Osório César foi um dos primeiros psiquiatras brasileiros interessado em estudar a arte produzida por pacientes psiquiátricos, tendo iniciado esses estudos nos anos 1920 no Hospital do Juquery. Seu nome e seus trabalhos estão quase esquecidos. Este blog procura divulgá-los.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Capítulo 3 – Parte 4 – A Expressão Artística nos Alienados

...continuação do texto...

Poderemos citar ainda os trabalhos literários de uma demente precoce que Capgras (1) apresentou em Abril de 1911 à Sociedade de Psiquiatria de Paris.
Trata-se de uma professora com 38 anos, filha de um alienado. Na sua infância teve coqueluche, varíola, escarlatina e coreia de Sydenham. Mais tarde, apresenta-se emotiva, escrupulosa, obsedada, fóbica. Apesar disto, é muito inteligente e obtém, com 19 anos de idade, o diploma numa escola superior. Consegue o cargo de professora num arrabalde de Paris. Exerce sua profissão regularmente, a despeito da existência de obsessões, de preocupações hipocondríacas, de cefaleias frequentes e de pequenas bizarrias na conduta. Algum tempo depois, na idade de 29 anos, tem, no decurso de uma pneumonia, um acesso de delírio onírico, com alucinações do ouvido e da vista, ideias de culpabilidade e danação, visões do inferno. Depois de umas três semanas volta a sua lucidez, mas não desaparece o misticismo. Anteriormente irreligiosa, agora ela se preocupa com a Bíblia, comunga, fala sem parar de demônio e não quer saber de mais nada.  
Nessas condições, a doente entra na Salpêtrière para o serviço de Dejerine, que diagnostica: Delírio místico com agitação. Enfim, o seu estado vai se agravando cada dia, até se instalar a demência precoce com todo cortejo patognomônico (enfraquecimento intelectual, indiferença, maneirismo, estereotipismo, gatismo, etc.).
O que nos chama a atenção nessa doente é a sua grande atividade intelectual. Durante a época de sua permanência no Hospital, ela escreveu constantemente cartas aos médicos e ao mesmo tempo grande número de poesias com admirável correção de ortografia e de conceito, não obstante a progressão de seu mal.
Vejamos, por exemplo, esta bela poesia:

Être chatte de Perse

Je fais ce rêve: être chatte de Perse,
Aux jours d’ennui, ce doux songe me berce,
être chatte de Perse.

J’habitarais un palais magnifique,
On entrerait par um brillant portique,
Les diamants, les émaux e les ors
Y brilleraient em sublime décors.

Ce beau palais, il serait fait de jade,
M’y accouder sous quelque fine árcade,
Y étaler um habit magnifique,
Les pieds posés sur de riches toisons.
Luxes inouis, richesses à foisons,
Y revêtir quelque belle simarre,
Qui, brillament, de couleurs se chamarre,
Tel est mon rêve étrange et poétique.

O que mais admirar aqui? A harmonia do verso ou o conceito da inspiração?
Notamos que tudo isto foi escrito quando a demência precoce se havia definitivamente instalado no doente. Depois de 6 meses, mais ou menos, ela compõe uma espécie de jornal, no qual escreve a maior parte de seus  pensamentos. Enche completamente 5 cadernos de 100 folhas cada um, de composições literárias de sua lavra. É quando começam a se manifestar as perturbações psicográficas mais importantes. Assim, ao lado de frases claras, lógicas, bem comedidas, aparecem verdadeiras “saladas de palavras”, incoerências e desordens nas associações das ideias.
Como exemplo citemos este trecho:
                        De l’excrément
“L’excrément” ou ancien crément, cré racine de créer, ment prise a l’interieur égale à spirment, racine de mentir ou vie nouvelle-ment, vie nouvelle, voyance de nouveau à Dieu, voyance: Tour-un, prise entiêre (espirits) selles.
Excrément, ancien radical cré, prise ent. (interne parfait) Solide qui. Selon le radical créant, est positivement pur, égale à prise entire, comme à de l’esprit: defecations. Ainsi la scorie est égale au fuyant, ex, toutefois: nettoyez chaque fois avant d’allumer (tirage) grille Cordier (J. ou. rs.)
Personne ne peut savoir ce que Dieufait des scories, en tout, haves, pierres ponces, dejections.
Les excréments sont de la matière tombant sous les sens. Ce sont des corps. Ils sont à l’image de la croix: balance. Ainsi, il ne faut pas mettre les talons dedans. Il faut les ranger, à rapport côte d’Adam (Jésus-Christ est le novel Adam). Nous ne devons pas le sentir. Quand ils empuent, c’est a de la colère divine. Cette odeur et aussi réelle, aussi agreeable que celle de la Rose. Rosa mystica. Communion du vidangeur. Object à Dieu: amo.”
Notamos aqui a riqueza de fabulação exagerada, maneirismo e uma certa originalidade no poder descritivo.
“O esquizofrênico”, diz Bleuler (1*), “não é simplesmente um demente, mas um demente em relação com determinadas épocas, certas constelações e certos complexos”.
“Os produtos de uma declarada esquizofrenia na literatura e na arte, na maioria possuem o selo do louco e do estranho, o que não raro é encoberto por efeito algo patológico. Nos casos particulares, um pequeno desvio do normal dá à obra de arte uma certa originalidade , ou os pacientes podem dizer verdades que os sãos não se atreveriam em uma forma tão clara. Não raro, algumas excitações esquizofrênicas tendem em seu começo para uma atividade poética e até para uma certa capacidade, que fora disto não existe”.
É o que se dá com a arte futurista. Ela é positivamente uma arte esquizofrênica. Os artistas futuristas não são alienados, mas não deixam, contudo, de possuir temperamentos esquizofrênicos (1**).  
Nos desenhos de um parafrênico das figuras 70, 71, 72 e 73, o mesmo doente que compôs a valsa da figura 58, notamos um curioso primitivismo. A conformação do tórax destas figuras lembra as das figuras egípcias. Vejamos a história do doente e a descrição dessas figuras:
“P. (2), de origem italiana, branco, casado, de 37 anos de idade, morador em Bica de Pedra, foi recolhido ao Hospital do Juquery em 10 de Dezembro de 1920, onde o examinamos”.
“Não nos foram dados informes sobre seus próprios antecedentes pessoais, nem de família; não podemos dar crédito às suas informações, porque seu estado mental é mau e não merece confiança o que ele diz”.
“Alto, robusto, aparentemente não apresenta lesão alguma de órgão importante para a vida vegetativa. Tem os cabelos muito grisalhos para a sua idade. Seu rosto avermelhado dá a impressão de um homem congestionado, tanto mais que os olhos são sempre avermelhados, o que mais acentua essa impressão. Tem a língua geralmente saburrosa. As pupilas não reagem igualmente de ambos os lados; a reação consensual está muito levemente perturbada. Os reflexos superficiais acham-se diminuídos, os profundos exaltados. Apresenta ligeira disartria, muito pouco pronunciada, existe tremor das mãos, assim como tremores dos pequenos músculos peribucais e da língua. Sob forte emoção os tremores generalizam-se por todo o corpo. Estes últimos sintomas são tão apagados que só se observam com muita atenção”.
“A saúde somática geral é regular, embora seu peso não corresponda à altura”.
“Diz que o pai faleceu com 83 anos; mas, logo depois diz que está vivo; mais tarde diz que não o conheceu, e assim por diante ora uma coisa ora outra. Não gosta de conversar; é carrancudo e parece estar sempre de mau humor, ou, pelo menos, de humor altaneiro e levemente sarcástico”.
“Acredita que nunca teve pai; que com ele se deu o mesmo fato da vida de um príncipe da Espanha: foi criado escondido por uma família pobre. Sempre se diz filho de Vitor Manuel, rei da Itália (sic), irmão de Vitor Orlando, a quem está esperando todos os dias para levá-lo a casar-se com uma dama de alta hierarquia. Todos esses absurdos são ditos com ar calmo, de quem tem absoluta certeza. A absoluta decadência da lógica, do raciocínio, denuncia claramente o estado demencial global. A certas perguntas responde sempre: “Não sei de nada, o Lapa é quem sabe tudo”. É, naturalmente, alguém lá de Bica de Pedra”.  
“Presta bem atenção e compreende o que se lhe pergunta, embora responda com disparates e frases evasivas. Sua memória não está completamente obliterada. Os sentimentos afetivos estão embotados. A psicomotilidade não está exaltada nem inibida; apresenta-se normal”.

