Osório César foi um dos primeiros psiquiatras brasileiros interessado em estudar a arte produzida por pacientes psiquiátricos, tendo iniciado esses estudos nos anos 1920 no Hospital do Juquery. Seu nome e seus trabalhos estão quase esquecidos. Este blog procura divulgá-los.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Capítulo 5 – Parte 4 – A Expressão Artística nos Alienados


...continuação do texto...

Para avaliarmos melhor os escritos literários dos alienados desse grupo, primeiro da classificação de Réja, apresentamos mais estes versos originais, cuja incoerência nas ideias é flagrante, saltando aos nossos olhos um palavrório puramente intelectual, salpicado de vez em quando de grosseira expressão, entre ideias e imagens confusas:

Apologia de Napoléon (1)

Onze minutes, criant, horizon.
Canons, lueurs, secondes, dètonation.
Nous calculâmes qu’Apollon
Fasse cent dix lieues en phaeton;

Dix-huit-cent, observe Colonel,
Qu’Icare se perdit au soleil,
Don Louis ne mourut pas, Napoléon,
Craignit d’Espagne l’Inquisition,
Le duc d’Enghien ne devait pas suffrire
Pour tuer souffrir, il guillotine.

As obras do segundo grupo – onde se encontra contida uma emoção ou uma ideia – são numerosas.
O mecanismo psíquico nesses doentes acha-se fortemente excitado; o fenômeno mórbido da obsessão impulsiva cria então, na imaginação deles, ideias artísticas e literárias surpreendentes.
“A imaginação superexcitada faz conhecer ideias artísticas e literárias, diz Régis, que surgem em multidão e nada têm nelas mesmas de absurdo e se conservam nos limites da coerência. Muitas vezes mesmo, em razão do estado de exaltação extrema das faculdades intelectuais, elas oferecem um caráter de originalidade, de novidade, de distinção e de superioridade, que as tornam verdadeiramente admiráveis”.
Escutemos:

Rayon d’amour (2)

Quand je te vois, mon bel ange adore
L’amour fait tressaillir mon âme,
Ma lèvre alors sur ton sein enfievré
Dépose un doux baiser de flame.

A moi seul appartient ton coeur;
Je l’aimer, ai la vie entière,
Rayon d’amour, douce lumière,
Apporte-moi, le vrai bonheur.

Esses versos, de simplicidade encantadora e bela sonoridade, são de um histérico, com provas de sadismo.
Eis um soneto muito curioso da lavra de um doente de psicose maníaco-depressiva:

Buraco (3)

Buraco que não é de formiga
Que é um fundinho mui gostoso,
a uns beatos causa intriga
por motivo religioso...

Perdoê-nos a Santa Religião
Tão severa em seus mandamentos,
gozemos o Amor e a paixão
nos seus psicológicos momentos.

Oh! O amor nasceu com o homem,
É o seu eterno companheiro,
nem a dor nem o tempo consomem
as  veemências do deus brejeiro...

O homem foi feito de barro
Como diz a Santa Escritura,
mas é um vivente mui bizarro
obediente às leis da Natura.

O nosso caríssimo pai Adão
Que feliz viveu no Paraíso,
por sua Eva teve forte paixão
pecou, gozou, não teve juízo...

Sigamos o nosso primeiro pai
que sentindo Amor gozou a flor...
Amai, humanidade, Amai!

Apreciemos agora uma das produções mais originais que temos visto na literatura dos alienados, como concepção, vida movimento e malabarismo desenfreado:

Dédié à ma brue (4)
Études astronomiques – Littèrature française
Himne á la terre

