Osório César foi um dos primeiros psiquiatras brasileiros interessado em estudar a arte produzida por pacientes psiquiátricos, tendo iniciado esses estudos nos anos 1920 no Hospital do Juquery. Seu nome e seus trabalhos estão quase esquecidos. Este blog procura divulgá-los.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Capítulo 4 – Parte 3 – A Expressão Artística nos Alienados


...continuação do texto...

História Psiquiátrica de um Doente com Delírio Místico

Vejamos um curioso relato escrito por um outro parafrênico, com o fim de ser publicado em todos os jornais do mundo, acerca dos acontecimentos de sua vida.

                                 “Prova – nova”.
“Sua Exa. Revma. D. Duarte Leopoldo e Silva. Mto. Digo. Arcebispo da Diocese de S. Paulo anunciará ao mundo a boa nova”.
“C.V.R. filho de pais espanhóis; católicos: apostólicos romanos. Obedientíssimo a todas decisões dos papas ou sumos pontífices de Roma, em matéria de religião. Casou-se em Santos no ano 1904. Para casar, antes do ato matrimonial, confessou C., e C. .,; suas culpas e pecados. Ligado o C., a sua esposa, com ataduras que só o céu pode desatar; roga ao Céu: que lhe desse fruto de salvação”.
“Teve 4 filhos com vida este casal. Recebendo todos o Santo batismo da Igreja Católica em Santos e em S. Paulo. C., pouco tempo depois de casado, entrou num estado de vida profana: sumamente pecaminoso”.
“Os seus empregos não davam tempo para assistir a atos religiosos da Igreja Católica. Apenas batizou filhos. Em sua casa, sempre rezou. Porém, pecou? Vida sumamente suja e imunda. Aparentemente, caráter de Santo ou Sepulcro esbranqueado. Interiormente, C. era um poço de malícia infernal. O C. caminhou em sua perversidade; pouco tempo depois de seu casamento! Ano 1904: até Outubro de 1915. C., por causa de suas iniquidades; foi açoitadíssimo pelo Céu: pelo inferno e pela morte. C., a vista dos sofrimentos, padecimentos e perseguições; teve sempre uma coragem de Leão. Mas sua esposa enferma, dobrou e humilhou o grande pecador C. E em Outubro de 1915, agradou ao Céu a sua Conversão. Como se deu a conversão de C.? Ato sumamente maravilhoso e Celeste”.
“Viajava C., em pé, na plataforma do Bonde da Penha; em demanda do bem amado. E o carteiro C., em dado momento, ficou sozinho na plataforma”.
“O condutor do Bonde achava-se ocupado em seu trabalho. O C., em voz bem inteligível, ouviu as seguintes palavras. Homem, volta-te para Deus! ; que só Deus te pode salvar!! O C. ia no bonde a procura de remédio para sua esposa. Ouvindo o que ouviu, murmurou em si mesmo. Vou a procura de remédio para salvar a esposa e eu sou o perdido. Sou um desgraçado, vou confessar-me. Não procuro mais o benefício da cura de minha esposa, com a tal pessoa. Vou lá em sua casa e digo estas palavras, faço estas perguntas e ofertas. E volta já para casa, cheio de temor, murmurava em pensamentos; vou confessar-me. O C., crer firmemente que Deus havia de curar sua esposa, pelo seu arrependimento. Fez o seu exame de consciência e ao terceiro dia confessou-se com Dr. Conego Mel. Meirelles Freire, na Igreja de São João Baptista, Braz. Desde Outubro de 1915, data de sua conversão a 23 de Agosto de 1921, cheio da virtude Celestial que nele reside; fez o C. diversas obras: que devem ser publicadas nos púlpitos das igrejas Católicas. As tais obras Celestes, feitas pelas mãos de C., em união com N. S. J. Cristo; dão claro testemunho da santidade do pecador maior do mundo: convertido pela Sta. Bondade de Deus. A Igreja Católica, por meio de meus confessores, não conhece tais obras da caridade: feitas sobre a humanidade. Estão ocultas. O C. oculta-as tudo, até a presente data. D. Duarte como chefe superior da Diocese de São Paulo, venha ao hospício. Encher-lhe-ei seu coração de obras, para pregar nos púlpitos sagrados. C. acabou de compreender que foi joeirado por satanás desde Outubro de 1915 a 6 de Outubro de 1920. E desde 6 de Outubro de 1020 a 22 de maio de 1922, tirou satanás de C., servo de N. S. Jesus Cristo: muitas provas para a sua melhor orientação. C., o servo de predileção Celestial; foi santificado em S. Paulo. Em 4 de Outubro de 1921, foi conduzido para o hospício Juqueri; localizado neste deserto, C., além de muitos jejuns rigorosos, jejuou 40 dias com 40 noites sem comer nem beber coisa alguma deste mundo: na Quaresma de 1926. Iniciou-se o jejum em 17 de fevereiro. E terminou em 28 de Março do referido ano. Em 15 de Maio p. p. preguei um Sermão no terceiro pavilhão do hospício, denominado Sermão da Montanha ou Deserto”.   
“D. Duarte, quero muito em breve trabalhar publicamente pela salvação das almas, previne a S. Exma. Rvma. D. Duarte, para evitar as dolorosas operações de satanás, que por má ventura sugeriu em espírito. Caso frieza para não dar passos sem atenção a esta Celestial obra. Lembre-se que é satanás inimigo das almas, infundindo falta de animo; para não obrar”.
“Importa que S. Rvma levante-se de sua cadeira apressado e dê passos para conduzir o C., para São Paulo. Do Servo Amantíssimo de NSJ Cristo, por santos trabalhos de ordem Celestial. S. Sta. Benção. Em nome de Padré, Filho, Espírito Santo. Amen”.

“Juquery 23 de Outubro de 1927”.                                “ C.V.R.”
                                                                          “3º Pavilhão do Hospício”
  

domingo, 18 de maio de 2014

Capítulo 4 – Parte 2 – A Expressão Artística nos Alienados

Como usualmente frisamos, devemos estar atentos a que este texto de Osório César foi escrito na década de 1920, portanto com as características dos conceitos e da linguagem da Ciência Psiquiátrica de então. Acentuamos a singularidade de o autor focar as produções artísticas dos pacientes nesse momento.

...continuação do texto...

Os poetas parafrênicos são comuns nos Hospícios. Há os de todo gênero: satíricos, parnasianos, românticos, bucólicos e futuristas. As suas produções são pejadas de prolixidade. São todos grafômanos. Vivem continuamente inspirados. Qualquer coisa desperta neles uma poesia. Tudo o que escrevem distribuem entre os médicos e enfermeiros. São desconfiados. Quando percebem que alguém troça deles, magoam-se e escrevem versos satíricos, alusivos ao indivíduo. São orgulhosos. Muitos deles escrevem os seus poemas numa linguagem simbólica e cheia de misticismo.
Vejamos a observação de um poeta romântico parafrênico do Hospital do Juquery:

M... (1), 43 anos de idade, branco, casado, católico, brasileiro, procedente da Capital, internado a 19 de Abril de 1925.
Histórico: É o único caso, o presente, que existe na família do observando. Não há referência sobre o passado da família. O que sabemos, por intermédio do próprio doente, é que o estado de saúde de todos os seus parentes é o mais lisonjeiro possível. É provável que o observando, consciente como é, oculte qualquer pormenor em que se possam basear para a justificação da “sua loucura”. “Aliás”, diz ele, “eu não sou louco! Raciocino com toda a lógica imaginável; sou funcionário público e sempre desempenhei com a maior probidade o meu dever; minha família não tem a mim a menor queixa, como chefe zeloso e bom que tenho sido. Não sei, portanto, e isso é que talvez me faça ficar louco, porque essa prisão injusta, fonte exclusiva da perseguição que movem contra mim os meus inimigos, a famosa camorra do Forte de Itaipu!” E o doente discorre, delirando já, sobre a “poderosa quadrilha” que, tendo assentado no Forte de Itaipu um possante aparelho de rádio-telefonia ou rádio-telegrafia, “sincroniza as ondas artesianas sobre o fone que cada um de nós traz invisível em nosso corpo e nos faz então, para perseguir-nos, cometer certos atos de indelicadeza contra a nossa família ou então responder por gestos ou palavras às vezes que nos são transmitidas”. “E veja o senhor”, continua o doente, “dizem que sou louco porque falo sozinho! Quererão levar a perseguição ao ponto de me proibirem até de responder ao que escuto no telégrafo sem fio?! É uma ignomínia! Mas hei de me vingar! À primeira oportunidade que se apresente, farei a minha representação junto ao senhor Dr. Delegado Fiscal do Tesouro Federal, afim de desmascarar esse infame que, não só a mim, mas também à Fazenda Federal, quer prejudicar. O senhor há de ver! Não considero loucos os companheiros; são vítimas, como eu, da camorra. Olhe aquele” – e mostrava um doente que, preso de grandes alucinações, saltava de um lado para outro, com grandes gestos de quem se defende – “está neste momento sob o efeito da irradiação do telégrafo sem fio”. E por aí vai; seria longo descrever tudo quanto o doente diz, logicamente, com sólida argumentação, para provar a injustiça de sua reclusão e os malefícios que poderão advir do serviço público da perseguição que se lhe move. Os autógrafos que juntamos à observação são bem elucidativos quanto à forma de delírio persecutório de que o paciente é vítima. Aqui no Hospício, “se bem que atenuadamente, tem ainda sofrido os efeitos das irradiações da Camorra”. Inquirido sobre se usava bebidas alcoólicas, tentou negar o seu vício, mas depois confirmou que, de 6 anos a esta data, se entregava ao vício da embriaguez. Tem, de fato, alguns sinais físicos de intoxicação etílica: tremores das mãos; língua saburrosa e trêmula; exagero dos reflexos tendinosos e cutâneos. Nada de particular no reflexo pupilar e nas sensibilidades. O estado geral de saúde física é bom. O paciente alimenta-se bem e tem, dizem os enfermeiros, sono tranquilo.
Diagnóstico: Delírio de perseguição. Falsa interpretação. Conservação das faculdades psíquicas. Parafrenia.

Apreciemos agora os seus versos:

Na mesma Fé

O meu samburá
Carrego frutinhas;
Às moças, Sinhá –
Pai Chico às Quindinhas.

Quero-as muito bem...
São pombas, são garças...
Flores do Lychen,
Roseiras esparsas.

Bem nos entendemos,
No mútuo respeito.
Sempre que nos vemos
Peito bate em peito.

Sou velho, são moças,
Trilhando um só fato;
Cancelas de força
Do mesmo riscado.

- Coitado! – elas dizem,
- Coitadas! – digo eu...
E somos felizes
No afan que Deus deu!

Louco velho

Lá detrás daquele morro,
Na escarpada do Fandango?
Sacisinha anda de gorro,
Plantando mato-ximango.  

Erva amarga ou Capitão,
Pra curar dor de barriga;
É melhor que a herva-tostão
Dos passeios do Bexiga.
Masserado có a raiz,
Pondo álcool é fernet-branca;
Com a marca “Flor de Liz”,
Égua velha de retranca.

Gente louca dá trabalho,
Muito mais que um burro chucro;
Ferro frio bate o malho,
Porco não sai do tijuco!

Come fruta verde ao lume,
Bebe estanho derretido;
Não mais peca, não faz crime,
Louco velho aborrecido.

Louco velho
Degadelhos;
Enxovido,
Carcomido!

As carapucinhas

 Adoro o seio da virgem,
No casto amor de donzela.
Meu peito bate em vertigem
De amor em chamas por ela.

Seus lábios são rosa-flores,
Na haste pênsil do jardim;
Sorrindo em francos humores,
Ao rescenso do alecrim.

Na face a pétala arfante,
Olhos me matem de amor;
Entre os rios flamejante
Do orvalho fresco da flor.

Adoro a branca, a morena,
Também a pardinha esgueira
E as roxinhas... Rosa... Helena...
Maria... Ismenia faceira...

No alvrar sacudindo as ancas,
Ponta a ponta, sempre a andar;
De carapucinha branca,
Da insana aflita a cuidar.

É tão grande o número das produções literárias desse doente que as suas poesias são para encher alguns volumes de duzentas páginas cada um.
Todos os dias ele compõe versos. Qualquer acontecimento, por mais banal que seja, é motivo para uma série de quadrinhas. A cadência dos versos lembra a dos versos de Gonçalves Dias.

Notas de Osório César:

1 – Dos Archivos Psychiatricos do Hospital do Juquery. 

sábado, 17 de maio de 2014

Capítulo 4 – Parte 1 – A Expressão Artística nos Alienados

...continuação do texto...

Conceito das parafrenias. Poetas parafrênicos. A poesia mística. História psiquiátrica de um doente com delírio místico. Poemas parabólicos com interpretação do autor.

As parafrenias constituem hoje em dia um grupo clínico bem definido que Kraepelin separou da demência precoce. Assim o fez em virtude de certos doentes não apresentarem modificações da personalidade, perda da afetividade e da iniciativa.
Kraepelin admitiu quatro variedades de parafrenias: a sistemática, a expansiva, a confabulatória e a fantástica.
A parafrenia sistemática é caracterizada, diz Kraepelin, pelo “desenvolvimento extremamente vagaroso de um delírio de perseguição, continuamente progressivo, com ideias de grandeza mais tarde a ele associadas, sem destruição de personalidade”.
As alucinações do ouvido e da vista são tremendas, apavorantes. O indivíduo vê pessoas de sua família supliciadas, mortas; vê esqueletos. Ouve vozes de pessoas conhecidas que lhe pedem socorro; escuta injúrias e ameaças que não o deixam tranquilo noite e dia. Desse modo se implanta o delírio de perseguição que atenaza o doente atrozmente durante anos.
“O parafrênico sistemático”, diz o prof. Roxo, “vive numa eterna desconfiança e na rua não há frase que lhe não seja alusiva, ou olhar que o não vise”.
“Anos depois, em geral, ou muito pouco tempo depois, em muitos, vem o delírio das grandezas”.
“Muitas vezes é ele chave de tudo quanto ocorreu antes. Era a inveja que o fazia odiado, por ser um milionário, por ser filho do rei, por ser o apaixonado de uma princesa”.
E assim vive o pobre alienado dentro do círculo de sua moléstia, cuja evolução é longa e penosa.
A parafrenia expansiva se caracteriza pelo delírio de grandezas, pela euforia com ligeira excitação, fazendo lembrar por vezes a excitação maníaca.
As ideias eróticas são frequentes, chegando mesmo, em certos casos, a dominar o quadro. Não são comuns os delírios de perseguição; quando eles aparecem, conservam-se sempre em plano secundário e não preocupam o doente.
A parafrenia confabulatória é constituída pelo abaixamento adquirido do nível intelectual e por um delírio em que se notam essencialmente muitas ilusões da memória e alucinações (Roxo).
É forma rara. Kraepelin, em 35 anos, apenas viu 12 casos.
A parafrenia fantástica se caracteriza pela existência de um delírio florescente, cheio de alucinações extravagantes absurdas, desconexas e mutáveis. É a forma clínica em que o doente diz frequentemente que os cachorros conversaram com ele, que os passarinhos lhe dirigiram a palavra, ou que o demônio se lhe apresentou, a discutir com ele (Roxo).
O delírio de perseguição é comum. O doente é desconfiado de tudo e de todos. As perturbações cenestésicas são intensas. Sente cheiro de clorofórmio, de éter. As alucinações auditivas são frequentes: vozes ameaçadoras são percebidas.
Telefones misteriosos, irradiações de toda natureza o perseguem constantemente.
Essa forma de parafrenia muito se assemelha com a forma paranoide da demência precoce.
A forma expansiva da parafrenia é a que apresenta mais rico manancial de símbolos para o estudo interpretativo psicanalítico.
Esta psicose, segundo Kraepelin, aparece entre os 30 e os 50 anos. O que a caracteriza, como vimos atrás, é um delírio de grandeza exuberante, com animo alevantado e facilmente irritável. Geralmente, as ideias de grandeza, segundo Kraepelin, na metade dos casos, e, segundo Bumke, com maior frequência, têm uma tinta erótica; em outras ocasiões adquirem elas uma tonalidade religiosa acompanhada de ideias de perseguição.
“Frequentemente”, diz Bumke, “tais ideias religiosas se confundem com as eróticas e dão lugar à fabulação que produzem uma impressão de onirismo ou de fantasia extraordinária”.   