O estado atual de P. é o mesmo de quando foi observado em 1920. As suas ideias delirantes giram todas neste mesmo princípio : “É filho do Rei da Itália e vai casar-se com uma princesa.
Vive isolado dos companheiros; não quer trabalhar e dedica-se à pintura, ao desenho e à música.
As suas produções de arte revelam uma feição muito característica e extremamente pessoal. Da grande coleção que possuímos dos desenhos de P., verifica-se que há sempre neles os mesmos personagens ilustrando as cenas de suas composições. A sua arte, pois, se resume num só motivo estereotipado, que lhe serve de base para as suas criações. É digna de nota a sua estranha obsessão em somente pintar figuras de negros; algumas vezes, essas figuras o estão acompanhadas de aves e de animais domésticos. A técnica do desenho de P. é primitiva; vê-se que ele desconhece completamente a perspectiva. A representação do movimento também não existe nas figuras que ele traça e a semelhança delas com as da arte egípcia é acentuada. É preciso salientar que essa tendência pictórica somente se manifestou em P. depois da perturbação mental, o que para nós tem real importância.
Muito mais interessantes são os seus desenhos do que as suas composições musicais. Antes da moléstia que o atacou, P. já conhecia regularmente música; por isso, as suas valsas não apresentam maior interesse quanto à originalidade. Em todo caso, elas são mais dignas de atenção e de estudo que as de B. (veja pag. 41), ao passo que os seus desenhos são admiráveis pela originalidade. Uma das características apresentadas nesta arte em P. é o desprezo pelo interior. Em quase todos os seus quadros nota-se a absoluta ausência de decorações e ornamentos no interior, o que, para os outros artistas alienados constitui motivo de evocações extravagantes dos aspectos da natureza. Nesses artistas, o interior de um quadro é sempre motivo de bizarros enfeites. Todavia, algumas vezes P. põe nos seus desenhos ligeiros motivos ornamentais pobremente estilizados. Na figura 70, por exemplo, que representa um casal de  com uma planta em cima de uma cadeira. Interessante é que o encosto e os pés da cadeira são notas musicais estilizadas.
Tanto a figura da mulher como a do homem não apresentam nenhum relevo e dão a impressão de uma superfície plana.
É, sobretudo, na conformação do tórax que as suas figuras parecem com as da arte egípcia. O pescoço e os braços acham-se atrofiados. No entretanto, os olhos são expressivos e bem iluminados.
A figura 71 apresenta igualmente essa mesma atitude pictural que, aliás, em P., como já dissemos, constitui um motivo de estereotipia. Os animais que fazem parte dessa composição (cães) dão ideia de brinquedos de crianças, tais são as atitudes em que estão dispostos. Uma zoolatria é observada em quase todos os quadros de P. e a prova disto está nos seus desenhos reproduzidos aqui nas figuras 72 e 73. Quando não é o cão o animal que acompanha as suas figuras, é o urubu, a ave agoureira, que ele pinta com uma certa expressão de realidade.
A figura 73 descreve uma cena de assassinato que P. diz ter presenciado no interior do Estado de São Paulo. Um negro, com os joelhos sobre o solo, aponta uma arma de fogo para outro negro, armado com espingarda e facão, em posição de sentido, mas sem dar a menor atenção ao grave fato.
Como ornamentação do quadro, há em cima, de um lado, uma galinha com um urubu. Do outro lado, uma cesta onde uma fêmea dessa ave que acaba de deitar um ovo. Em baixo, perto do negro sentado, um cão em atitude de espanto, olha para o soldado. Há muita ingenuidade nessa concepção.
Na figura 72 vê-se uma fachada de igreja. Um homem aparece na porta central  e no telhado pousa um urubu. Notam-se nesse desenho exageros de proporção e falta de homogeneidade. Enfim, a arte pictórica de P. é primitiva, grosseira e apresenta vários pontos de contato com a arte de crianças de grupo escolar. Apesar disto, pode-se admirar nela uma certa e curiosa originalidade.
A outra manifestação artística que P. revela é a música. De um pedaço de bambu ele faz uma flauta (fig.74) que, de quando em vez, toca, executando trechos musicais de sua lavra. O som desse instrumento não é agradável ao ouvido e nem as suas composições são toleráveis.
As músicas de sua autoria são valsas e dobrados.
A figura 75 é a reprodução das páginas de um interessante livro feito por um demente precoce no período inicial. É extraordinária a paciência com a qual o doente procurou imitar letra de imprensa e de ilustrar com grande número de desenhos coloridos o seu trabalho. É um livro de histórias de aventuras para crianças. Na primeira parte está escrito: “O dedinho de Haguida ou os mistérios de uma terra. Romance por M., em 5 partes fantásticas para as crianças”. Na segunda página lê-se: ”Romance brasileiro. Com mil gravuras coloridas... quase em resumo”. E logo abaixo isto: “(Lectures pour tous)”. Primeira parte. “O destino negro de Bolozarkiw ou Ódio falso do monstro Lubison pela mão prometida da misteriosa Arlinda”.  
A história tem imaginação e é escrita numa linguagem clara. Há muita coisa interessante neste livro e um certo grau de erotismo sexual.
Apreciemos este trecho:
“Arlinda, ou a bela virgem adormecida, levantou-se do seu encanto, daquela riquíssima poltrona, guarnecida de ouro, que o Bolozarkiw podia ver na ilusão da sua doença, dizendo-lhe com voz altiva e delicada: “Sou tua, sei que te pertenço! Meu coração, meu doce; e o meu pai estará muito satisfeitíssimo, desde o momento que te entregou este espinho venenoso. Toma cautela! E juizinho, meu bem, que sou tua”.
“Sim! Meu amor! – terminava o Bolozarkiw, como que se estivesse no acordar de um sonho – “mede o meu coração, e vê o quanto te adoro”.
Pela história fantásica que o doente escreveu e ilustrou com figuras de monstros, parece tratar-se de alucinações de fundo erótico mascarado pela censura com a denominação de história para crianças.
“Os contos de fadas, diz Franco da Rocha (1***), têm semelhanças notáveis com outras lendas, em todos os pontos do globo, fato que a psicanálise explica sem dificuldade. O fator sexual aparece dissimulado nesses contos, nos quais estão ocultas as mais perversas tendências, principalmente a algolagnia (o prazer libidinoso ligado à dor) no seu grau mais elevado – o sanguinário. São, na opinião de Riklin, criações da alma humana primitiva, utilizadas de acordo com a tendência geral do homem: a satisfação de seus desejos”.
O doente começou a escrever o livro quando os primeiros sintomas da psicose se haviam esboçado. Atualmente ele se encontra em estado demencial. Os seus desenhos são rabiscos (fig. 76) de coisas quase indecifráveis.
Nos alienados, as estilizações cubistas são comumente encontradas sobretudo nos artistas plásticos.
Lafora (3) refere-se a um caso interessante, que reproduzimos aqui na fig. 77 intitulado “Cristo e Virgem”. Trata-se de um homem culto, que nunca se preocupou com desenhos, antes da moléstia. É bem curiosa a expressão de desprendimento e o contorcionismo que vemos nas imagens do quadro, a riqueza do poder de abstração na fisionomia da Virgem e a estranha ambiguidade de seu rosto. Todo esse conjunto aparece num deslocamento de perspectiva, que dá ao quadro uma feição original.
“Na análise sistemática que faz Jaspers (3), dos desenhos dos alienados, diz que há um grupo de produtos artísticos com expressão da vida psíquica do autor, e este se origina quando as faculdades mentais dos doentes não estão muito alteradas”.
“As produções mais características são as dos psicóticos (muitos deles esquizofrênicos latentes). O conteúdo destes desenhos, diz, está caracterizado por representação de fabulações, de aves agoureiras, monstros visionários, misto de homem e animal, pela centuação descaramente manifesta das coisas sexuais e sobretudo por uma tend~encia à representação em conjunto com uma imagem do mundo, a essência das coisas, uma concepção do universo, ou ideia cósmica”.
Como acabamos de ver, qualquer que seja a sua forma, a demência precoce é capaz de produzir manifestações artísticas dignas de admiração.

Notas de Osório Cesar:  
1 – Ecrits et poesies d’une demente precoce. Encéphale, 1er sem. 1911 pag. 474.
1* - obra já citada.
1** - Bleuler divide os indivíduos normais em dois grupos, segundo sua atitude em face da realidade: 1º os sintonistas, que são aqueles que nunca perdem o contato com o diapasão do ambiente, de poder vibrar uníssono com ele. É a realização ao mesmo tempo da unidade da personalidade. 2º Os esquizoides são aqueles que perdem este contato pois “a esquizoidia é a faculdade de se isolar do meio, de perder contato com ele: ela tem por consequência um enternecimento mais ou menos grande da síntese da personalidade humana”.
Sollier- Courleon. Pratique sémiologique des Maladies Mentales, Masson, 1924.
2 – Observações psiquiátricas do Hospital do Juquery. Ano 1920. Nº 41.
3 – Allgemeine Psychopathologie. Berlim, 1920, 2 edit. pag. 103.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Capítulo 3 – Parte 3 – A Expressão Artística nos Alienados

...continuação do texto...