Em ta révolution, marche, marche Terre que me reçus, me donna assistence, la vie.2
Toi que mes pieds ont foulé et foulent encore. 3
Toi, qui fus dans ma jeunesse l’object de mes ètudes et que j’étudie toujours.
Toi, dont j’admire la légèreté, la vitesse,4 la régularité: 4 bis Quelle Loi te contraint depuis des siécles des siécles!
Soecula Soeculorum! 5
Dans ta course... sensèe, toujours tu évites un choc que pour des Humains serait leur perte.
Mais Celui 6 qui fit le monde, voulut malgré ta rotation 7, qu’ils restassent debout et qu’ils n’ignorent point que Tu parcours, dans l’imensité pendant une année accompagnée de ton Atmosphére e de ton Satellite. Lune – une étendue au minimum, de Deux cent trente millions de lieuses!
                           230.000.000 !
Matin! Notes
1.      En 365 jours, 6 heures.
2.      Allusions au domaine de VE
3.      69 ans.
4.      550.000 lieues en 24 heures.
5.      Indè finiment.
6.      Le Créateur.
7.      En 24 heures, chont
                          4 bis se rend toujours à son point de départ.

Essa composição literária, de uma formidável engenhosidade cabalística de palavras, escritas por um louco, não deixa de apresentar uma certa emoção aos leitores, sobretudo quando se conhecem as produções da arte ultramoderna.
Como exemplo, citemos o Poema Abúlico, de Mário de Andrade, que é um dos mais interessantes trabalhos do apreciado e querido escritor da nova geração dos artistas paulistanos:

Poema Abúlico (5)
                              A Graça Aranha

Imobilidade aos solavancos.
Mário, paga os 200 reis!
Ondas de automóveis
                  árvores
                  jardins...
As maretas das calçadas vêm brincar a meus pés.
E os vagalhões dos edifícios do largo.
Viajo no sulco das ondas
                                              Ondulantemente...
Sinto-me entre mim e a terra exterior.
                     Terra subconsciente de ninguém
Mas não passa ano sem guerra!
Nem mês sem revoluções!
Os jornaleiros fascistas invadem o bonde, impondo-me a leitura
dos jornais...
                     Mussolini falou.
Os delegados internacionais chegaram a Lausanne.
                     Ironias involuntárias!
Esta mulher terá sorrisos talvez...
                     Pouca atração das mulheres sérias!
                     Sei duma criança que é um Politeama de convites
                     de atrações...
As brisas cobrem-me os lábios com as rosas do Anhangabaú. Sol
pálido chauffeur japonês atarracado como um boxista.
                                         Luz e força!
                                Light & Power
Eu sou o poeta das viagens de bonde!
Explorador em busca de aventuras urbanas!
Cendrars viajou o universo vendo a dança das paisagens...
Viajei em todos os bondes da Pauliceia!
Mas em vez da dança das paisagens,
Contei uma por uma todas rosas paulistanas
 e penetrei o segredo das casas baixas!
                  O! quartos de dormir!...
                  O! alcovas escuras e saias brancas de morim!
                  Conheço todos os enfeites das salas de visitas!
                  Almofadas de gato preto;
                  lustres floridos em papel de seda...
                 Tenho a erudição das toalhas crespas de crochê, sobre
                 o mármore das mesinhas e no recosto dos sofás!
                 Sei de cor milhares de litografias e oleogravuras!
                 Desdêmona dorme muito branca
                 Otelo de joelhos, junto do leito, põe a mão no coração.
                 Have you prayed tonight, Desdêmona?
                 E os bibelôs gêmeos sobre os pianos!
                 A moça está de azul
                 Ele de cor de rosa...
                 Valsas lânguidas de minha meninice!
Em seguida: Invasão dos Estados Unidos.
Shimmyficação universal!
O foxtrote é a verdadeira música!
Mas Liszt ainda atrai paladares burgueses...
        Polônias interminavelmente escravizadas!
             Paderewski desiludiu-se do patriotismo e voltou aos a-
plausos internacionais...
                   Como D’Annunzio.
                   Como Clemenceau.
                                 Os homens que foram reis hão de sempre a-
cabar fazendo conferências?!...
Mas para mim os mais felizes do mundo
são os que nascem duvidando se são turcos ou gregos...
                                                       franceses ou alemães?
                                  Nem sabe a quem pertence a ilha de Martim
Garcia!...
              História universal em pequenas sensações
                    Terras de Ninguém!...
               ...como as mulheres no regime bolchevista...
No entanto meus braços com desejo de peso de corpos...
Um torso grácil, ágil, musculoso...
Um torso moreno, brasil...
Exalação de seios ardentes...
Nuca roliça, rorada de suor...
Uns lábios uns lábios preguiçosos esquecidos num beijo
de amor...
Crepito:
E uma febre...
Meus braços se agitam.
Meus olhos procuram de amor.
Sensualidade sem motivo...
É o olor óleo das magnólias no ar voluptuosos desta rua.
          Dezembro – 1922.
                                                            Mário de Andrade.