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Capítulo 3 – Parte 4 – A Expressão Artística nos Alienados

...continuação do texto...

Poderemos citar ainda os trabalhos literários de uma demente precoce que Capgras (1) apresentou em Abril de 1911 à Sociedade de Psiquiatria de Paris.
Trata-se de uma professora com 38 anos, filha de um alienado. Na sua infância teve coqueluche, varíola, escarlatina e coreia de Sydenham. Mais tarde, apresenta-se emotiva, escrupulosa, obsedada, fóbica. Apesar disto, é muito inteligente e obtém, com 19 anos de idade, o diploma numa escola superior. Consegue o cargo de professora num arrabalde de Paris. Exerce sua profissão regularmente, a despeito da existência de obsessões, de preocupações hipocondríacas, de cefaleias frequentes e de pequenas bizarrias na conduta. Algum tempo depois, na idade de 29 anos, tem, no decurso de uma pneumonia, um acesso de delírio onírico, com alucinações do ouvido e da vista, ideias de culpabilidade e danação, visões do inferno. Depois de umas três semanas volta a sua lucidez, mas não desaparece o misticismo. Anteriormente irreligiosa, agora ela se preocupa com a Bíblia, comunga, fala sem parar de demônio e não quer saber de mais nada.  
Nessas condições, a doente entra na Salpêtrière para o serviço de Dejerine, que diagnostica: Delírio místico com agitação. Enfim, o seu estado vai se agravando cada dia, até se instalar a demência precoce com todo cortejo patognomônico (enfraquecimento intelectual, indiferença, maneirismo, estereotipismo, gatismo, etc.).
O que nos chama a atenção nessa doente é a sua grande atividade intelectual. Durante a época de sua permanência no Hospital, ela escreveu constantemente cartas aos médicos e ao mesmo tempo grande número de poesias com admirável correção de ortografia e de conceito, não obstante a progressão de seu mal.
Vejamos, por exemplo, esta bela poesia:

Être chatte de Perse

Je fais ce rêve: être chatte de Perse,
Aux jours d’ennui, ce doux songe me berce,
être chatte de Perse.

J’habitarais un palais magnifique,
On entrerait par um brillant portique,
Les diamants, les émaux e les ors
Y brilleraient em sublime décors.

Ce beau palais, il serait fait de jade,
M’y accouder sous quelque fine árcade,
Y étaler um habit magnifique,
Les pieds posés sur de riches toisons.
Luxes inouis, richesses à foisons,
Y revêtir quelque belle simarre,
Qui, brillament, de couleurs se chamarre,
Tel est mon rêve étrange et poétique.

O que mais admirar aqui? A harmonia do verso ou o conceito da inspiração?
Notamos que tudo isto foi escrito quando a demência precoce se havia definitivamente instalado no doente. Depois de 6 meses, mais ou menos, ela compõe uma espécie de jornal, no qual escreve a maior parte de seus  pensamentos. Enche completamente 5 cadernos de 100 folhas cada um, de composições literárias de sua lavra. É quando começam a se manifestar as perturbações psicográficas mais importantes. Assim, ao lado de frases claras, lógicas, bem comedidas, aparecem verdadeiras “saladas de palavras”, incoerências e desordens nas associações das ideias.
Como exemplo citemos este trecho:
                        De l’excrément
“L’excrément” ou ancien crément, cré racine de créer, ment prise a l’interieur égale à spirment, racine de mentir ou vie nouvelle-ment, vie nouvelle, voyance de nouveau à Dieu, voyance: Tour-un, prise entiêre (espirits) selles.
Excrément, ancien radical cré, prise ent. (interne parfait) Solide qui. Selon le radical créant, est positivement pur, égale à prise entire, comme à de l’esprit: defecations. Ainsi la scorie est égale au fuyant, ex, toutefois: nettoyez chaque fois avant d’allumer (tirage) grille Cordier (J. ou. rs.)
Personne ne peut savoir ce que Dieufait des scories, en tout, haves, pierres ponces, dejections.
Les excréments sont de la matière tombant sous les sens. Ce sont des corps. Ils sont à l’image de la croix: balance. Ainsi, il ne faut pas mettre les talons dedans. Il faut les ranger, à rapport côte d’Adam (Jésus-Christ est le novel Adam). Nous ne devons pas le sentir. Quand ils empuent, c’est a de la colère divine. Cette odeur et aussi réelle, aussi agreeable que celle de la Rose. Rosa mystica. Communion du vidangeur. Object à Dieu: amo.”
Notamos aqui a riqueza de fabulação exagerada, maneirismo e uma certa originalidade no poder descritivo.
“O esquizofrênico”, diz Bleuler (1*), “não é simplesmente um demente, mas um demente em relação com determinadas épocas, certas constelações e certos complexos”.
“Os produtos de uma declarada esquizofrenia na literatura e na arte, na maioria possuem o selo do louco e do estranho, o que não raro é encoberto por efeito algo patológico. Nos casos particulares, um pequeno desvio do normal dá à obra de arte uma certa originalidade , ou os pacientes podem dizer verdades que os sãos não se atreveriam em uma forma tão clara. Não raro, algumas excitações esquizofrênicas tendem em seu começo para uma atividade poética e até para uma certa capacidade, que fora disto não existe”.
É o que se dá com a arte futurista. Ela é positivamente uma arte esquizofrênica. Os artistas futuristas não são alienados, mas não deixam, contudo, de possuir temperamentos esquizofrênicos (1**).  
Nos desenhos de um parafrênico das figuras 70, 71, 72 e 73, o mesmo doente que compôs a valsa da figura 58, notamos um curioso primitivismo. A conformação do tórax destas figuras lembra as das figuras egípcias. Vejamos a história do doente e a descrição dessas figuras:
“P. (2), de origem italiana, branco, casado, de 37 anos de idade, morador em Bica de Pedra, foi recolhido ao Hospital do Juquery em 10 de Dezembro de 1920, onde o examinamos”.
“Não nos foram dados informes sobre seus próprios antecedentes pessoais, nem de família; não podemos dar crédito às suas informações, porque seu estado mental é mau e não merece confiança o que ele diz”.
“Alto, robusto, aparentemente não apresenta lesão alguma de órgão importante para a vida vegetativa. Tem os cabelos muito grisalhos para a sua idade. Seu rosto avermelhado dá a impressão de um homem congestionado, tanto mais que os olhos são sempre avermelhados, o que mais acentua essa impressão. Tem a língua geralmente saburrosa. As pupilas não reagem igualmente de ambos os lados; a reação consensual está muito levemente perturbada. Os reflexos superficiais acham-se diminuídos, os profundos exaltados. Apresenta ligeira disartria, muito pouco pronunciada, existe tremor das mãos, assim como tremores dos pequenos músculos peribucais e da língua. Sob forte emoção os tremores generalizam-se por todo o corpo. Estes últimos sintomas são tão apagados que só se observam com muita atenção”.
“A saúde somática geral é regular, embora seu peso não corresponda à altura”.
“Diz que o pai faleceu com 83 anos; mas, logo depois diz que está vivo; mais tarde diz que não o conheceu, e assim por diante ora uma coisa ora outra. Não gosta de conversar; é carrancudo e parece estar sempre de mau humor, ou, pelo menos, de humor altaneiro e levemente sarcástico”.
“Acredita que nunca teve pai; que com ele se deu o mesmo fato da vida de um príncipe da Espanha: foi criado escondido por uma família pobre. Sempre se diz filho de Vitor Manuel, rei da Itália (sic), irmão de Vitor Orlando, a quem está esperando todos os dias para levá-lo a casar-se com uma dama de alta hierarquia. Todos esses absurdos são ditos com ar calmo, de quem tem absoluta certeza. A absoluta decadência da lógica, do raciocínio, denuncia claramente o estado demencial global. A certas perguntas responde sempre: “Não sei de nada, o Lapa é quem sabe tudo”. É, naturalmente, alguém lá de Bica de Pedra”.  
“Presta bem atenção e compreende o que se lhe pergunta, embora responda com disparates e frases evasivas. Sua memória não está completamente obliterada. Os sentimentos afetivos estão embotados. A psicomotilidade não está exaltada nem inibida; apresenta-se normal”.