Nos desenhos dos dementes precoces catatônicos notamos com frequência o mesmo estilo dos desenhos das crianças; eles são geralmente mal acabados. As figuras humanas, quando representadas, se apresentam intercaladas, ora de ilustração deletrada, como no caso de um doente catatônico de Bleuler (fig 59), ora rodeados por símbolos, sinais cabalísticos (figs. 41, 42), doente do Hospital do Juquery.
Essa manifestação de desenho pueril parece ser característica da demência precoce, sobretudo na de forma catatônica. Pois, mesmo entre doentes que outrora souberam desenhar bem, a representação gráfica infantil num dos períodos da moléstia, estado demencial (fig. 69) é comumente observada. Daí o supor-se que a mentalidade desses doentes tenha sofrido uma regressão atávica às épocas pré-históricas da humanidade.
Além desta forma de desenho do primitivo, que constitui, como acabamos de dizer, uma atitude quase geral nesses doentes, encontramos algumas vezes outras formas gráficas surpreendentes, que nos fazem lembrar antigos motivos bizantinos, hindus e das tapeçarias da Idade Média (figs. 60. 61, 62 e 63).
Interessantes são os desenhos de um demente precoce paranoide, relatados por Parturel (1), cuja originalidade de concepção muito nos admira (fig. 64). O doente em questão, operário, reside na campanha e nunca teve instrução além de rudimentar.
É curiosa a semelhança de seus desenhos com os dos livros antigos de medicina.
Os quadros que reproduzimos nas figuras 65, 66, 67, 68 e 69 são de uma demente precoce  do Hospital do Juquery, cuja história vamos contar:
O. (2), brasileira, de cor branca, de 30 anos de idade; não é casada, nem solteira, nem viúva: há anos está separada judicialmente do marido, que deu justificação a isso pela sua embriaguez habitual e brutalidade contra a esposa.
Temos diante de nós uma mulher de aparência forte, sadia, sem moléstia somática perceptível. Sua família não refere a existência anterior de qualquer alteração física de saúde. Queixa-se, porém, de seu comportamento, de seus atos, que destoam pavorosamente da educação que recebeu e do meio social a que ela pertence. Veste-se com exageros impróprios; sai só, a passeio, e vai ao escritório de um médico, pede-lhe que sirva de intermediário junto a um certo colega deste, por quem ela tem paixão e com quem quer viver na Europa, e lá casar-se com ele. Escreve carta ao médico intermediário, pede-lhe que resolva logo F... a aceitá-la; propõe-se a sair disfarçadamente de casa e encontrar-se com F... a bordo, para de lá seguirem juntos; não se esquece do filho que deverá também seguir para ser educado fora da influência da família, isto é, da avó, das tias e tios, que, na opinião de O..., estão pondo o menino a perder. Arma brigas terríveis com as irmãs, com cunhados e com a própria mãe; são discussões azedas em que a paciente revela um certo grau de embotamento dos sentimentos éticos.
Se lhe falam do pai (que era um homem distinto) para evidenciar assim a inconveniência de sua conduta, ela ri às gargalhadas zombeteiras, tapa os ouvidos com os dedos, responde às irmãs: “Vocês são umas pestes, fingidas; vocês não pensam desse modo; só têm em vista em contrariar, em desgostar por maldade pura, pela intenção maldosa de me perseguir”.
Aí está um delírio de perseguição sem base alucinatória, puramente interpretativo, que se justifica aparentemente com fatos reais. Do que ela não se lembra, entretanto, é que a suposta perseguição da própria família é a reação natural contra sua conduta, sua incapacidade de adaptação ao meio social, conduta essa que tem trazido vexame e atribuições enormes a seus parentes. Submetida a cuidadoso exame mental, nenhuma perturbação psíquica elementar se lhe pode descobrir. Atenção: normal. Memória: bem conservada, tanto para os fatos recentes como para os antigos. Não há desintegração de cultura intelectual anteriormente adquirida. Seu estado afetivo, entretanto, não corresponde ao de uma pessoa que se sente perseguida. Não há tristeza, nem depressão melancólica; ao contrário, nota-se um certo exagero da própria personalidade; um estado de humor um pouco alegre, mas leviano, sem ponderação. Seu juízo, isto é, as faculdades de crítica, de exame, de reflexão, se manifestam bem fracas, embora as aparências enganem e a forma lógica exterior do raciocínio se mantenha bem conservada; uma simples análise de suas palavras e procedimentos revela fraqueza de modo a não deixar dúvidas. Quer casar-se com um médico, apesar de não ter o assentimento deste; interpreta as palavras e gestos dele, em qualquer conversa, com uns tantos sinais certos de anuência. Escreve-lhe e, não obtendo resposta, atribui essa falta a desvio de cartas. Não tem fortuna; vive com a família, que só dispõe de modestos recursos, entretanto fala em seguir para a Europa com o sangue frio e a naturalidade de que já tem depósito nos Bancos. O médico com quem ela projeta seguir viagem já lhe fez ver clara e energicamente a inconsistência de sua conduta, a incongruência de seu procedimento, mas não conseguiu varrer-lhe do cérebro tais ideias. Todas as suas conversas giram em torno desses assuntos: a fuga para a Europa com o aludido médico; o casamento possível, visto que as leis lá o permitem; as outras mulheres que têm feito o mesmo e voltado casadas (cita nomes e fatos reais bem conhecidos do público); a perseguição da família, que, a seu ver, é pura perversidade; as cartas diariamente escritas ao médico, ao intermediário e a outras pessoas por ela envolvidas nessa aventura. Recolhida ao Hospício do Juquery, aí continua com as mesmas ideias, mais resolvida a se deixar examinar para poder levar um atestado de perfeita saúde mental. No terceiro dia, porém, achando que o exame já estava muito demorado, exigiu sua saída e, como encontrasse resistência, pôs-se a praticar atos de violência, como, por exemplo, quebrar vidraças, dar bofetadas nos vigilantes, morder os que tentavam contê-la, ameaçar com violências ainda maiores se não a deixassem sair. Tal estado chegou a ponto de ser preciso recolher ao isolamento em quarto fechado, para evitar maior mal. Apesar de tudo isso, não há confusão de espírito nem alheamento do mundo exterior; confessa que é meio neurastênica e que sempre em casa a chamavam louca, porque tem seus dias em que sente uma certa confusão de ideias.
O isolamento em quarto fechado foi interpretado como castigo e produziu-lhe salutar efeito. Voltou a calma, que permitiu se lhe desse de novo relativa liberdade. Lê os jornais que lhe caem às mãos e encontra quase sempre alguma coisa neles que interpreta como referência a sua pessoa e aos fatos que ultimamente se têm dado consigo. Não come frutas nem doces que são enviados por sua família; isso tanto pode ser desconfiança como simples capricho.
A observação que acabamos de ver é da época de sua entrada no Hospital (1914).
Até 1923 o seu estado psíquico não sofreu alternativas notáveis. O seu desenvolvimento artístico, entretanto, foi intenso. Passava os dias no pátio do pavilhão a pintar natureza morta e paisagens das redondezas. E era principalmente a aquarela o gênero de pintura preferido. Todas as suas composições apresentavam exuberância de cores e, dentre estas, a que mais preferia era o vermelho de sangue.
De 1923 para cá, o seu psiquismo foi-se modificando a ponto dela não se preocupar mais de pintura, notando-se gatismo e embotamento dos sentimentos estéticos. Vive hoje em absoluta despreocupação de tudo e de todos, não se importando mais com suas roupas e nem com a maneira de se trajar. Isolada das companheiras, balbucia coisas incoerentes e esfrega, nas pernas, nos braços e no rosto, terra que apanha do solo.
Para termos ideia de seu estado atual (associação extravagante de ideias), reproduzimos abaixo um trecho que ela ultimamente escreveu a pedido nosso:
“Imortalidade do corpo no fogo; descoberta com ar e fogo a grau inteligência compreendedora e houve desastre, e não pode tirar porque o fogo é pior do que julgava; era trato; e por esta razão não pode constituir pena da Justiça; em outro cá tenho os pontos de alma ainda melhores”.
A manifestação pictórica nessa doente não é uma consequência da psicose que ela apresenta, pois, muito antes de vir para o Hospital a sua capacidade artística já se havia desenvolvido brilhantemente, como resultado de sua formação intelectual.
O que se nota na sua arte, depois de sua internação em Juquery, é que ela teve um certo período de superatividade para cair em seguida numa inércia quase completa e na qual permanece até agora.
Durante o período de superprodução de que fazem parte as figuras 65, 66, 67, 68, a sua arte já não apresentava os mesmos caracteres de outrora, isto é, de quando o seu estado mental era normal. Já havia qualquer coisa a se notar nos desenhos e nas combinações das cores de suas produções. Passado este período, os desenhos de O... foram cada vez mais se tornando primitivos até ao ponto em que está o da figura 69 (um dos últimos que recolhemos), cuja semelhança com os desenhos de crianças do segundo ano do grupo escolar é chocante.
As figuras 65 e 66 representam paisagens. São impressões a óleo. O motivo predominante da composição da figura 65 é uma grande árvore, parecendo ser plátano e que domina quase toda a tela. O céu é de um azul muito vivo e sem nuances. Não há diferenciação de tonalidades. O plátano está regularmente desenhado com os seus galhos em relevo e sua copa está bem representada por uma mancha de tinta de várias tonalidades, que vem do amarelo claro com um pouco de verde desmaiado, até o amarelo escuro e seco.
Nessa paisagem que O... copiou diretamente da natureza, veem-se ainda dois morros com cores artificiais, que estão situados no mesmo plano da árvore. Em cima, num canto do lado direito, num canto do céu, há duas manchas bem distintas: uma vermelha, sanguinolenta, ligeiramente desbotada e outra mais abaixo e em seguida, de tonalidade amarelo ouro. Em toda essa composição notam-se falta absoluta de perspectiva e uma intensa vivacidade de cores. Pelo emprego das tintas com as quais O... compôs este trabalho, poderemos pensar numa paisagem outonal. Assim, a variante das folhas e também os galhos que ela procura salientar em tinta bem escura, são motivos desta estação. Acresce ainda a mancha vermelha do céu. Isto tudo nos faz pensar numa representação do outono.
As cores empregadas nas paisagens das figuras 65 e 66 são principalmente o azul carregado, o amarelo esverdeado e o vermelho sanguíneo.
A simbolística das cores muito vem auxiliar-nos quanto à interpretação freudiana dos quadros de O... Vejamos como a este respeito se exprime Spengler (1*):
“O azul e o verde são cores transparentes, espirituais, suprassensíveis. Não sáo aplicadas na pintura a fresco de estilo ático; e por isso mesmo predominam na pintura a óleo. O amarelo e o vermelho, cores ‘antigas’ são as cores da matéria, da proximidade das emoções sanguíneas. O vermelho é a cor própria da sexualidade; por isso é a única que atua sobre os animais. Ela é a que mais se aproxima do símbolo do falo – e, portanto, da estátua e da coluna dórica –, enquanto que o azul puríssimo serve para transfigurar o manto da Virgem. Esta relação impôs-se por si mesma em todas as escolas, com necessidade profunda”.
Como símbolo da sexualidade, temos nas paisagens 65 e 66 a árvore (membro viril) e a cor vermelha sanguínea (órgão sexual feminino, coito, desvirgindade).
A paisagem a óleo reproduzida na figura 65 apresenta-se com caracteres idênticos aos da pintura antiga. É interessante observarmos hoje em dia a arte decorativa da antiguidade, em vista de seu ponto de contato com a arte ultramoderna, que não representava as distâncias, pondo os objetos em um mesmo plano.
“A pintura antiga não teve perspectiva justamente porque evitou esse ponto, porque não reconheceu, não admitiu a distância (1*)”.
Em O... é curiosa a composição dessa paisagem porque é a única de nossa coleção que se apresenta mais original sob o ponto de vista do primitivismo. O mesmo fato, entretanto, não acontece com as figuras 66, 67 e 68, onde a visão do espaço é tratada mais significativamente.
Na figura 67, por exemplo, que se assemelha um tanto à pintura japonesa, as localizações das coisas no espaço estão regularmente distribuídas de acordo com as respectivas distâncias. Vê-se que ela aqui muito se preocupou com os detalhes, procurando dar relevo e naturalidade ao motivo principal de sua composição. Assim, os eucaliptos se mostram reconhecíveis graças ao seu bom acabamento pictural.
A figura 68 também apresenta pontos de contato com a arte japonesa primitiva. Nesta aquarela a sua preocupação se orientou mais para o lado da representação de conjunto do quadro do que para os detalhes. A árvore desenhada não tem o acabamento da árvore da figura anterior. É quase uma mancha.
A figura 69 bem patente mostra a decadência do seu estado psíquico atual. Se a sua arte apresentava um cunho de ligeiro primitivismo no período que vai de 1914 a 1923, presentemente ela retrogradou, em virtude do seu estado demencial, ao período de infantilidade.
Basta compararmos o desenho da figura 69 com o da figura 8 (desenho infantil) para vermos a profunda analogia que existe entre os mesmos.
Nos alienados artistas é muito comum observar-se, como neste caso, um período de excessiva produtividade, quer na literatura e na poesia (grafomanos), quer nas artes plásticas (pintura, escultura, etc.). Nesse período, a inspiração do louco é lúcida e fecunda. Ele cria, na sua esfera, um mundo de belezas. Mas, depois, chega a fase de involução, de embotamento intelectual, estado demencial, como soe acontecer com os paralíticos gerais, os esquizofrênicos, etc., e ele volta ao caos primitivo, à vida vegetativa. O mundo para eles se torna agora inteiramente diferente. A arte, então, ou se traduz por sinais representativos (símbolos, veja figs. 1, 45 e 46), ou se manifesta grosseiramente, por representações de cenas da natureza, sem homogeneidade de composição.
No quadro, os objetos podem grupar-se de modo inorgânico, uns sobre outros, uns junto de outros, uns detrás de outros, sem perspectiva, sem mútua relação, isto é, sem destacar o fato de que a sua realidade depende da estrutura do espaço; pelo que quer dizer que se deva negar essa dependência. Assim desenham os selvagens e as crianças antes de que a experiência íntima da profundidade tenha submetido suas impressões sensíveis do universo a uma ordem mais profunda (1**).
É o que acontece com a nossa artista.
Como vimos, atualmente o seu estado é demencial.