Notas de Osório César:

1 – Citado por Réja, pag. 114, obr. cit.
2 – Viegen – Le talento poétique chez les dégénérés. Thése de Bordeaux, 1904.
3 – Os versos foram feitos quando o doente se achava em estado de excitação maníaca, sendo notável o número de poesias por ele compostas durante essa fase da psicose maníaco-depressiva.  
4 – Citado por Réja, pag. 123. Obra cit.
5 – Klaxon, nº 8-9. São Paulo, 1922-23.  

domingo, 14 de junho de 2015

Capítulo 5 – Parte 3 – A Expressão Artística nos Alienados

...continuação do texto...

O estado demencial, justificativo de um diagnóstico de “demência precoce paranoide”, se revela nas modificações que observamos nós do tônus afetivo. Já o colega, na sua observação, embora ficasse na síndrome referida, fala no “sentimentalismo doentio pela sua família”, que o meio social só lhe interesse pelo mal que faz, ligando a essa estúpida interpretação o assassinato da mulher que repeliu a sua crapulice; a nossa observação aqui também revela essa perversão dos sentimentos éticos e do pudor.
Lembram ainda a demência precoce, as alucinações, o modo afetado e “maneiroso” quando fala, o modo estereotipado do seu andar, o emprego frequente de neologismos, os impulsos, referidos, aliás, estes, na observação do Dr. Moraes Mello.
A carta escrita ao Dr. Pisa mostra ainda repetições inúteis e lacunas no raciocínio, ideias fragmentadas, terminando mesmo com palavras soltas que absolutamente não se associam.
Ouçamo-lo agora numa das suas curiosas trovas compostas na Penitenciária, sobre a epidemia de gripe de 1918. Elas possuem um tom satírico e a cadência é igual à da poesia popular. Sentimos vivamente que o autor revela nesta poesia, trabalhada com bastante naturalidade, reminiscências de leituras, como muito bem já observou o Dr. Moraes Mello.                    

 (Observação: grafia própria do paciente; optamos pelo itálico em vez de aspas)
1)    
        Jornal se ocupou do cauzo
feis Lembrar a medicina
que devia da combate,
Esta doença malina...
Talvez fosse combatida,
Com Recussio da vacina...

2)      Kilograma de Sufato
foram em agua dissolvidos;
pois bem engarrafado
para atender os pedidos,
cada phamacia ocupava,
deis caxeros decididos;

3)      num Laboratorio chimico
fei-ce muita esperiençia,
Sim ter neum resultado
Já perdiam a esperança
Quando um medico abalizado
achou a Luz da Sçiencia.

4)      Levantou-se A medicina
Esta Brilhante Sçiencia
parece que foi criada
Nos Brassos da providencia
Pois nela se encerra todo
Saber e benevolencia.

5)      Muitos Dotores afamados
tal como Hormeio Barão
pereira, e Hovardo Cruz;...
Dotôr meira Rubião
Creio até foi presidente
Duma Brilhante Seção,

6)      Quina Brava é Bóm Remedio
para febre intermitente
mas para gripe espanhola
É limão com aguardente
Droga dos Irmãos da ôpa
quando estão com dor de dente.

7)      Ouito dias trabalhos
com toda prosperidade
não só au Bem da Sçiencia
mas do Bem humanidade
Atendendo os pedilorias
da vozes da Caridade.

8)      planta que ficou droga
foi levado o presidente
da Sociedade medica...
falou o dotor Sçiente
Eis aqui plonto o Remedio
Com que Saremos os doentes.

9)      Resta somente pedir
A todos meus cidadão
os que foram Lavradôr
que plante também Limão
pois foi esta Bela fructa
que tirou tanta aflrição.