O estado atual de P. é o mesmo de quando foi observado em 1920. As suas ideias delirantes giram todas neste mesmo princípio : “É filho do Rei da Itália e vai casar-se com uma princesa.
Vive isolado dos companheiros; não quer trabalhar e dedica-se à pintura, ao desenho e à música.
As suas produções de arte revelam uma feição muito característica e extremamente pessoal. Da grande coleção que possuímos dos desenhos de P., verifica-se que há sempre neles os mesmos personagens ilustrando as cenas de suas composições. A sua arte, pois, se resume num só motivo estereotipado, que lhe serve de base para as suas criações. É digna de nota a sua estranha obsessão em somente pintar figuras de negros; algumas vezes, essas figuras o estão acompanhadas de aves e de animais domésticos. A técnica do desenho de P. é primitiva; vê-se que ele desconhece completamente a perspectiva. A representação do movimento também não existe nas figuras que ele traça e a semelhança delas com as da arte egípcia é acentuada. É preciso salientar que essa tendência pictórica somente se manifestou em P. depois da perturbação mental, o que para nós tem real importância.
Muito mais interessantes são os seus desenhos do que as suas composições musicais. Antes da moléstia que o atacou, P. já conhecia regularmente música; por isso, as suas valsas não apresentam maior interesse quanto à originalidade. Em todo caso, elas são mais dignas de atenção e de estudo que as de B. (veja pag. 41), ao passo que os seus desenhos são admiráveis pela originalidade. Uma das características apresentadas nesta arte em P. é o desprezo pelo interior. Em quase todos os seus quadros nota-se a absoluta ausência de decorações e ornamentos no interior, o que, para os outros artistas alienados constitui motivo de evocações extravagantes dos aspectos da natureza. Nesses artistas, o interior de um quadro é sempre motivo de bizarros enfeites. Todavia, algumas vezes P. põe nos seus desenhos ligeiros motivos ornamentais pobremente estilizados. Na figura 70, por exemplo, que representa um casal de  com uma planta em cima de uma cadeira. Interessante é que o encosto e os pés da cadeira são notas musicais estilizadas.
Tanto a figura da mulher como a do homem não apresentam nenhum relevo e dão a impressão de uma superfície plana.
É, sobretudo, na conformação do tórax que as suas figuras parecem com as da arte egípcia. O pescoço e os braços acham-se atrofiados. No entretanto, os olhos são expressivos e bem iluminados.
A figura 71 apresenta igualmente essa mesma atitude pictural que, aliás, em P., como já dissemos, constitui um motivo de estereotipia. Os animais que fazem parte dessa composição (cães) dão ideia de brinquedos de crianças, tais são as atitudes em que estão dispostos. Uma zoolatria é observada em quase todos os quadros de P. e a prova disto está nos seus desenhos reproduzidos aqui nas figuras 72 e 73. Quando não é o cão o animal que acompanha as suas figuras, é o urubu, a ave agoureira, que ele pinta com uma certa expressão de realidade.
A figura 73 descreve uma cena de assassinato que P. diz ter presenciado no interior do Estado de São Paulo. Um negro, com os joelhos sobre o solo, aponta uma arma de fogo para outro negro, armado com espingarda e facão, em posição de sentido, mas sem dar a menor atenção ao grave fato.
Como ornamentação do quadro, há em cima, de um lado, uma galinha com um urubu. Do outro lado, uma cesta onde uma fêmea dessa ave que acaba de deitar um ovo. Em baixo, perto do negro sentado, um cão em atitude de espanto, olha para o soldado. Há muita ingenuidade nessa concepção.
Na figura 72 vê-se uma fachada de igreja. Um homem aparece na porta central  e no telhado pousa um urubu. Notam-se nesse desenho exageros de proporção e falta de homogeneidade. Enfim, a arte pictórica de P. é primitiva, grosseira e apresenta vários pontos de contato com a arte de crianças de grupo escolar. Apesar disto, pode-se admirar nela uma certa e curiosa originalidade.
A outra manifestação artística que P. revela é a música. De um pedaço de bambu ele faz uma flauta (fig.74) que, de quando em vez, toca, executando trechos musicais de sua lavra. O som desse instrumento não é agradável ao ouvido e nem as suas composições são toleráveis.
As músicas de sua autoria são valsas e dobrados.
A figura 75 é a reprodução das páginas de um interessante livro feito por um demente precoce no período inicial. É extraordinária a paciência com a qual o doente procurou imitar letra de imprensa e de ilustrar com grande número de desenhos coloridos o seu trabalho. É um livro de histórias de aventuras para crianças. Na primeira parte está escrito: “O dedinho de Haguida ou os mistérios de uma terra. Romance por M., em 5 partes fantásticas para as crianças”. Na segunda página lê-se: ”Romance brasileiro. Com mil gravuras coloridas... quase em resumo”. E logo abaixo isto: “(Lectures pour tous)”. Primeira parte. “O destino negro de Bolozarkiw ou Ódio falso do monstro Lubison pela mão prometida da misteriosa Arlinda”.  
A história tem imaginação e é escrita numa linguagem clara. Há muita coisa interessante neste livro e um certo grau de erotismo sexual.
Apreciemos este trecho:
“Arlinda, ou a bela virgem adormecida, levantou-se do seu encanto, daquela riquíssima poltrona, guarnecida de ouro, que o Bolozarkiw podia ver na ilusão da sua doença, dizendo-lhe com voz altiva e delicada: “Sou tua, sei que te pertenço! Meu coração, meu doce; e o meu pai estará muito satisfeitíssimo, desde o momento que te entregou este espinho venenoso. Toma cautela! E juizinho, meu bem, que sou tua”.
“Sim! Meu amor! – terminava o Bolozarkiw, como que se estivesse no acordar de um sonho – “mede o meu coração, e vê o quanto te adoro”.
Pela história fantásica que o doente escreveu e ilustrou com figuras de monstros, parece tratar-se de alucinações de fundo erótico mascarado pela censura com a denominação de história para crianças.
“Os contos de fadas, diz Franco da Rocha (1***), têm semelhanças notáveis com outras lendas, em todos os pontos do globo, fato que a psicanálise explica sem dificuldade. O fator sexual aparece dissimulado nesses contos, nos quais estão ocultas as mais perversas tendências, principalmente a algolagnia (o prazer libidinoso ligado à dor) no seu grau mais elevado – o sanguinário. São, na opinião de Riklin, criações da alma humana primitiva, utilizadas de acordo com a tendência geral do homem: a satisfação de seus desejos”.
O doente começou a escrever o livro quando os primeiros sintomas da psicose se haviam esboçado. Atualmente ele se encontra em estado demencial. Os seus desenhos são rabiscos (fig. 76) de coisas quase indecifráveis.
Nos alienados, as estilizações cubistas são comumente encontradas sobretudo nos artistas plásticos.
Lafora (3) refere-se a um caso interessante, que reproduzimos aqui na fig. 77 intitulado “Cristo e Virgem”. Trata-se de um homem culto, que nunca se preocupou com desenhos, antes da moléstia. É bem curiosa a expressão de desprendimento e o contorcionismo que vemos nas imagens do quadro, a riqueza do poder de abstração na fisionomia da Virgem e a estranha ambiguidade de seu rosto. Todo esse conjunto aparece num deslocamento de perspectiva, que dá ao quadro uma feição original.
“Na análise sistemática que faz Jaspers (3), dos desenhos dos alienados, diz que há um grupo de produtos artísticos com expressão da vida psíquica do autor, e este se origina quando as faculdades mentais dos doentes não estão muito alteradas”.
“As produções mais características são as dos psicóticos (muitos deles esquizofrênicos latentes). O conteúdo destes desenhos, diz, está caracterizado por representação de fabulações, de aves agoureiras, monstros visionários, misto de homem e animal, pela centuação descaramente manifesta das coisas sexuais e sobretudo por uma tend~encia à representação em conjunto com uma imagem do mundo, a essência das coisas, uma concepção do universo, ou ideia cósmica”.
Como acabamos de ver, qualquer que seja a sua forma, a demência precoce é capaz de produzir manifestações artísticas dignas de admiração.