Notas de Osório Cesar:
1 – Dessins anatomiques et conceptions médicales d’um demente precoce. Encephale, premier semt., 1911.
2 – Observações psiquiátricas do Hospital do Juquery, Nº 12, ano 1914.
1* - Oswald Spengler – Obra cit. Vol. II, pag. 44.
1** - Idem, pag. 49.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Capítulo 3 – Parte 2 – A Expressão Artística nos Alienados.

Osório César continua com o tema que ele subintitula como “O ‘Autismo’ do Professor Bleuler”. Frisamos que esse conceito inicial de Bleuler com essa designação, modificou-se gradativamente posteriormente.

...continuação do texto...

Nos artistas, literatos, poetas, escritores, o temperamento autístico é bem desenvolvido. Neles, a facilidade com a qual mergulham o seu pensamento no sonho, para de lá retirarem as preciosidades que exteriorizam nos encantos de uma obra de arte, é conhecida de todos nós.
Escutemos, por exemplo, o poeta de “Vana” (1), na “Canção do Louco”, poesia que é um primor de nossa literatura:

Canção do Louco

Meu cérebro é um moinho tenebroso,
um moinho que gira sem cessar.
Um vento mudo e misterioso
fá-lo girar.

É velho e pardo, abandonado e feio
como bem poucos.
Já m’o disseram e eu também creio:
- É o moinho dos loucos.

E a roda gira! De girar não cessa!
Os grânulos de ideia vão tombando...
E a mó de pedra sempre mais depressa
pulverizando.

Estranho moinho, o teu destino é triste!
Teu tormento indizível é sem fim.
Ah! Na verdade em parte alguma existe
um outro moinho assim!

Minho ambulante, de onde vem o vento,
teu algoz, invisível e maldito?
...E a mó sempre a moer o pensamento.
- Trigo infinito!

Mas este mundo é muito curioso:
- Que quer dizer toda essa gente infinda
de boca aberta, a me fitar?
Homens de juízo, não sabeis ainda?
Meu cérebro é um moinho tenebroso,
um moinho que gira sem cessar...

“Na criança (1*), o pensamento autístico permite a satisfação dos mais ardentes desejos: nos jogos, nos brinquedos, nos contos maravilhosos, ela sonha uma vida cheia de prazeres, com todos os atributos de uma existência real. O petiz que brinca de general, cavalgando um cabo de vassoura, sente-se a criatura mais poderosa do mundo e aquele pedaço de pau tem para ele todas as qualidades de um fogoso corcel”.
“No homem adulto civilizado, o autismo se manifesta com a máxima intensidade nos sonhos noturnos. Durante a vigília, ele acarreta uma intensa atividade imaginativa, que vai desde o simples devaneio até as formas mais elevadas da imaginação estética e científica”.
“A introversão é, pois, uma situação de equilíbrio instável entre a saúde e a doença, bastando um pequeno desvio na distribuição da energia psíquica para que se manifeste a alienação mental”.
“No introvertido, a vida imaginária e interior tende a predominar cada vez mais sobre a vida real e exterior. Como ensina Ribot, ele distingue dois mundos, dos quais um é preferido e outro apenas experimentado. Mas crê em ambos e tem a consciência  de passar de um para outro: há alternativa. No alienado, a distinção entre os dois mundos desaparece. Suas fantasias são invertidas de uma realidade objetiva e os elementos exteriores não mais o atingem ou são interpretados de acordo com o seu delírio: não há mais alternativa”.
É o que vemos na demência precoce, na parafrenia e na paralisia geral.

Notas de Osório César:
1 – José Lannes – “Vana”. São Paulo, 1920.
1* - Durval Marcondes. O simbolismo estético na literatura. São Paulo, 1926. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Capítulo 3 – Parte 1 – A Expressão Artística nos Alienados.