10)  Sabendo o José Caipora
que o Limão era percurado
chamou a Chica timbira
que era Irmã do seu conhado
Colheram uns deis mil fructos
foram vender no mercado.

11)  Tendo ele em seu quintal
Bães Limãoheiros aplando
E estas Benditas arvores
tinha os galhos carregado
de fructas todas maduras
que deu-lhe um Bâm Resultado.

Se os versos não são bons e pecam pelo amaneirado da expressão, nota-se, todavia, espontaneidade e ritmo nos seus compassos. E ainda mais: além dos fatos que a sua memória reproduziu de coisas lidas e aprendidas e da sua péssima ortografia, encontramos, contudo, em A., um poeta interessante e dotado de uma rica imaginação.
Escutemo-lo na

(Observação: grafia própria do paciente; optamos pelo itálico em vez de aspas)

A guerra

1)      As treis crues aliadas
Treis feras Sém piedade
Que vaga de quando em quando
com grande ferocidade
por este vale de Lagrima
atacando a humanidade.

2)      Batalhões marcham pra guerra
pois a malvada chegou
se ençopa de sangue a terra
Os Soldados com valôr
que no Seu peito se encerra
marcham no sôm do tambôr.

3)      Cazados decham as espozas
chorando deicham os filhinhos
Solteiros abandona os paes
Os Seus Paternos carinhos
Decham as amantes chorosas
E segue os duros caminhos!

4)      Dando adeus as namoradas
parte o coitado choroso
levando o peito sangrando
deste punhal venenoso
que fere constantemente
um pobre amante Saudoso.

5)      Eu juro que a guerra é feia
porém digo com Razão
que é covarde e mais feio
um peito ingrato e vilão
que fraqueja um só momento
na defeza da nação.

6)      Fanfarra tocam os clarins
grita avante o capitão
Tenente aperta o talim...
De carabina e facão
marchar galbozo na frente
é dever do cidadão.

7)      Guerra, e um mal medonho
que vém da antiguidade
Açiria e a grande Greçia
Dizem na Remorta idade
Brigaram mais de sém anos
Se cazo os contos é verdade.

8)      Homem como Carlo magno
Guerreiro de profição
também Alechandre grande
e o grande napoleão...
o tal guilherme Segundo
perdeu-se nesta ilusão.

9)      Italia deou Garibalde
um valente capitão
na Greçia foi lianida
que teve honra de Leão
Manuel Luiz osorio
do Brasil foi um Rodão.

10)  Jovens não adorem a guerra
mas se cazo um atrevido
Lançar desaforo a terra
que nela fomos nassido...
aplica-lhe com presteza
o gastigo merecido

11)  Lepe fação é carabina
Não Recuzaes um instante
Açeitaes a disciplina
na voz do teu comandante
Brandindo a espada fina
E gritando; avante avante

12)  Levando a frente a Bandeira
com guardos fies é forte
Infante marcham em filheira
Sim temer a propria morte...
Cavalheria Ligeira
de Lança com Bandeirote

13)  Metralhadôra rugindo
enche de fumo amplidão
As Ballas avôa zunindo
tomba Soldado no chão
abafa o peito um gemido
mas grita; viva a nação

14)  Na frente grita o comando
avante meus camaradas
perpara os Soldados infant
forma um quadlado a vamguarda
Recua a cavalheria
duma inimiga Brigada.

15)  Ordene o chefè, uma calga
de ferro frio, sem demora
os inimigos infraqueçem
fugindo Se vâm embora
o pavilhão theumflante
Reçebe o hinno da gloria.

16)  prepara-se as ambulança
prá recolherçe os feridos...
Sessou o sõm das metralhas
comessa agora os gemidos
É este guardo, o da guerra
Mais triste é mais doloridos.

17)  Quantos ficam ali Sem vida
pelo os campos estendido
seus corpos iram nas valas
ou em gazes embebido
seus membros amado e querido
Vãm em chama dissulvido

18)  Reparam o material
desta Belica operação
com levas de Reculuta
fassem uma concertação
o chefe, ordena os comandos
tomar nova pusição

19)  Sei Bém, queste guardo é triste
E cauza muita afrição
pois decha o mundo abitado
por viuva e por horfão
por cochos é aleijados
uns sem perna, outros sem mão.