Notas de Osório Cesar:  
1 – Ecrits et poesies d’une demente precoce. Encéphale, 1er sem. 1911 pag. 474.
1* - obra já citada.
1** - Bleuler divide os indivíduos normais em dois grupos, segundo sua atitude em face da realidade: 1º os sintonistas, que são aqueles que nunca perdem o contato com o diapasão do ambiente, de poder vibrar uníssono com ele. É a realização ao mesmo tempo da unidade da personalidade. 2º Os esquizoides são aqueles que perdem este contato pois “a esquizoidia é a faculdade de se isolar do meio, de perder contato com ele: ela tem por consequência um enternecimento mais ou menos grande da síntese da personalidade humana”.
Sollier- Courleon. Pratique sémiologique des Maladies Mentales, Masson, 1924.
2 – Observações psiquiátricas do Hospital do Juquery. Ano 1920. Nº 41.
3 – Allgemeine Psychopathologie. Berlim, 1920, 2 edit. pag. 103.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Capítulo 3 – Parte 3 – A Expressão Artística nos Alienados

...continuação do texto...

Nos desenhos dos dementes precoces catatônicos notamos com frequência o mesmo estilo dos desenhos das crianças; eles são geralmente mal acabados. As figuras humanas, quando representadas, se apresentam intercaladas, ora de ilustração deletrada, como no caso de um doente catatônico de Bleuler (fig 59), ora rodeados por símbolos, sinais cabalísticos (figs. 41, 42), doente do Hospital do Juquery.
Essa manifestação de desenho pueril parece ser característica da demência precoce, sobretudo na de forma catatônica. Pois, mesmo entre doentes que outrora souberam desenhar bem, a representação gráfica infantil num dos períodos da moléstia, estado demencial (fig. 69) é comumente observada. Daí o supor-se que a mentalidade desses doentes tenha sofrido uma regressão atávica às épocas pré-históricas da humanidade.
Além desta forma de desenho do primitivo, que constitui, como acabamos de dizer, uma atitude quase geral nesses doentes, encontramos algumas vezes outras formas gráficas surpreendentes, que nos fazem lembrar antigos motivos bizantinos, hindus e das tapeçarias da Idade Média (figs. 60. 61, 62 e 63).
Interessantes são os desenhos de um demente precoce paranoide, relatados por Parturel (1), cuja originalidade de concepção muito nos admira (fig. 64). O doente em questão, operário, reside na campanha e nunca teve instrução além de rudimentar.
É curiosa a semelhança de seus desenhos com os dos livros antigos de medicina.
Os quadros que reproduzimos nas figuras 65, 66, 67, 68 e 69 são de uma demente precoce  do Hospital do Juquery, cuja história vamos contar:
O. (2), brasileira, de cor branca, de 30 anos de idade; não é casada, nem solteira, nem viúva: há anos está separada judicialmente do marido, que deu justificação a isso pela sua embriaguez habitual e brutalidade contra a esposa.
Temos diante de nós uma mulher de aparência forte, sadia, sem moléstia somática perceptível. Sua família não refere a existência anterior de qualquer alteração física de saúde. Queixa-se, porém, de seu comportamento, de seus atos, que destoam pavorosamente da educação que recebeu e do meio social a que ela pertence. Veste-se com exageros impróprios; sai só, a passeio, e vai ao escritório de um médico, pede-lhe que sirva de intermediário junto a um certo colega deste, por quem ela tem paixão e com quem quer viver na Europa, e lá casar-se com ele. Escreve carta ao médico intermediário, pede-lhe que resolva logo F... a aceitá-la; propõe-se a sair disfarçadamente de casa e encontrar-se com F... a bordo, para de lá seguirem juntos; não se esquece do filho que deverá também seguir para ser educado fora da influência da família, isto é, da avó, das tias e tios, que, na opinião de O..., estão pondo o menino a perder. Arma brigas terríveis com as irmãs, com cunhados e com a própria mãe; são discussões azedas em que a paciente revela um certo grau de embotamento dos sentimentos éticos.
Se lhe falam do pai (que era um homem distinto) para evidenciar assim a inconveniência de sua conduta, ela ri às gargalhadas zombeteiras, tapa os ouvidos com os dedos, responde às irmãs: “Vocês são umas pestes, fingidas; vocês não pensam desse modo; só têm em vista em contrariar, em desgostar por maldade pura, pela intenção maldosa de me perseguir”.
Aí está um delírio de perseguição sem base alucinatória, puramente interpretativo, que se justifica aparentemente com fatos reais. Do que ela não se lembra, entretanto, é que a suposta perseguição da própria família é a reação natural contra sua conduta, sua incapacidade de adaptação ao meio social, conduta essa que tem trazido vexame e atribuições enormes a seus parentes. Submetida a cuidadoso exame mental, nenhuma perturbação psíquica elementar se lhe pode descobrir. Atenção: normal. Memória: bem conservada, tanto para os fatos recentes como para os antigos. Não há desintegração de cultura intelectual anteriormente adquirida. Seu estado afetivo, entretanto, não corresponde ao de uma pessoa que se sente perseguida. Não há tristeza, nem depressão melancólica; ao contrário, nota-se um certo exagero da própria personalidade; um estado de humor um pouco alegre, mas leviano, sem ponderação. Seu juízo, isto é, as faculdades de crítica, de exame, de reflexão, se manifestam bem fracas, embora as aparências enganem e a forma lógica exterior do raciocínio se mantenha bem conservada; uma simples análise de suas palavras e procedimentos revela fraqueza de modo a não deixar dúvidas. Quer casar-se com um médico, apesar de não ter o assentimento deste; interpreta as palavras e gestos dele, em qualquer conversa, com uns tantos sinais certos de anuência. Escreve-lhe e, não obtendo resposta, atribui essa falta a desvio de cartas. Não tem fortuna; vive com a família, que só dispõe de modestos recursos, entretanto fala em seguir para a Europa com o sangue frio e a naturalidade de que já tem depósito nos Bancos. O médico com quem ela projeta seguir viagem já lhe fez ver clara e energicamente a inconsistência de sua conduta, a incongruência de seu procedimento, mas não conseguiu varrer-lhe do cérebro tais ideias. Todas as suas conversas giram em torno desses assuntos: a fuga para a Europa com o aludido médico; o casamento possível, visto que as leis lá o permitem; as outras mulheres que têm feito o mesmo e voltado casadas (cita nomes e fatos reais bem conhecidos do público); a perseguição da família, que, a seu ver, é pura perversidade; as cartas diariamente escritas ao médico, ao intermediário e a outras pessoas por ela envolvidas nessa aventura. Recolhida ao Hospício do Juquery, aí continua com as mesmas ideias, mais resolvida a se deixar examinar para poder levar um atestado de perfeita saúde mental. No terceiro dia, porém, achando que o exame já estava muito demorado, exigiu sua saída e, como encontrasse resistência, pôs-se a praticar atos de violência, como, por exemplo, quebrar vidraças, dar bofetadas nos vigilantes, morder os que tentavam contê-la, ameaçar com violências ainda maiores se não a deixassem sair. Tal estado chegou a ponto de ser preciso recolher ao isolamento em quarto fechado, para evitar maior mal. Apesar de tudo isso, não há confusão de espírito nem alheamento do mundo exterior; confessa que é meio neurastênica e que sempre em casa a chamavam louca, porque tem seus dias em que sente uma certa confusão de ideias.
O isolamento em quarto fechado foi interpretado como castigo e produziu-lhe salutar efeito. Voltou a calma, que permitiu se lhe desse de novo relativa liberdade. Lê os jornais que lhe caem às mãos e encontra quase sempre alguma coisa neles que interpreta como referência a sua pessoa e aos fatos que ultimamente se têm dado consigo. Não come frutas nem doces que são enviados por sua família; isso tanto pode ser desconfiança como simples capricho.