No primeiro parágrafo, Osório César pontua os temas do capítulo 3.
A seguir, pode-se observar que ele usa os termos “demência precoce” e “esquizofrenia” alternadamente para a mesma condição, expondo discussão sobre esses conceitos embasada em vários autores. Vemos assim que essas conceituações estavam em debate nesse momento. Também o uso do termo “autismo”, que não correspondia exatamente ao seu uso atual, entrava nessa discussão. De resto, como sempre acentuamos, há palavras e expressões próprias da década de 1920, que devem ser adequadas a esse período.

...continuação do texto...

Conceito clínico-psicológico da demência precoce. Interessante biografia de um demente precoce paranoide. “o autismo” do professor Bleuler. Desenhos de esquizofrênicos (estudo comparativo). Interpretação psicanalítica dos quadros de uma pintora paisagista do Hospital do Juquery. Poesia, literatura e desenhos de três dementes precoces.

A demência precoce é uma moléstia mental estudada primeiramente por Morel em 1858, cujo conhecimento foi mais tarde desenvolvido extraordinariamente por Kraepelin, constituindo o seu estudo clínico “uma das mais belas concepções”, como diz Roxo desse autor alemão.
A definição que dela deu o professor Júlio de Mattos (1) foi a seguinte: “É uma psicose constitucional caracterizada por uma desagregação das funções afetivo-motoras e intelectuais, sobrevindo, em regra, na adolescência ou na juventude e tendo por termo, para a qual caminha através de episódios alucinatórios e delirantes, uma irreparável falência mental”.
Muitas designações têm sido propostas para assinalar esta entidade mórbida: Demencia sejuntiva (Gross); Demencia paratônica (Bernstein); Esquizofrenia (Wolff. Bleuler); Ataxia intrapsíquica (Stransky), etc.
A esquizofrenia, como diz Lafora (2), não é uma moléstia mental que surge bruscamente num indivíduo são, mas é uma exaltação violenta e patológica de um processo que anteriormente se desenvolvia pouco a pouco em um indivíduo de aparência normal, sob a forma da chamada constituição mental “esquizotímica”.
No início da demência precoce geralmente aparece irritabilidade exagerada, sensação de mal estar e humor alterado. A personalidade começa a se modificar. O indivíduo não é mais o mesmo. Há profunda transformação do seu “eu”. As respostas são dadas de mau humor e um ódio surdo, sem razão de ser, pelas pessoas de sua família, se implanta na imaginação do demente precoce, a ponto de se tornar um perigo a sua permanência em casa. As reações emotivas são intensas. Lógica absurda. Quando se lhe comunica a notícia do falecimento de qualquer pessoa da família, como seja do pai, mãe ou irmãos, ele a recebe com satisfação, como se fora uma boa nova.
De todas as sensações é a dor que persiste por mais tempo na demência precoce. 
A consciência não desaparece senão em estado de grande excitação ou de intenso estupor. A memória se encontra sem alteração sensível.
É muito comum verem-se dementes precoces que recitam de cor poesias longas, discursos, trechos latinos de coisas aprendidas nos tempos de escola.
O raciocínio a pouco e pouco vai se tornando de nível inferior, até que chega a ser tolo e pueril. As associações de ideias são extravagantes e muitas vezes sem nexos. Casos há (são frequentes) em que se nota o chamado negativismo intelectual (Bleuler). O doente não consegue dar uma resposta razoável e, numa verdadeira paralogia constante, diz um grande absurdo em resposta ao que se lhe pergunta. Por exemplo, pergunta-se que idade tem e diz um dia (Roxo).
As perturbações de cenestesia são notáveis. Dizem-se influenciados pela eletricidade, pelo rádio e telégrafo sem fio. Acham-se magnetizados, hipnotizados; sentem-se roubados de suas ideias.
A capacidade intelectual diminui e o doente cai irremediavelmente num primitivismo pueril e extravagante.
As ideias sexuais não são raras; elas vêm com as alucinações. Os doentes ouvem vozes que os acusam de terem sido vítimas de pederastia. Tiram-lhes os órgãos sexuais. Introduziram-lhes varetas de ferro no ânus.
Os atos impulsivos tornam esses doentes perigosos. São frequentes as agressões por parte deles a pessoas de quem recebem gentilezas. São traiçoeiros.
O negativismo, cuja definição de Kahlbaum consiste na tendência permanente e instintiva a reagir contra toda solicitação do mundo exterior, qualquer que seja a sua natureza, invariavelmente acompanha a demência precoce durante o período da evolução até o seu estado terminal.
Daí o observar-se nesses doentes a sitiofobia, o gatismo e o mutismo.
Na sitiofobia há recusa terminante dos alimentos. Muitas vezes a oposição do doente é tão grande que necessário se torna o médico lançar mão da sonda a fim de não ficar o doente sem alimentos.
No gatismo ou imundície, os doentes não se incomodam com a limpeza de si próprios. Sujam-se com urina, fezes e toda sorte de imundície que encontram.
No mutismo, o doente fica sem pronunciar uma só palavra meses e anos. Conhecemos um doente no Hospital do Juquery que desde a sua entrada (há dois anos seguramente) até agora se conserva no mais absoluto mutismo.
As estereotipias são frequentes nos dementes precoces; elas se apresentam sob duas formas: as acinéticas e as paracinéticas.
As acinéticas se caracterizam por atitudes extravagantes da postura tomadas pelos doentes. Ficam horas inteiras imóveis, agachados num canto ou em pé, com a cabeça baixa.
As paracinéticas são as estereotipias de movimento. Os doentes caminham sem parar de um lado para outro ou esfregam os dedos repetidamente.
O maneirismo é uma manifestação também muito frequente na demência precoce. Consiste na afetação dos atos do doente.
A demência precoce, segundo Kraepelin, na 7ª edição do seu Tratado de Psiquiatria, está dividida em três formas: hebefrênica, catatônica e paranoide.
A hebefrênica caracteriza-se principalmente pelas perdas da afetividade e iniciativa, associação extravagante de ideias, modificações da personalidade, abaixamento do nível intelectual e distúrbios sensoriais com alucinações multifárias (Roxo).
A demência precoce catatônica é constituída essencialmente por perturbações motoras. Negativismo, sugestibilidade e estereotipia.
A paranoide tem como sintoma capital a ideia de posse física e o eco do pensamento (Kraepelin).
Segundo Regis (1*), podem-se distinguir, no conjunto dos estudos mórbidos englobados por Kraepelin sobre a denominação comum de demência precoce, dois tipos essencialmente distintos: demência precoce constitucional ou degenerativa e demência precoce pós-confusional, aproximada da demência precoce e da confusão mental.
Exemplo do primeiro tipo: indivíduos moços, mais ou menos tarados anteriormente, que, depois de revelar certas tendências intelectuais, estacionam logo, depois declinam, na ocasião e sobre a influência autotóxica do processo púbere.
Exemplo do segundo tipo: aqui, com ou sem predisposição anteriormente marcada, o processo patológico começa por um período de confusão mental aguda, tóxica ou infecciosa. No curso ou em seguida a este acesso agudo, aparecem fenômenos de estupor com os sintomas característicos da catatonia.
Ultimamente a tendência da psiquiatria é não considerar mais a demência precoce como uma doença única e sim como uma síndrome. E é o que parece mais acertado. Oswald Bumke (1**), justificando este modo de encarar a demência precoce, escreveu o seguinte: “Verdadeiramente, a esquizofrenia não é uma doença única. As numerosas variantes de seu curso clínico é o fato de que em quase todas as doenças orgânicas conhecidas (do sistema nervoso) podem apresentar quadros clínicos esquizofrênicos, fazem pensar que os sintomas esquizofrênicos constituem formas gerais de reação, com os quais o encéfalo pode responder a muitas diversas causas mórbidas”.
E, mais adiante: “Portanto, as síndromes esquizofrênicas, ainda quando se mostram com tais particularidades características, não justificam hoje em dia a fórmula de conclusões clínicas especiais. É absolutamente certo que se apresentam excitações catatônicas e estados de estupor nas infecções e intoxicações da mais variada natureza, assim como no climatério, na senilidade, na paralisia, na sífilis cerebral e em seguida aos traumatismos do cérebro; igualmente certo é também que esquizofrênicos típicos pelo seu curso podem ser evidenciados ou provocados por afecções febris e pelo puerpério”.
Este mesmo autor define assim a demência precoce: “sob a denominação de demência precoce ou de esquizofrenia englobamos (no momento atual) numerosos casos de doença, cuja especial característica consiste numa destruição da personalidade psíquica que tem lugar, sem causa conhecida, nos anos juvenis”.
“Os sintomas especiais de todos os processos esquizofrênicos”, diz Bumke, “consistem em uma característica desagregação do pensamento, determinadas pseudo-percepções específicas e reações afetivas paradoxais”.
Por esta narração sintética da opinião de vários autores, que acabamos de fazer acerca da demência precoce, podemos avaliar, desde já, quanto devem ser interessantes as manifestações artísticas criadas por essas personalidades constituídas de acentuadas desagregações do curso da associação das ideias, de alucinações, ideias delirantes, eróticas, persecutórias, de grandeza, automatismos, estereotipia, etc..
Vejamos, por exemplo, a autobiografia abaixo transcrita de um demente precoce paranoide do Hospital do Juquery, onde se mostra bem patente um delírio absurdo de grandeza, com fundo religioso.