Nessa composição sentem-se bem, afora a bagagem literária do autor, lembranças de coisas lidas de livros e revistas e aí reproduzidas, conservando a cadência das nossas antigas poesias populares.
No Hospital, depois de alguns dias de sua chegada da Penitenciária, ele escreveu esta canção:

(Observação: grafia própria do paciente; optamos pelo itálico em vez de aspas)

Sabia teu doce canto
Respira musica divina
nimua vo Agentina
Pode egualhar teu encanto
Faz morrer A cavatina
Sabia teu doçe canto

Ahi quem dera neste estante
nos prados de minha terra
escutando la da Seria
A tua muzica elegante
toda Belleza se emçerra
sabiá teu doçe canto.

Hoje que me acho ozente
de meu alegre cantor
fuzi-me a vos do amor
me resta as lagrimas contante
que é comsollo do amante
prar enitivo da dôr.

Assim, nessa melancólica toada, ele traduz em versos toda a saudade de sua terra numa linguagem fluente, muito embora a métrica horrivelmente castigada e o português barbaramente deturpado. Titante isto, percebemos nesses versos uma expressão afetiva que lhe dá um caráter romântico e rimas sonoras e agradáveis ao ouvido. Estamos convencidos que esses versos, desprendidos do subconsciente de A. são descantes da alma do sertanejo, que se ouvem ao luar, no terreiro das fazendas, onde os violeiros vão dizer em toadas plangentes as saudades que lhes transbordam do coração.
“As canções (1) pelas quais os povos primitivos exprimem suas alegrias e suas tristezas não são, em regra geral, nada mais do que frases simples, expressas sob uma forma estética simples: a repetição e a ordem rítmica”.
É o que acontece com a canção do sabiá. São versos primitivos, singelos, porém cheios de tristezas, exprimindo recordações de sua terra natal.

Notas de Osório César:
1 – E. Grosse – Les Débuts de L’Art.









sexta-feira, 24 de abril de 2015

Capítulo 5 – Parte 2 – A Expressão Artística nos Alienados

...continuação do texto...

Vários autores têm classificado a arte dos alienados em diversos grupos diferentes, segundo o estado mental de cada um.
M. Pailhas (d’Albi) (1), tratando das artes nos alienados, distinguiu 5 modalidades diferentes, que classificou da seguinte maneira:

1) – Dos degenerados com mentalidade débil e geralmente mais pervertida do que delirante. Entre eles, encontram-se as tatuagens, as pinturas sobre os muros, etc., cuja composição, ordinariamente muito vulgar, frequentemente obscura, se limita a traduzir tendências desregradas, orgulho, erotismo, misticismo, etc..
2) – Dos loucos circulares no período de exaltação. Alguns desses doentes, dotados de educação geral e de certas aptidões artísticas anteriores, algumas vezes fazem obras extraordinárias e especialmente originais quanto ao sentido e à forma.
3) – Dos maníacos, entre os quais a veia artística se mostra submissa aos processos intermitentes, qualquer que seja a aparente continuidade do delírio. Mais do que no outro caso, a composição traz aqui a impressão desse delírio. Frequentemente, a originalidade das concepções e a habilidade da execução permitem excluir a demência, pelo menos nos graus avançados.
4) – Das demências constituídas. Aqui se acusa manifestamente uma volta para a arte infantil, para as estereotipias, as composições deformadas, incoerentes e hieroglíficas. Isto se verifica por acaso e desde que o doente seja um profissional ou um prático da arte, produzindo obras de algum valor, graças ao exercício automático das aptidões antigas.
5) – Das demências precoces e paralíticas, nos períodos de exaltação iniciais.

Réja (2) classifica, assim, em três grupos as obras de arte dos loucos que nunca produziram antes da moléstia:

  1) Obras que denunciam uma desagregação mental, caracterizada por um automatismo quase puro.
  2)  Obras onde se encontra contida uma emoção ou uma ideia.
  3)   Obras onde se encontra contida uma emoção ou uma ideia com um cuidado de análise literária.