A observação que acabamos de ver é da época de sua entrada no Hospital (1914).
Até 1923 o seu estado psíquico não sofreu alternativas notáveis. O seu desenvolvimento artístico, entretanto, foi intenso. Passava os dias no pátio do pavilhão a pintar natureza morta e paisagens das redondezas. E era principalmente a aquarela o gênero de pintura preferido. Todas as suas composições apresentavam exuberância de cores e, dentre estas, a que mais preferia era o vermelho de sangue.
De 1923 para cá, o seu psiquismo foi-se modificando a ponto dela não se preocupar mais de pintura, notando-se gatismo e embotamento dos sentimentos estéticos. Vive hoje em absoluta despreocupação de tudo e de todos, não se importando mais com suas roupas e nem com a maneira de se trajar. Isolada das companheiras, balbucia coisas incoerentes e esfrega, nas pernas, nos braços e no rosto, terra que apanha do solo.
Para termos ideia de seu estado atual (associação extravagante de ideias), reproduzimos abaixo um trecho que ela ultimamente escreveu a pedido nosso:
“Imortalidade do corpo no fogo; descoberta com ar e fogo a grau inteligência compreendedora e houve desastre, e não pode tirar porque o fogo é pior do que julgava; era trato; e por esta razão não pode constituir pena da Justiça; em outro cá tenho os pontos de alma ainda melhores”.
A manifestação pictórica nessa doente não é uma consequência da psicose que ela apresenta, pois, muito antes de vir para o Hospital a sua capacidade artística já se havia desenvolvido brilhantemente, como resultado de sua formação intelectual.
O que se nota na sua arte, depois de sua internação em Juquery, é que ela teve um certo período de superatividade para cair em seguida numa inércia quase completa e na qual permanece até agora.
Durante o período de superprodução de que fazem parte as figuras 65, 66, 67, 68, a sua arte já não apresentava os mesmos caracteres de outrora, isto é, de quando o seu estado mental era normal. Já havia qualquer coisa a se notar nos desenhos e nas combinações das cores de suas produções. Passado este período, os desenhos de O... foram cada vez mais se tornando primitivos até ao ponto em que está o da figura 69 (um dos últimos que recolhemos), cuja semelhança com os desenhos de crianças do segundo ano do grupo escolar é chocante.
As figuras 65 e 66 representam paisagens. São impressões a óleo. O motivo predominante da composição da figura 65 é uma grande árvore, parecendo ser plátano e que domina quase toda a tela. O céu é de um azul muito vivo e sem nuances. Não há diferenciação de tonalidades. O plátano está regularmente desenhado com os seus galhos em relevo e sua copa está bem representada por uma mancha de tinta de várias tonalidades, que vem do amarelo claro com um pouco de verde desmaiado, até o amarelo escuro e seco.
Nessa paisagem que O... copiou diretamente da natureza, veem-se ainda dois morros com cores artificiais, que estão situados no mesmo plano da árvore. Em cima, num canto do lado direito, num canto do céu, há duas manchas bem distintas: uma vermelha, sanguinolenta, ligeiramente desbotada e outra mais abaixo e em seguida, de tonalidade amarelo ouro. Em toda essa composição notam-se falta absoluta de perspectiva e uma intensa vivacidade de cores. Pelo emprego das tintas com as quais O... compôs este trabalho, poderemos pensar numa paisagem outonal. Assim, a variante das folhas e também os galhos que ela procura salientar em tinta bem escura, são motivos desta estação. Acresce ainda a mancha vermelha do céu. Isto tudo nos faz pensar numa representação do outono.
As cores empregadas nas paisagens das figuras 65 e 66 são principalmente o azul carregado, o amarelo esverdeado e o vermelho sanguíneo.
A simbolística das cores muito vem auxiliar-nos quanto à interpretação freudiana dos quadros de O... Vejamos como a este respeito se exprime Spengler (1*):
“O azul e o verde são cores transparentes, espirituais, suprassensíveis. Não sáo aplicadas na pintura a fresco de estilo ático; e por isso mesmo predominam na pintura a óleo. O amarelo e o vermelho, cores ‘antigas’ são as cores da matéria, da proximidade das emoções sanguíneas. O vermelho é a cor própria da sexualidade; por isso é a única que atua sobre os animais. Ela é a que mais se aproxima do símbolo do falo – e, portanto, da estátua e da coluna dórica –, enquanto que o azul puríssimo serve para transfigurar o manto da Virgem. Esta relação impôs-se por si mesma em todas as escolas, com necessidade profunda”.
Como símbolo da sexualidade, temos nas paisagens 65 e 66 a árvore (membro viril) e a cor vermelha sanguínea (órgão sexual feminino, coito, desvirgindade).
A paisagem a óleo reproduzida na figura 65 apresenta-se com caracteres idênticos aos da pintura antiga. É interessante observarmos hoje em dia a arte decorativa da antiguidade, em vista de seu ponto de contato com a arte ultramoderna, que não representava as distâncias, pondo os objetos em um mesmo plano.
“A pintura antiga não teve perspectiva justamente porque evitou esse ponto, porque não reconheceu, não admitiu a distância (1*)”.
Em O... é curiosa a composição dessa paisagem porque é a única de nossa coleção que se apresenta mais original sob o ponto de vista do primitivismo. O mesmo fato, entretanto, não acontece com as figuras 66, 67 e 68, onde a visão do espaço é tratada mais significativamente.
Na figura 67, por exemplo, que se assemelha um tanto à pintura japonesa, as localizações das coisas no espaço estão regularmente distribuídas de acordo com as respectivas distâncias. Vê-se que ela aqui muito se preocupou com os detalhes, procurando dar relevo e naturalidade ao motivo principal de sua composição. Assim, os eucaliptos se mostram reconhecíveis graças ao seu bom acabamento pictural.
A figura 68 também apresenta pontos de contato com a arte japonesa primitiva. Nesta aquarela a sua preocupação se orientou mais para o lado da representação de conjunto do quadro do que para os detalhes. A árvore desenhada não tem o acabamento da árvore da figura anterior. É quase uma mancha.
A figura 69 bem patente mostra a decadência do seu estado psíquico atual. Se a sua arte apresentava um cunho de ligeiro primitivismo no período que vai de 1914 a 1923, presentemente ela retrogradou, em virtude do seu estado demencial, ao período de infantilidade.
Basta compararmos o desenho da figura 69 com o da figura 8 (desenho infantil) para vermos a profunda analogia que existe entre os mesmos.
Nos alienados artistas é muito comum observar-se, como neste caso, um período de excessiva produtividade, quer na literatura e na poesia (grafomanos), quer nas artes plásticas (pintura, escultura, etc.). Nesse período, a inspiração do louco é lúcida e fecunda. Ele cria, na sua esfera, um mundo de belezas. Mas, depois, chega a fase de involução, de embotamento intelectual, estado demencial, como soe acontecer com os paralíticos gerais, os esquizofrênicos, etc., e ele volta ao caos primitivo, à vida vegetativa. O mundo para eles se torna agora inteiramente diferente. A arte, então, ou se traduz por sinais representativos (símbolos, veja figs. 1, 45 e 46), ou se manifesta grosseiramente, por representações de cenas da natureza, sem homogeneidade de composição.
No quadro, os objetos podem grupar-se de modo inorgânico, uns sobre outros, uns junto de outros, uns detrás de outros, sem perspectiva, sem mútua relação, isto é, sem destacar o fato de que a sua realidade depende da estrutura do espaço; pelo que quer dizer que se deva negar essa dependência. Assim desenham os selvagens e as crianças antes de que a experiência íntima da profundidade tenha submetido suas impressões sensíveis do universo a uma ordem mais profunda (1**).
É o que acontece com a nossa artista.
Como vimos, atualmente o seu estado é demencial.