MA BIOGRAPHIE
Par E.P.
“Je suis né le 25 Mars 1885, à Londres. Je fus habiter le grand-duché de Luxembourg, où je m’installai avec ma famille. Le calendrier bourgois n’a que 45 années depuis cette époque jusqu’a aujourd’hui. Mais m avie dura um confort ecclésiastique. M avie se divise em époques: la première, mon enfance avant lécole primaire, la deuxième, l’école primaire, la troisième, ma jeunesse avant mon entrée dans les ordres, la quatrième, depuis mon entrée dans les ordres jusqu’au moment où je fus hors d’office, la cinquième m avie de Priva-Dozent, et de Monarque, jusqu’à l’époque où j’arrivai à São Paulo, la sixième, ma vie comme professeur e Président de République jusqu’au moment où je me révellai avec Dionysius Verdin, dans le parloir de cette Maison. Je reçus les Saintes-Ordres comme suit: Von Mettlach, qui est aussi von Dobelutz, Professeur à l’Université de Halle, ff. d’évêque de Luxembourg, me conféra les ordres Mineurs à Paris, lorsque je fus sacré Roi de Belgique, sous le nom de Frommler. (Le Sacre des Rois de France, par Rotoiger, Paris Metzger 1900 – The Tipies of the Old Testament, by Francis Andrew Lang). Je reçus le jour diaconat et le diaconat avant, respectivement après le sacrament du Mariage, à Halle an der Saale, lorsque je fus l’empereur d’Allemagne, Guillaume II. Le Sacerdoce me fut conféré par le meme prélat, à Luxembourg, avec mes camarades, qui étaient dans les ordres. Le reste des ordres, pour être évêque, sont de la Basilique de Saint Pierre, à Rome, par le pape Pie X, et constituent toutes les céremonies liturgiques qui y eurent lieu, durant mon séjour au college germanique”.
“Comme enfant j’avais toujours la taille d’um homme âgé, excepté au college Saint Gervais, où mes dimensions variaient. Le sommeil, cependant, m’était defender. Dans la première période nous habitions à Trois-Virges où mon grand-père, de grand-Duc d’Oldenbourg, comme du Kulturkampf, demeurait encore plus tard. Et nous voyagions beaucoup, de sorte que nous fumes plusieurs fois le tour du monde et meme nous faisons des voyages sur les étoiles. De là, je rapportais beaucoup de trèsors, j’achetais les pays de la terre et les astres, que je déposais dans mon trésor. J’achetais encore des lettres amoureuses, qui avaient une grande valeur. Mais mon triomphe était la Russie. J’avais des titres comme Seltrab, empereur de Suède (320 après Jésus Christ). Voir Welten, Handbuch der Weltgeschichte, p. 90, Selenius, empereur de Byzance 201-202 (Welten, p. 88), Helmarum empereur de Rome-Ostrogoths 201-202 (Welten, p. 88), Procopio pape”.

Como vimos, é um delírio de grandeza absurdo, que o doente escreveu em francês, com convicção de ideia. O seu mundo é inteiramente fantástico. Vive enclausurado no  seu sonho. É isto o que constitui o “autismo” do professor Bleuler (1***). “Os esquizofrênicos perdem o contato com a realidade; nos casos leves isso se nota apenas de vez em quando; nos casos graves, a todo o instante. Por isto vivem num mundo fantástico, onde satisfazem toda a espécie de desejos e ideias de perseguição. Ambos os mundos, entretanto, para eles são reais, e, às vezes, podem ser conscientes do que se passa nos dois. Em outros casos, o mundo artístico é para o paciente o mais real; o outro, o nosso, é só um mundo aparente. Nos casos de média gravidade aparece, em primeiro lugar, qualquer um dos mundos, segundo a constelação, e mesmo acontece, embora raramente, doentes que passam voluntariamente de um para outro, Os casos mais leves se movem mais na realidade; os mais graves não podem separar-se do mundo do sonho, mesmo para as coisas mais simples, como o comer e o beber, ainda que conservem um certo contato com a realidade”.

Notas de Osório César:

1 – Elementos de Psiquiatria. Porto, 1911.  
2 – Estudio psicológico del cubismo y expressionismo. Arch. De Neurologia, Tomo III, nº 2, Madrid, 1922.
1* - Précis de Psychiatrie. Coll. Testut, 5. Edit. 1914.
1** - Tratado de las enfermidades mentales, pag. 898 e seg. Trad. Esp.
1*** - Tratado de Psiquiatria. Trad. Esp. Calpe, 1924.  

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Capítulo 2 – Parte 7 – A Expressão Artística nos Alienados.


...continuação do texto...

A dança

A dança (1) se apresenta, entre os alienados, com um ritmo caracteristicamente primitivo. É muito mais frequente nas mulheres do que nos homens. Na maioria das vezes ela é acompanhada de canto. O doente sapateia seguindo o ritmo melódico e dá umas viravoltas da esquerda para a direita e vice-versa, derreando o corpo para um lado. A impressão que sentimos ao presenciarmos esta dança é a mesma descrita pelos viajantes das danças dos primitivos.
A dança parece ser um sentimento estético de transição entre as artes de repouso e as de movimento.
Nos povos primitivos as danças têm uma importância considerável; ela é sempre acompanhada de canto.
Primitivamente, diz Ribot (2), a dança tinha uma significação sexual guerreira, religiosa; estava apropriada para todos os atos solenes da vida pública e privada. Nos indígenas da América do Norte, havia danças de guerra, de paz, de negociações diplomáticas, de caça em comum; outras para cada deus, para as colheitas, os mortos, os nascimentos, os matrimônios. Os negros têm por ela um amor levado ao delírio. Os antigos chineses julgavam dos costumes de um povo segundo sua dança; tinham um grande número delas, às quais davam nomes diferentes.
Nas tribos selvagens o que caracteriza ainda hoje a dança é a ordem rítmica de seus movimentos.
Grosse (3) divide a dança nos povos caçadores em dois grupos: danças mímicas e danças ginásticas. As primeiras consistem em imitações rítmicas de movimentos de homens e de animais; as segundas não imitam nenhum modelo natural. As duas espécies de danças existem entre a maior parte das tribos primitivas.
As danças ginásticas mais conhecidas são as dos Australianos, denominadas de corroboris.
A dança mímica dá ao homem um prazer inteiramente diferente do da dança plástica, que é profundamente sensual. Ela satisfaz os desejos de imitação que nos primitivos chega a apresentar sob a forma de verdadeira mania. Os Bochimanos imitam com prazer “os movimentos de certos homens e animais”. Achamos nisso uma analogia entre as danças dos primitivos, das crianças e dos loucos. O prazer da imitação nas crianças, como em certos alienados (nos maníacos, por exemplo), observa-se frequentemente pela representação de suas danças mímicas.
A maior parte das danças primitivas é de significação puramente estética, de fito emocional (1*).
Ribot (2*) diz que a dança primitiva é uma manifestação completa de estética, que encerra a forma embrionária de duas artes destinadas a se separarem mais tarde por evolução: a música e a poesia. “Música pobre, diz ele, reduzida às vezes a três notas, mas notável pelo rigor do ritmo e do tempo. Poesia pobre, que consiste em uma frase curta, repetida sem cessar, ou em monossílabos, sem significação precisa”.
Depois de havermos traçado por ordem os grupos diferenciados das artes nos alienados, poderemos agora melhor estudá-los separadamente, começando pelos desenhos dos dementes precoces.  

Notas de Osório Cesar:

1 – “A dança, diz Franco da Rocha (O Pansexualismo na doutrina de Freud. S. Paulo, 1920), é uma arte em que bem pouco se disfarça o sexualismo. Quem quiser se convencer disso, poderá ler, entre outros escritos, a Conferência de Martins Fontes, onde o ardoroso poeta descreve, com uma riqueza nababesca de linguagem, as devassidões sublimadas dessa arte. Como divertimento, na sociedade, é um derivativo da energia psicossexual; a prova disso é que a dança entre indivíduos do mesmo sexo é o divertimento mais sensaborão que pode haver. A dança, como o flirt, é uma realização econômica de tendências sexuais”.

Comentário sobre esse texto de Franco da Rocha: na leitura atual pode-se ter a impressão de julgamento moral do autor a respeito da dança, mas ele apenas fala dentro de uma linguagem freudiana da época. Aliás, ele costuma ser lembrado como o que primeiro escreveu um livro sobre Freud no Brasil. Além disso, também era comentado nas revistas médicas que ele promovia a dança entre os pacientes do Juquery.

2 – Th. Ribot. La psicologia de los sentimentos. Trd. Esp. Pag. 423, 1924.

3 – E. Grosse. Obra cit..

1* - E. Gross. – Obra cit. pag. 172.