No primeiro grupo estão as obras que os doentes compõem e que são simplesmente reminiscências e coisas lidas e ouvidas antigamente de outros autores e retidas na memória, reveladas agora, desordenadamente, em verso ou em prosa, apresentando estilo extravagante, em certos casos originais, acompanhadas, às vezes, de conceitos pessoais.
Como exemplo dos escritos desse grupo vamos ver, mais adiante, os versos de um demente precoce paranoide, criminoso, compostos durante a sua estada na Penitenciária.
Em primeiro lugar contemos a história de sua doença:

  A. (3), 35 anos, brasileiro, pardo, internado na Penitenciária em 28 de Março de 1922 por homicídio, condenado a 15 anos. Na observação feita pelo Dr. José de Moraes Mello, durante o tempo que o doente esteve na Penitenciária, consta o seguinte:
Exame somático: Bem posto no uniforme, arrogante, inquiridor, sem gestos. Assimetria craniana. Sensibilidade, marcha e movimentos normais. Reflexos normais. Não há disartrias.
Filho de pais lavradores, analfabetos e alcoólatras. A. nasceu nos sertões da Paraíba do Norte, Lagoa Grande, aos 15 de Agosto de 1890.
Anamnese: Frequentou durante 3 anos escola primária, mal viveu com os seus até os dezoito anos, e nessa idade abandonou-os, fugindo para Pernambuco, onde, em 1915, angariaram-no para a Marinha de Guerra; foi, diz ele (o Estado Maior da Armada infirma a alegação), Marinheiro Nacional e praça do Regimento de Fuzileiros Navais até 1918, quando teve baixa. Transferiu-se então para São Paulo, Presidente Alves, onde, como trabalhador braçal, viveu até ser preso aos 14 de Setembro de 1919, por homicídio. Processado, foi condenado a quinze anos de prisão, entrando na Penitenciária aos 28 de Março de 1922.
Como antecedentes mórbidos acusa sarampo, gripe e gonorreia. Era alcoólatra e fumante.
Exame psíquico: Cultura rudimentar que o evolver da vida enriqueceu de conhecimentos e coisas várias, uns e outros mal compreendidos e deturpados; a ideação, que um narcisismo moral e intelectual condiciona, é de uma riqueza de belquior, feita de recordações fragmentadas, mal sabidas e truncadas, ditas com ênfase tola e gesticulação imprópria, e escritas em grafia horrível, sob incansável e irreprimível impulsão; a orientação, no tempo e no espaço, é perfeita e a memória boa e pronta, embora fornida de uma provisão mal adquirida de lembranças, recordações que ele aproveita, quer em prosa cheia de impropriedades e de impenetráveis sentenças, quer versejando a seu modo, mas conservando, através de todos os tropeços e tolices, a cadência dos cânticos populares”.

Termina o Dr. Moraes Mello diagnosticando esse caso como o de uma síndrome paranoide.

No Hospital do Juquery o doente foi examinado durante alguns meses pelo Dr. Mário de Gouvêa, cuja observação psiquiátrica passamos a relatar:

Removido A. da Penitenciária, porque o doutor clínico daquele presídio encontrou na dedução diagnóstica uma síndrome paranoide. Chegou a essa conclusão porque viu no quadro mórbido um delírio persecutório, o raciocínio repousado em bases falsas, a egolatria, um temperamento violento e a inadaptação ao regime da Casa. Documentando a sua bem cuidada observação aparecem versos assinados pelo doente, porém, evidentemente, muitos não são mais que reminiscências de leituras antigas; uma cópia de uma carta que o nosso observando endereçou ao Dr. Pisa dá ideia mais exata do estado mental que justificou o pedido de remoção. Aí está patente um delírio que não é fixo e repousa sobre ilusões e alucinações, que ele descreve sem rebuços: “desejava falar pessoalmente com Vossa Excelência porque é certo que sonhei com coisas importantes para a ordem pública: descobri os processos de uma revolução em vista para ser posta em prática. Fui traído pela turma de bandidos lá do Hospital. Outros vêm pelo subterrâneo, que tem por baixo da Penitenciária, me atormentar com o fim de eu não confessar as ideias religiosas. Devo confessar que sou atormentado noite e dia; estas linhas são escritas em baixo com tormentos. Peço respeitosamente a Vossa Excelência me mande tirar desta cela que está ‘enroscada’... Os doutores do Hospital com procedimento incorreto dizem a Vossa Excelência que eu estou ‘cozando’ das faculdades mentais a fim de prejudicar os meus ‘reitos’, venho dizer que foi ‘um espírito’ que ‘dilou-me lados linha”.
Conta-nos ainda que agrediu, por uma simples observação, a um mestre da oficina, que em 1919 matou estupidamente uma mulher porque repeliu uma proposta imoral.
A nossa observação confirma a síndrome paranoide do nosso colega.
De fato, A. pensa como lhe consente o seu caráter: é – no dizer expressivo de Franco da Rocha – através de uma lente deformada que ele vê e interpreta o mundo. Ouçamo-lo:

- Mas afinal, A. porque estás aqui? Qual foi o teu crime?
- Sr. Doutor. A sociedade mandou me prender julgando que eu a estava ofendendo em alguma coisa. Sou, desde pequeno, um perseguido desde 9 anos não sei que é família... separado dela; se apanho um dinheiro, vou para o jogo, perco; vou na venda, bebo; vou parar na Cadeia... Tenho necessidade, roubo... e a Sociedade entende, ainda por cima, que eu a estou ofendendo...
- Mas, A., então achas direito roubar?
- Mas se eu tenho fome, não hei de roubar? Depois, seu Doutor, eu roubo sempre com muita justiça: nunca deixo o outro desprevenido...
- Queres dizer que só roubas os ricos?
- Certo; não vou roubar quem não tem...

Desconfiança, ousadia, egocentrismo, delírio ambicioso, sem fixidez, tudo isso observamos aqui e são elementos que falam a favor da "síndrome paranoide". É frequente contar bravatas aos companheiros, dizer que é "doutor", que tem muito dinheiro, falar em 152 mil contos que o Dr. Jerônimo Monteiro mandou depositar no Banco de Londres em nome dele, A... Escreve versos e lê, muito "convencido" dos seus "dotes literários".  

Notas de Osório César:
1 – Projet de création d’um musée reservé aux manifestations artistiques des alienés. L’Encephale. Deuxième semestre, 1908, pag. 426.
2 – M. Réja. L’Art chez les fous, pag. 116. Ed. Mercure de France. Paris, 1917.
3 – Archivo psychiatrico do Hospital de Juquery. Anno 1926. 

sábado, 31 de janeiro de 2015

Capítulo 5 – Parte 1 – A Expressão Artística nos Alienados

Osório César inicia o capítulo com um texto com breves citações do que será apresentado.

Como os antigos consideravam a inspiração poética. Os delírios de origem celeste. “Nulium magnum ingenium, sine mixtura dementiae”. Classificação da arte nos alienados por vários autores: a classificação de M. Pailhas (d’Albi) e a de M. Réja. Poesias de um demente precoce paranoide do Hospital do Juquery. Neologismos, incoerências, salada de palavras na literatura dos “loucos” (estudo comparativo com a literatura futurista).