Notas de Osório Cesar:
1 – Dessins anatomiques et conceptions médicales d’um demente precoce. Encephale, premier semt., 1911.
2 – Observações psiquiátricas do Hospital do Juquery, Nº 12, ano 1914.
1* - Oswald Spengler – Obra cit. Vol. II, pag. 44.
1** - Idem, pag. 49.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Capítulo 3 – Parte 2 – A Expressão Artística nos Alienados.

Osório César continua com o tema que ele subintitula como “O ‘Autismo’ do Professor Bleuler”. Frisamos que esse conceito inicial de Bleuler com essa designação, modificou-se gradativamente posteriormente.

...continuação do texto...

Nos artistas, literatos, poetas, escritores, o temperamento autístico é bem desenvolvido. Neles, a facilidade com a qual mergulham o seu pensamento no sonho, para de lá retirarem as preciosidades que exteriorizam nos encantos de uma obra de arte, é conhecida de todos nós.
Escutemos, por exemplo, o poeta de “Vana” (1), na “Canção do Louco”, poesia que é um primor de nossa literatura:

Canção do Louco

Meu cérebro é um moinho tenebroso,
um moinho que gira sem cessar.
Um vento mudo e misterioso
fá-lo girar.

É velho e pardo, abandonado e feio
como bem poucos.
Já m’o disseram e eu também creio:
- É o moinho dos loucos.

E a roda gira! De girar não cessa!
Os grânulos de ideia vão tombando...
E a mó de pedra sempre mais depressa
pulverizando.

Estranho moinho, o teu destino é triste!
Teu tormento indizível é sem fim.
Ah! Na verdade em parte alguma existe
um outro moinho assim!

Minho ambulante, de onde vem o vento,
teu algoz, invisível e maldito?
...E a mó sempre a moer o pensamento.
- Trigo infinito!

Mas este mundo é muito curioso:
- Que quer dizer toda essa gente infinda
de boca aberta, a me fitar?
Homens de juízo, não sabeis ainda?
Meu cérebro é um moinho tenebroso,
um moinho que gira sem cessar...

“Na criança (1*), o pensamento autístico permite a satisfação dos mais ardentes desejos: nos jogos, nos brinquedos, nos contos maravilhosos, ela sonha uma vida cheia de prazeres, com todos os atributos de uma existência real. O petiz que brinca de general, cavalgando um cabo de vassoura, sente-se a criatura mais poderosa do mundo e aquele pedaço de pau tem para ele todas as qualidades de um fogoso corcel”.
“No homem adulto civilizado, o autismo se manifesta com a máxima intensidade nos sonhos noturnos. Durante a vigília, ele acarreta uma intensa atividade imaginativa, que vai desde o simples devaneio até as formas mais elevadas da imaginação estética e científica”.
“A introversão é, pois, uma situação de equilíbrio instável entre a saúde e a doença, bastando um pequeno desvio na distribuição da energia psíquica para que se manifeste a alienação mental”.
“No introvertido, a vida imaginária e interior tende a predominar cada vez mais sobre a vida real e exterior. Como ensina Ribot, ele distingue dois mundos, dos quais um é preferido e outro apenas experimentado. Mas crê em ambos e tem a consciência  de passar de um para outro: há alternativa. No alienado, a distinção entre os dois mundos desaparece. Suas fantasias são invertidas de uma realidade objetiva e os elementos exteriores não mais o atingem ou são interpretados de acordo com o seu delírio: não há mais alternativa”.
É o que vemos na demência precoce, na parafrenia e na paralisia geral.

Notas de Osório César:
1 – José Lannes – “Vana”. São Paulo, 1920.
1* - Durval Marcondes. O simbolismo estético na literatura. São Paulo, 1926. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Capítulo 3 – Parte 1 – A Expressão Artística nos Alienados.


No primeiro parágrafo, Osório César pontua os temas do capítulo 3.
A seguir, pode-se observar que ele usa os termos “demência precoce” e “esquizofrenia” alternadamente para a mesma condição, expondo discussão sobre esses conceitos embasada em vários autores. Vemos assim que essas conceituações estavam em debate nesse momento. Também o uso do termo “autismo”, que não correspondia exatamente ao seu uso atual, entrava nessa discussão. De resto, como sempre acentuamos, há palavras e expressões próprias da década de 1920, que devem ser adequadas a esse período.

...continuação do texto...

Conceito clínico-psicológico da demência precoce. Interessante biografia de um demente precoce paranoide. “o autismo” do professor Bleuler. Desenhos de esquizofrênicos (estudo comparativo). Interpretação psicanalítica dos quadros de uma pintora paisagista do Hospital do Juquery. Poesia, literatura e desenhos de três dementes precoces.

A demência precoce é uma moléstia mental estudada primeiramente por Morel em 1858, cujo conhecimento foi mais tarde desenvolvido extraordinariamente por Kraepelin, constituindo o seu estudo clínico “uma das mais belas concepções”, como diz Roxo desse autor alemão.
A definição que dela deu o professor Júlio de Mattos (1) foi a seguinte: “É uma psicose constitucional caracterizada por uma desagregação das funções afetivo-motoras e intelectuais, sobrevindo, em regra, na adolescência ou na juventude e tendo por termo, para a qual caminha através de episódios alucinatórios e delirantes, uma irreparável falência mental”.
Muitas designações têm sido propostas para assinalar esta entidade mórbida: Demencia sejuntiva (Gross); Demencia paratônica (Bernstein); Esquizofrenia (Wolff. Bleuler); Ataxia intrapsíquica (Stransky), etc.
A esquizofrenia, como diz Lafora (2), não é uma moléstia mental que surge bruscamente num indivíduo são, mas é uma exaltação violenta e patológica de um processo que anteriormente se desenvolvia pouco a pouco em um indivíduo de aparência normal, sob a forma da chamada constituição mental “esquizotímica”.
No início da demência precoce geralmente aparece irritabilidade exagerada, sensação de mal estar e humor alterado. A personalidade começa a se modificar. O indivíduo não é mais o mesmo. Há profunda transformação do seu “eu”. As respostas são dadas de mau humor e um ódio surdo, sem razão de ser, pelas pessoas de sua família, se implanta na imaginação do demente precoce, a ponto de se tornar um perigo a sua permanência em casa. As reações emotivas são intensas. Lógica absurda. Quando se lhe comunica a notícia do falecimento de qualquer pessoa da família, como seja do pai, mãe ou irmãos, ele a recebe com satisfação, como se fora uma boa nova.
De todas as sensações é a dor que persiste por mais tempo na demência precoce. 
A consciência não desaparece senão em estado de grande excitação ou de intenso estupor. A memória se encontra sem alteração sensível.
É muito comum verem-se dementes precoces que recitam de cor poesias longas, discursos, trechos latinos de coisas aprendidas nos tempos de escola.
O raciocínio a pouco e pouco vai se tornando de nível inferior, até que chega a ser tolo e pueril. As associações de ideias são extravagantes e muitas vezes sem nexos. Casos há (são frequentes) em que se nota o chamado negativismo intelectual (Bleuler). O doente não consegue dar uma resposta razoável e, numa verdadeira paralogia constante, diz um grande absurdo em resposta ao que se lhe pergunta. Por exemplo, pergunta-se que idade tem e diz um dia (Roxo).
As perturbações de cenestesia são notáveis. Dizem-se influenciados pela eletricidade, pelo rádio e telégrafo sem fio. Acham-se magnetizados, hipnotizados; sentem-se roubados de suas ideias.
A capacidade intelectual diminui e o doente cai irremediavelmente num primitivismo pueril e extravagante.
As ideias sexuais não são raras; elas vêm com as alucinações. Os doentes ouvem vozes que os acusam de terem sido vítimas de pederastia. Tiram-lhes os órgãos sexuais. Introduziram-lhes varetas de ferro no ânus.
Os atos impulsivos tornam esses doentes perigosos. São frequentes as agressões por parte deles a pessoas de quem recebem gentilezas. São traiçoeiros.
O negativismo, cuja definição de Kahlbaum consiste na tendência permanente e instintiva a reagir contra toda solicitação do mundo exterior, qualquer que seja a sua natureza, invariavelmente acompanha a demência precoce durante o período da evolução até o seu estado terminal.
Daí o observar-se nesses doentes a sitiofobia, o gatismo e o mutismo.
Na sitiofobia há recusa terminante dos alimentos. Muitas vezes a oposição do doente é tão grande que necessário se torna o médico lançar mão da sonda a fim de não ficar o doente sem alimentos.
No gatismo ou imundície, os doentes não se incomodam com a limpeza de si próprios. Sujam-se com urina, fezes e toda sorte de imundície que encontram.
No mutismo, o doente fica sem pronunciar uma só palavra meses e anos. Conhecemos um doente no Hospital do Juquery que desde a sua entrada (há dois anos seguramente) até agora se conserva no mais absoluto mutismo.
As estereotipias são frequentes nos dementes precoces; elas se apresentam sob duas formas: as acinéticas e as paracinéticas.
As acinéticas se caracterizam por atitudes extravagantes da postura tomadas pelos doentes. Ficam horas inteiras imóveis, agachados num canto ou em pé, com a cabeça baixa.
As paracinéticas são as estereotipias de movimento. Os doentes caminham sem parar de um lado para outro ou esfregam os dedos repetidamente.
O maneirismo é uma manifestação também muito frequente na demência precoce. Consiste na afetação dos atos do doente.
A demência precoce, segundo Kraepelin, na 7ª edição do seu Tratado de Psiquiatria, está dividida em três formas: hebefrênica, catatônica e paranoide.
A hebefrênica caracteriza-se principalmente pelas perdas da afetividade e iniciativa, associação extravagante de ideias, modificações da personalidade, abaixamento do nível intelectual e distúrbios sensoriais com alucinações multifárias (Roxo).
A demência precoce catatônica é constituída essencialmente por perturbações motoras. Negativismo, sugestibilidade e estereotipia.
A paranoide tem como sintoma capital a ideia de posse física e o eco do pensamento (Kraepelin).
Segundo Regis (1*), podem-se distinguir, no conjunto dos estudos mórbidos englobados por Kraepelin sobre a denominação comum de demência precoce, dois tipos essencialmente distintos: demência precoce constitucional ou degenerativa e demência precoce pós-confusional, aproximada da demência precoce e da confusão mental.
Exemplo do primeiro tipo: indivíduos moços, mais ou menos tarados anteriormente, que, depois de revelar certas tendências intelectuais, estacionam logo, depois declinam, na ocasião e sobre a influência autotóxica do processo púbere.
Exemplo do segundo tipo: aqui, com ou sem predisposição anteriormente marcada, o processo patológico começa por um período de confusão mental aguda, tóxica ou infecciosa. No curso ou em seguida a este acesso agudo, aparecem fenômenos de estupor com os sintomas característicos da catatonia.
Ultimamente a tendência da psiquiatria é não considerar mais a demência precoce como uma doença única e sim como uma síndrome. E é o que parece mais acertado. Oswald Bumke (1**), justificando este modo de encarar a demência precoce, escreveu o seguinte: “Verdadeiramente, a esquizofrenia não é uma doença única. As numerosas variantes de seu curso clínico é o fato de que em quase todas as doenças orgânicas conhecidas (do sistema nervoso) podem apresentar quadros clínicos esquizofrênicos, fazem pensar que os sintomas esquizofrênicos constituem formas gerais de reação, com os quais o encéfalo pode responder a muitas diversas causas mórbidas”.
E, mais adiante: “Portanto, as síndromes esquizofrênicas, ainda quando se mostram com tais particularidades características, não justificam hoje em dia a fórmula de conclusões clínicas especiais. É absolutamente certo que se apresentam excitações catatônicas e estados de estupor nas infecções e intoxicações da mais variada natureza, assim como no climatério, na senilidade, na paralisia, na sífilis cerebral e em seguida aos traumatismos do cérebro; igualmente certo é também que esquizofrênicos típicos pelo seu curso podem ser evidenciados ou provocados por afecções febris e pelo puerpério”.
Este mesmo autor define assim a demência precoce: “sob a denominação de demência precoce ou de esquizofrenia englobamos (no momento atual) numerosos casos de doença, cuja especial característica consiste numa destruição da personalidade psíquica que tem lugar, sem causa conhecida, nos anos juvenis”.
“Os sintomas especiais de todos os processos esquizofrênicos”, diz Bumke, “consistem em uma característica desagregação do pensamento, determinadas pseudo-percepções específicas e reações afetivas paradoxais”.
Por esta narração sintética da opinião de vários autores, que acabamos de fazer acerca da demência precoce, podemos avaliar, desde já, quanto devem ser interessantes as manifestações artísticas criadas por essas personalidades constituídas de acentuadas desagregações do curso da associação das ideias, de alucinações, ideias delirantes, eróticas, persecutórias, de grandeza, automatismos, estereotipia, etc..
Vejamos, por exemplo, a autobiografia abaixo transcrita de um demente precoce paranoide do Hospital do Juquery, onde se mostra bem patente um delírio absurdo de grandeza, com fundo religioso.

