos da terrível moléstia que o prostrou.

     Guy de Maupassant nasceu em 5 de agosto de 1850. Seu pai era dotado de um caráter fraco, instável e de uma mediocridade intelectual não duvidosa. Sua mãe era uma neuropata; foi internada por sofrer de “paroxismos de furor, por ataques terríveis”; tentou suicidar-se com laudanum e por estrangulamento. Hervé, único irmão de Guy de Maupassant, seis anos mais moço do que ele, foi um “raté” [fracassado] e morreu com 33 anos, paralítico geral.

     Durante os períodos de infância e adolescência de Guy de Maupassant, a sua saúde foi boa. Aos 13 anos ele frequentou o seminário d’Yvetot. Depois foi internado no Liceu de Rouen, onde acabou os seus estudos. Terminada a guerra de 70-71, na qual ele tomou parte, Maupassant volta a Paris. Esteve empregado no Ministério da Marinha e em seguida agregado ao gabinete de M. Bardoux, Ministro da Instrução Pública. Em 1880 ele abandona este seu emprego, depois do sucesso alcançado pela Boule de Suif. Segundo os seus biógrafos, a sua vida patológica já havia começado desde 1872. Nessa época ela se caracteriza pela neurastenia, excessos sexuais e de bebidas alcoólicas. Em 1882 aparece Fou? Na coleção Mademoiselle Fifi. Desde então, ele começa a ter medo da morte e esta ideia o acompanha como uma obsessão por toda a sua vida.

     No seu livro Au Soleil, volume publicado em 1884, vemos-lhe torturado por aquela obsessão:

     La vie si courte, si longue, devient parfois insupportable. Elle se déroule toujours pareille, avec la mort au bout… Quoi que nous fassions, nous mourrons! Quoi que nous croyions, quoi que nous pensions, quoi que nous tentions mourrons... On se sent écrasé sous le sentiment de l’immortalle misère de tout, de l’impuissance et de la monotonie des actions”.

[tradução: “A vida, seja curta ou longa, torna-se às vezes insuportável. Essa se desenvolve sempre parelha com a morte à espreita... O que quer que façamos, nós morremos! O que quer que creiamos, que pensemos, que tentemos, morremos... A pessoa se sente esmagada sob o sentimento da imortal miséria de tudo, da incapacidade e da monotonia das ações”]

     Paul Bourget, que foi íntimo de Maupassant, observou desde essa época “de cruelles hallucinations” no seu amigo. Em 1887 aparece Le Horla, que é o livro mais interessante da segunda fase intelectual de Maupassant. Nota-se nele um produto da imaginação de um cérebro anormal. É mui digna de nota a riqueza de documentação psiquiátrica que esse livro apresenta nos seus capítulos. Em Le Horla deparamos com um imenso repositório de ideias delirantes, de falsas interpretações, de ideias de negação e de enormidade.

     Em suma, é um livro sentido, em que os fenômenos alucinatórios são descritos fielmente da própria imaginação do autor.

     Le Horla não morreu, ele atravessou as portas bem fechadas, ele resistiu ao incêndio: “Alors... alors... il va donc falloir que je me tue, moi!”

[tradução: “Então...então... se faz necessário que eu me mate, eu!”]

Quem leu Le Horla, livro emocionante, cheio de desespero, de agonia, obsessão de um cérebro alucinado, poderá melhor avaliar o sofrimento e o pavor que tanto preocuparam Maupassant da ideia do fim. Falando sobre esse livro, disse Lagriffe[1] “...il leur parut étrange, sans signification et sans portée, mais aujourd’hui il nous apparait comme le plus beau et le plus navrant cri de désespoir qui jamais ait été jeté par une intelligence demeurée géniale malgré la maladie”.

[tradução: “parecia-lhes estranho, sem significação e sem finalidade, mas hoje nos parece como o mais belo e mais comovente grito de desespero que jamais foi lançado por uma inteligência genial, apesar da doença”.]

     Em 1891 é quando sua moléstia mais se acentua. Numa carta escrita nessa época por Maupassant, ele descreve o resultado da consulta que fez a Déjerine, cujo fac-símile encontra-se na obra de Lombroso[2], atestado patente da natureza do mal que o prostrou. A escrita é desigual e um pouco trêmula, há excitações, erros grosseiros de ortografia e as letras são mal-formadas. Notam-se ideias de grandeza a propósito de sua peça Musotte. Enfim, em 1892, Maupassant foi internado na casa de Saúde do Dr.  Blanche, em Passy, logo depois das suas duas tentativas de suicídio.

     A história de Maupassant na Casa de Saúde de Dr. Blanche é uma história simples, como veremos da descrição que dela fez Angeli[3]:  

     “Il passait des heures entières dans le jardin, régardant les fleurs et les plantes… Tous les phénoménes de la vegetation l’attiraient spécialement; il voyait une vie obscure dans ces fleurs et dans ces plantes et il exprimait cette vision avec des phrases puériles d’une tristesse infinie”.

[tradução: “Ele passa horas inteiras no jardim, olhando as flores e as plantas... Todos os fenômenos da vegetação o atraem especialmente; ele via uma vida obscura entre essas flores e plantas e exprimia essa visão com frases pueris de uma tristeza infinita”]

     “Le médecin qui le soignait a recuelli beaucoup de ces phrases sur um petit carnet qui j’ai eu la bonne fortune de voir chez le comte Joseph Primoli. Les plus souvent, il était préoccupé de la profundeur de la terre et du préjudice que les ingénieurs lui portaient. Cette idée se repete souvent comme une ritournelle, dans ces notes brèves: voilà les ingénieurs qui foillente la terre, les ingénieurs qui creusent...”

[tradução: “O médico que o tratou recolheu muitas dessas frases sobre um pequeno caderno que eu tive a sorte de ver com o Conde Joseph Primoli. Mais frequentemente, ele estava preocupado com a profundeza da terra e do prejuízo que os engenheiros lhe causavam. Esta ideia se repete frequentemente como uma canção que retorna em suas notas breves: eis is engenheiros que fabricam a terra, os engenheiros que escavam...”]

     “Les dernieres paroles sont comme une confession et comme un voeu: Des tenébres! Oh! Des tenébres!”

[tradução: “As últimas palavras são como uma confissão e como um desejo: Trevas! Oh! Trevas!"] 

     Guy de Maupassant morreu de paralisia geral no dia 6 de julho de 1893, depois de um ano e meio de sua internação na Casa de Saúde do Dr. Blanche.

      



[1] Lucien Lagriffe – Guy de Maupassant. Etude de psychologie pathologique. Annales médico-psychologiques. Nº 2, 1908, pag. 223-224.

[2] Albert Lombroso - Souvenir sur Maupassant. Bocca. Roma. 1905.

[3] Diego Angeli – Didacus, 1895, citado por Lombroso, pag. 516.