2* - Ribot – Obra cit..




terça-feira, 1 de outubro de 2013

Capítulo 2 – Parte 6 – A Expressão Artística nos Alienados

Observação sobre o texto:
Conforme já comentado em outras partes, deve-se levar em consideração a linguagem e os termos usados por Osório Cesar como vigentes em uma linguagem científica dos anos 1920, que pode soar preconceituosa ou estranha para os nossos dias. Naquele momento ele trazia um novo olhar para o doente mental, dando atenção à sua arte.

...continuação do texto...

Entre todas as artes de movimento, a música é a que mais influência exerce sobre os animais. Sabemos que as aranhas, os cães, os gatos, as serpentes, os cavalos e muitos pássaros sentem o som rítmico musical com prazer. No homem primitivo a música consiste quase exclusivamente no ritmo, que é marcado por instrumentos grosseiros, cujo principal efeito, segundo Ribot, é aumentar a comoção do sistema nervoso. Para isto é usado como indispensável instrumento o tambor. Entre os selvagens da América o tambor é muito louvado. E é com seu auxílio que os índios se embriagam durante horas e horas, ouvindo os sons médios, sem nenhuma significação melódica, que esse instrumento produz. Este processo de embriaguez sonora com o auxílio do tambor encontra-se também em diversos povos de civilização primitiva, entre bruxos, adivinhos, feiticeiros, que provoca nos indivíduos uma espécie de êxtase (1), uma intoxicação motivada pelo som e pelo movimento, ou seja, um estado afetivo determinado diretamente por sensações externas e internas.
O canto dos Botucudos, como descreve Wied (2), parece ser dos mais grosseiros que se possa imaginar na música dos selvagens. “Le chant des hommes ressemble à um rugissement inarticulé qui oscile entre deux ou trois sons, tantôt élevés, tantôt profunds. Ils respirent profondement, mettent leur bras gauche sur leur tête, quelquefois un doigt dans chaque oreille, surtout s’ils ont un public, en ouvrant toute grande une bouche déformée par le botok. Les femmes chantent moins haut et moins désagréablement. On n’entend également que peu de sons qui se répètent continuellement”.
Os instrumentos encontrados entre os índios Parecis por A. Tavares (3) foram as flautas as mais comuns e uma buzina com embocadura de piston, que produz som cavernoso.  
“As flautas são em si; meio tom abaixo do diapasão normal. Formam três grupos naturais: grave, médio e agudo, constituindo o que os compositores chamam uma família, como, por exemplo, nos instrumentos de corda: contra-baixo, violoncelo e violino”.
“A embocadura de todos é semelhante à do flageolet. Têm quatro orifícios. O comprimento varia”.
“Com os orifícios livres, cada qual dá um acorde de mi menor, tom relativo de sol maior: mi2, sol2, si2.”
“O ritmo da música pareci”, diz Tavares, “em regra segue os compassos binário e ternário. Há também nos Fonogramas colhidos, compassos alternantes, cuja regularidade não é conservada em todo o trecho”.  
“O fonograma 14.602 (veja fig. 35) é de um coro em lá maior muito original, quanto à melodia, e surpreendente quanto ao ritmo. É muito incerto. Aproxima-se de 5/4, que é mantido durante os três primeiros compassos; aí se quebra, caindo o coro, ora no compasso binário, ora no ternário. A transcrição deste fonograma foi feita em compasso ¾, para facilitar a leitura”.
A música entre os alienados é muito frequente, observa-se nos manicômios.
De todas as artes que tratamos é a música a que mais se conserva equilibrada no cérebro do alienado. Enquanto as outras manifestações artísticas, principalmente as plásticas (escultura, pintura ), sofrem grandes modificações em sua essência (deformações de todas as espécies; dissonâncias, ritmos quebrados, ideação absurda, etc. ), a música, pelo contrário, na maioria dos casos que temos observado, mostra-se corretamente conservada nos alienados.
André Repond (1*), em um estudo que fez acerca das alterações da reprodução musical na esquizofrenia observou o seguinte:
1 – O que chama mais a atenção na maneira de tocar de todos os esquizofrênicos, é a falta de sensibilidade musical.
2 – Para muitos esquizofrênicos parece não ter absoluta importância o que eles executam, qualquer que seja o humor que eles apresentem.
3 – Uma terceira particularidade é a diminuição vagarosa, embora irregular, do interesse pela música.
“Indivíduos que foram músicos, antes e logo depois do início da moléstia, vão perdendo o interesse pouco a pouco de executantes e de ouvintes. Mas, em alguns casos graves, doentes há que, quando ouvem música, se interessam bastante. Talvez isto se explique pelo fato de que a música provoque certo bem estar, durante o qual os doentes mais facilmente se concentrem”.
“Em alguns casos observamos que, antes da moléstia, certos indivíduos tocavam de preferência músicas clássicas, enquanto que depois de instalada a moléstia só eram capazes de executar valsas e marchas. Em analogia com as outras faculdades, é de supor-se que as funções complicadas também na música são perturbadas com maior facilidade do que as simples; assim, a função musical comporta-se em analogia com a intelectual, cuja decadência, nesta moléstia, não progride com regularidade”.
“No início da moléstia, a vontade de executar ou de compor música é exagerada frequentemente, em analogia com a necessidade comumente observada nos esquizofrênicos de ocupar-se de literatura”.
“Nos nossos casos podemos verificar todos os graus da faculdade do sentimento musical afetivo. Tem-se a impressão de que os doentes simulam sentimentos que já desapareceram. Daí os estranhos maneirismos, exagero de nuanças e a mímica teatral, etc”.
“A perturbação mais notável na esquizofrenia, pela qual a falta de sentimentos afetivos se manifesta, é a perturbação da atenção”.
Em grande parte a observação do autor é verdadeira. Mas, casos há, e não muito raros, nos Hospícios, em que se encontram esquizofrênicos com sensibilidade musical, isto é, com sentimento musical conservado. Conheci um caso bem interessante no Hospital do Juquery, de um preto, com instrução primária rudimentar, músico, e que apresentava uma associação extravagante de ideias, maneirismo acentuado, sem noção do meio e do tempo, cujo diagnóstico feito foi o de demência precoce catatônica e, no entanto, conservava ótima memória musical e executava regularmente vários trechos de músicas de sua lavra, no clarinete – instrumento seu predileto –, observando as nuanças que a natureza da música exigia.
No Hospital do Juquery existe a “Charanga Hebefrênica”, composta exclusivamente de alienados. Vale a pena assistir-se a um ensaio desse pequeno grupo de músicos. São cerca de 15 doentes mais ou menos. A regência está confiada a um parafrênico, com delírio religioso, músico e compositor. Os músicos são todos doentes: dementes precoces, epilépticos, etc. O mestre é autor de vários dobrados e valsas e o repertório da banda se compõe quase na sua totalidade de valsas, tangos, maxixes e dobrados.
Antes de começar o ensaio, o mestre, trepado sobre uma cadeira, com a batuta na mão, explica, com ares de preleção, o sentimento dos trechos musicais. Começa assim o ensaio e leva horas e horas sem uma discussão, sem uma queixa, passando e repassando as frases e os períodos musicais, causando estranha admiração a quem os ouve e os vê.
A valsa que reproduzimos na figura 57 é da inspiração de um esquizofrênico. É o caso do preto de que falamos atrás. As composições desse doente, que ele próprio, solfejando, corretamente escrevia no papel, mostram pouco interesse com relação à originalidade. Os períodos musicais estão certos, a inspiração é sentimental e a forma regular. Não há originalidade; mas nota-se, na concepção, um apanhado geral e muito bem feito dos motivos melódicos das nossas cantigas populares, “choros”.
É uma valsa sentimental, ingênua, como a canção do brasileiro primevo, cheia de anseio e de nostalgia e, por vezes, tocada de um fogo soberano que enfeitiça o amor (1**).
“Nos povos novos”, diz Renato Almeida (1***), “o motivo popular veio com o conquistador e reflete essa dor da adaptação, em que sangrou seu espírito audacioso. Entre nós, no ardor da natureza tropical, cheia de fulgurações, o canto foi melancólico. Melancólico era o índio fugidio e indolente, que vivia a vida cheia de nostalgia, num perpétuo espanto pelas coisas que o cercavam; melancólico era o lusitano, ousado mas triste, vivendo no mar e com a saudade da pátria sempre no coração; melancólico era o negro, caçado, roubado e escravizado, que sofria no cativeiro uma dor irremediável e aniquilante. Todas essas vozes que se levantaram eram um contraste com o cenário de magnífico fulgor. A alma do brasileiro guarda esse fundo trágico, em que o homem teme a natureza e procura vencê-la pela imaginação exaltada, caindo depois em abatimento e langor. E esse primeiro encontro com o meio, esse inquieto e doloroso êxtase ante uma grandeza que maltrata, não encontraremos em símbolos mais vivos do que no canto popular, através da infinda melancolia que resuma, como perfume de flor agreste e maravilhosa”.
A composição musical do nosso doente traz o nome de uma mulher, “Purselia”, talvez lembrança de um passado amoroso.
Comparemos o motivo melódico dessa valsa com o de uma canção dos índios parecis (fig. 35).
Vejamos agora a valsa da fig. 58. Foi composta por outro esquizofrênico, com delírio de grandeza. Julga-se príncipe, filho de Victor Manoel, Rei da Itália, e espera casar-se com uma dama de alta hierarquia. Nesta composição é digna de nota a inspiração musical. Ela tem caráter particularmente original. Os períodos musicais são quebrados por notas sincopadas e apresentam pobreza melódica. As notas se espalham livremente pelas pautas, alheias a qualquer motivo pré-estabelecido. Ritmo inteiramente desorientado, sem caráter de valsa. Poderemos comparar esta forma de desenvolvimento musical com a das composições ultramodernas.
A pobreza melódica e a anarquia de ritmo nas músicas desse doente são o que mais caracterizam a sua originalidade de compositor. Entretanto, é um ótimo músico executante e uma das figuras mais salientes da “Charanga do Juquery”. O seu instrumento predileto é o bombardino.
Num trabalho interessante sobre o ouvido musical dos imbecis, Inhofer (1****) observou que o takento musical é, em grande número de imbecis, superior ao das crianças normais. Igualmente, em indivíduos idiotas bem adiantados o sentimento do ritmo musical se encontra bem conservado, tanto para a recepção como para a reprodução.
De todas as aptidões observadas nos idiotas e nos imbecis, as artísticas e as matemáticas foram as mais notadas por quase todos os psiquiatras. “Mais”, diz Solier (2*), tous les arts ne donnent pas lieu à des tendances analogues, et c’est surtout pour la musique qu’on les reencontre bien plus que pour le dessin, la peinture ou la sculpture”. E, mais adiante: “Comme ces sauvages qui accompagnent leur chant monotone de mouvements cadencés, toujours les mêmes, les idiots qui chantonnent accompagnent aussi leur chantonnement d’un balancement de la tête et du corps”.
“Quelquefois, des idiots, qui ne savent pas prononcer un mot, retiennent du premier coup un air meme assez difficile qu’ils fredonnent juste ensuite. Chez d’autres la musique fait cesser leurs cris ou bien ils adaptent leur balancement à son rhythme”.
Séguin (3*) diz também: “Généralement, l’idiot aime et saisait très bien les rhythmes, je dirai plus: cette faculté que l’on nomme faculté musicale, est le proper des idiots caractérisés. Je n’ai pas vu d’idiots (à moins qu’ils ne fussent frappes de non myotilité ou de paralysie) qui n’exprimassent le plus vif plaisir à l’audition d’um morceau de musique. J’en ai vu un grand nombre qui chantaient juste, quoique parlant mal ou à peine. Ils sont plus sensibles aux rhythmes énergiques, rapidez et gais qu’aux mesures lentes et graves. Sans doute, parce que plus les vibrations sont nombreuses, plus leur action est matériellement énergique. Ils sont également plus sensibles à la musique instrumentale qu’à la voix humaine”.  