MA BIOGRAPHIE
Par E.P.
“Je suis né le 25 Mars 1885, à Londres. Je fus habiter le grand-duché de Luxembourg, où je m’installai avec ma famille. Le calendrier bourgois n’a que 45 années depuis cette époque jusqu’a aujourd’hui. Mais m avie dura um confort ecclésiastique. M avie se divise em époques: la première, mon enfance avant lécole primaire, la deuxième, l’école primaire, la troisième, ma jeunesse avant mon entrée dans les ordres, la quatrième, depuis mon entrée dans les ordres jusqu’au moment où je fus hors d’office, la cinquième m avie de Priva-Dozent, et de Monarque, jusqu’à l’époque où j’arrivai à São Paulo, la sixième, ma vie comme professeur e Président de République jusqu’au moment où je me révellai avec Dionysius Verdin, dans le parloir de cette Maison. Je reçus les Saintes-Ordres comme suit: Von Mettlach, qui est aussi von Dobelutz, Professeur à l’Université de Halle, ff. d’évêque de Luxembourg, me conféra les ordres Mineurs à Paris, lorsque je fus sacré Roi de Belgique, sous le nom de Frommler. (Le Sacre des Rois de France, par Rotoiger, Paris Metzger 1900 – The Tipies of the Old Testament, by Francis Andrew Lang). Je reçus le jour diaconat et le diaconat avant, respectivement après le sacrament du Mariage, à Halle an der Saale, lorsque je fus l’empereur d’Allemagne, Guillaume II. Le Sacerdoce me fut conféré par le meme prélat, à Luxembourg, avec mes camarades, qui étaient dans les ordres. Le reste des ordres, pour être évêque, sont de la Basilique de Saint Pierre, à Rome, par le pape Pie X, et constituent toutes les céremonies liturgiques qui y eurent lieu, durant mon séjour au college germanique”.
“Comme enfant j’avais toujours la taille d’um homme âgé, excepté au college Saint Gervais, où mes dimensions variaient. Le sommeil, cependant, m’était defender. Dans la première période nous habitions à Trois-Virges où mon grand-père, de grand-Duc d’Oldenbourg, comme du Kulturkampf, demeurait encore plus tard. Et nous voyagions beaucoup, de sorte que nous fumes plusieurs fois le tour du monde et meme nous faisons des voyages sur les étoiles. De là, je rapportais beaucoup de trèsors, j’achetais les pays de la terre et les astres, que je déposais dans mon trésor. J’achetais encore des lettres amoureuses, qui avaient une grande valeur. Mais mon triomphe était la Russie. J’avais des titres comme Seltrab, empereur de Suède (320 après Jésus Christ). Voir Welten, Handbuch der Weltgeschichte, p. 90, Selenius, empereur de Byzance 201-202 (Welten, p. 88), Helmarum empereur de Rome-Ostrogoths 201-202 (Welten, p. 88), Procopio pape”.

Como vimos, é um delírio de grandeza absurdo, que o doente escreveu em francês, com convicção de ideia. O seu mundo é inteiramente fantástico. Vive enclausurado no  seu sonho. É isto o que constitui o “autismo” do professor Bleuler (1***). “Os esquizofrênicos perdem o contato com a realidade; nos casos leves isso se nota apenas de vez em quando; nos casos graves, a todo o instante. Por isto vivem num mundo fantástico, onde satisfazem toda a espécie de desejos e ideias de perseguição. Ambos os mundos, entretanto, para eles são reais, e, às vezes, podem ser conscientes do que se passa nos dois. Em outros casos, o mundo artístico é para o paciente o mais real; o outro, o nosso, é só um mundo aparente. Nos casos de média gravidade aparece, em primeiro lugar, qualquer um dos mundos, segundo a constelação, e mesmo acontece, embora raramente, doentes que passam voluntariamente de um para outro, Os casos mais leves se movem mais na realidade; os mais graves não podem separar-se do mundo do sonho, mesmo para as coisas mais simples, como o comer e o beber, ainda que conservem um certo contato com a realidade”.

Notas de Osório César:

1 – Elementos de Psiquiatria. Porto, 1911.  
2 – Estudio psicológico del cubismo y expressionismo. Arch. De Neurologia, Tomo III, nº 2, Madrid, 1922.
1* - Précis de Psychiatrie. Coll. Testut, 5. Edit. 1914.
1** - Tratado de las enfermidades mentales, pag. 898 e seg. Trad. Esp.
1*** - Tratado de Psiquiatria. Trad. Esp. Calpe, 1924.