A inspiração poética foi considerada na Antiguidade como o efeito de uma possessão temporária do ser humano pela divindade. Platão enumerou os delírios de origem celeste, assim distribuídos: o delírio dos profetas, inspirado por Apolo; o delírio dos poetas, inspirado pelas Musas; o delírio dos bacantes, inspirados por Baco; o delírio dos amantes, inspirado por Eros. Daí a origem dessa inspiração na antiguidade, considerada como uma possessão temporária dos deuses. Os loucos e os gênios se confundiam num mesmo “furor”, num mesmo “delírio”, inspirados pelos poderes divinos, sendo igualmente respeitados e adorados. Sócrates já havia notado que os poetas “compunham por instinto, da mesma maneira que os oráculos, sem consciência daquilo que eles diziam”. E Platão: “O poeta é coisa sutil, instável e sagrada; ele jamais cantará sem a intervenção de um transporte divino, sem um doce furor”.
Aristóteles dizia que sob os acessos das congestões cerebrais “diversas pessoas tornavam-se poetas, profetas e sibilas; que Marcos de Siracusa fazia versos muito bem quando sua razão se perturbava, enquanto que era incapaz de fazê-los uma vez curado” (1).
Em Fédon, Platão diz (pag. 224) que o delírio não é bem um mal, é antes um bem, e mesmo um dos maiores, quando são os deuses que o enviam, pois foi no delírio que as profetisas de Delfos e de Dódona renderam mil serviços aos cidadãos da Grécia, ao passo que de sangue frio elas não lhes serviram senão bem pouco ou mesmo nada.
Aristóteles tinha observado que os homens ilustres – filósofos, sábios e poetas – eram “biliosos”, isto é, neuropatas, hipocondríacos, melancólicos. Para esses homens, ele dizia significativamente: “Nullum Magnum ingenium, sine mixtura dementiae”. E essa verdade de Aristóteles foi tão bem observada, que no século XVII Boerhaave escreveu também quase com os mesmos termos estas palavras: “Est aliquid delirii in omni magno ingenio”.
Até mesmo Molière, em Le Médecin malgré lui, põe na boca de um de seus personagens a sentença de Aristóteles: “C’est une chose admirable que tous les grands hommes ont toujours du capriche, quelque petit grain de folie mêlé à Science”.
“A poesia”, disse Shelley, “atua de uma maneira divina e desconhecida mais além e por cima da consciência”.
“A função poética é um gênero de processo psíquico que possui grandes analogias com os sonhos e com os outros atos psicológicos de origem subconsciente, tais como êxtase místico, visões e alucinações hipnagógicas que precedem ao sonho e ao período de fulguração imaginativa que inicia a intoxicação alcoólica ou que produz a febre” (2).
“La poésie est l’empire de l’inquietude, dit Max Jacob, vers um puissant realisme visionaire: ‘La poesie est l’enfance retrouvée... le génie n’est que l’enfance nettement formulée... je finis pour trouver sacré le désordre de mon esprit (3)”.
Assim, desde a mais remota antiguidade, o conceito de que os alienados possuíam uma sobrenatural inteligência foi admitido como uma verdade irrefutável. Mesmo entre os psiquiatras antigos, a exaltação da mentalidade nos loucos constituiu objeto de acuradas observações. Areteu da Capadócia (4), que viveu no ano 70, antes de Jesus Cristo, dá disto cabal prova nas suas descrições, cujo espírito crítico é de uma experiência digna de admiração quando se referia aos alienados. “Alguns maníacos”, diz ele, “adquirem uma facilidade e uma concentração de espírito tal, que recordações que não estão senão imperfeitas neles, se revelam imediatamente com a maior facilidade; conhecem a filosofia sem a ter apreendido e a poesia como se eles tivessem estado em comunicação com as Musas”.
No século XVIII, Van Swieten (5) recolhe a observação de uma mulher que compunha versos durante seus acessos de mania com uma admirável facilidade, se bem que ela nunca mostrasse o menor talento poético no estado de saúde.
Hoje em dia, os documentos literários e artísticos dos loucos são bem numerosos, melhores observados, reunindo repositório de estudos psiquiátricos apreciáveis.
“J’ose dire que s’il y a encore un livre curieux à faire au monde” – disse Nodier – “c’est la bibliographie des fous, et que, s’il y a encore une bibliothèque piquante, curieuse et instrutive à composer, c’est celle de leurs ouvrages”.

Notas de Osório César:

1 – De Pronost. – Citado por Lombroso – L’homme de génie, pag. 2, Felix Alcan, Paris, 1909.
2 – Lafora. Don Juan, los milagres y otros ensayos. Madrid, 1927.
3 – René Lalece. Défense de l’homme, pag. 83.  
4 – De causis et signis morborum. Trad. Renaud, liv. I, Chap. VII. Citado por Antheaume et Dromard. “Poésie et Folie”. Paris Doin, 1908, pag. 166.
5 – Citado por Antheaume et Dromard, pag. 167.