Notas de Osório César:

1 – Wallaschek – Primitive Musik. Cit. por Ribot, pag. 139.
2 – Cit. por Grosse, pag. 213.
3 – Roquette Pinto. Rondônia. 2ª ed. Pag. 139.
1* - Über Störungen der musikalischen Reproduktion der Schizophrenico. Algm. Deutsch fur Psychiatrie. Berlim, 1918, vol. 70.

1** - Bilac já descreveu a música brasileira, em síntese, no immortal soneto, que abaixo transcrevemos:

Música Brasileira (“Tarde”. Francisco Alves, 1919).

Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor; encerras na cadência acesa,
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa volúpia erra a Tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.

És samba e jongo, chiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva do beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.   

1*** - História da Música Brasileira. Briguiet. Rio, 1926.
1**** - Über musikalisches Gehör bei Schwachsinnigen. Die Stimme, 1908.
2* - Psychologie de L’Idiot et de L’Imbecile. Fel. Alcan. Paris, 1901.
3* - Traitement moral des idiots. 

Observação sobre o texto:
Conforme já comentado em outras partes, deve-se levar em consideração a linguagem e os termos usados por Osório Cesar como vigentes em uma linguagem científica dos anos 1920, que pode soar preconceituosa ou estranha para os nossos dias. Naquele momento ele trazia um novo olhar para o doente mental, dando atenção à sua arte.


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Capítulo 2 – Parte 5 – A expressão artística nos alienados


continuação do texto...

A arte decorativa constitui, entre os alienados, uma forma muito comum e a mais prática de dar vazão aos seus pensamentos. Em regra geral, são nos muros e nos terreiros dos pátios dos pavilhões que eles pintam com carvão ou riscam com qualquer instrumento pontudo os seus desenhos. Essas decorações, na maioria, são pueris, e, às vezes representam símbolos religiosos como cruz, âncora, peixe, mão, pé, etc. Mas o que se nota mais frequentemente nessas decorações murais são os graffittis (1), sem grande valor artístico (figs. 53,54), porém muito importantes por representarem cenas que preocupam a imaginação do doente.
Uma outra manifestação artística, que somente encontramos desenvolvida na seção das mulheres, é a da fabricação de bonecas. O material empregado para este fim é constituído de trapos velhos e de papel. São, sobretudo, entre as alienadas as mais idosas que encontramos com carinho esse mister. Elas vestem, arranjam e enfeitam as bonecas com muita faceirice (fig.55). Todas possuem um nome próprio e uma fisionomia particular. As doentes gostam de suas bonecas, conversam com elas e se divertem dessa maneira com entusiasmo. São umas verdadeiras crianças grandes.
“Alguns alienistas, como Feré (2), explicaram o amor às bonecas por uma derivação do instinto materno, que, em lugar de dirigir-se para seu objeto natural, as crianças, torna-se definitivamente desviado. Até uma idade avançada a mulher reservará sua solicitude exclusiva para as bonecas ou a repartirá entre elas e os animais”.
Também entre os índios carajás o gosto pelas bonecas é bem apreciado como poderemos ver pela figura 56. O nº 19491 é um boneco de barro, representando um velho, obtido acima da Ilha do Bananal, em outubro de 1927, na excursão Dra. Snethlage. O nº 19494 representa um homem e tem a mesma proveniência que a peça nº 19491. O nº 19498, boneca de barro, representa uma mulher, igual proveniência que a peça 19491. Essas peças pertencem à rica coleção do Museu Nacional, cuja reprodução fotográfica que aqui damos, foi carinhosamente autorizada pelo professor Roquette Pinto, diretor do Museu.
A tatuagem é rara nos alienados. Entre nós, no Hospital de Juquery o número de loucos tatuados é muitíssimo reduzido. Dos 1800 internados deste hospital, apenas encontramos 5 tatuados. Eram todos estrangeiros, de nacionalidade síria.
Lombroso dizia que todo homem tatuado é um criminoso e que a tatuagem na infância é um sinal precoce de criminalidade, indício de anormalidade.
Modernamente tem-se combatido este ponto afirmativo do mestre italiano.
Os autores de agora atribuem o fato da tatuagem às causas extrínsecas. Entretanto, parece-nos que Lombroso não esteja muito fora da verdade. Pois sabemos que a tatuagem é estimada pelos loucos morais, prostitutas, soldados, marinheiros e vagabundos. Entre os criminosos ela é encontrada numa grande porcentagem. “O maior número de tatuados”, diz Correa de Toledo (1*), “encontramos entre os reincidentes no crime, que parecem ter verdadeiro prazer em inscrever um desenho no corpo todas as vezes que vão para a prisão. As associações malfeitoras a usam como sinal de identidade, tais como os Camorristas, que dando-lhes um valor oculto de título e merecimento, indicam conforme o número de fatos se se trata de um noviciado ou um mestre em sua arte”.
Nos povos primitivos e nos selvagens atuais a tatuagem constitui um motivo mais curioso de ornamentação epidérmica.
Spix e Martius, citados por Lubbock (2*), descrevem assim a tatuagem de uma mulher coroada: “Sobre a face ela tem um círculo e por cima deste círculo duas fendas; abaixo do nariz várias marcas semelhantes a um M; no canto da boca, no meio da bochecha, duas linhas paralelas e abaixo, nos dois lados, várias faixas direitas; abaixo dos seios e entre eles, sobre o peito, diversos seguimentos (ou segmentos?) de círculos se reatam entre si; em cada braço uma serpente. Esta beleza não trazia por todo vestimento senão um colar de dentes de macacos”.
Como vimos, a tatuagem é para o primitivo um ornamento de extrema beleza.
Os desenhos dos tatuados, conforme as tribos, apresentam em cada indivíduo formas ornamentais bem singulares.

Notas de Osório Cesar:

1 – Os graffittis são ótimos elementos de informações históricas sobre a vida íntima e a arte popular na antiguidade. Foram observando os graffittis traçados nos edifícios que se conseguiram descobrir muitos motivos da história de Roma e de Pompeia.
2 – Citado por Vinchon, obra citada.   
1* - Contribuição ao estudo das tatuagens em medicina legal. Tese, São Paulo, 1926.
2* - Obra citada.