Osório César foi um dos primeiros psiquiatras brasileiros interessado em estudar a arte produzida por pacientes psiquiátricos, tendo iniciado esses estudos nos anos 1920 no Hospital do Juquery. Seu nome e seus trabalhos estão quase esquecidos. Este blog procura divulgá-los.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Capítulo 1 – Parte 8 – A expressão artística nos alienados


continuação do texto...

“O homem primitivo”, diz Worringer (1), “por sua livre atividade psíquica, cria símbolos de necessidade nas formas geométricas ou estereogeométricas. Aturdido e aterrado pela vida, procura o inanimado, o que não tem vida, porque nele vê eliminada a inquietude do futuro e afirmada a fixação perdurável. Criar arte significa para o homem primitivo iludir a vida e seus caprichos, fixar na intuição algo permanente que transcende dos fenômenos e onde fica superada a caprichosidade e a mutabilidade dos fenômenos. Parte, pois, da linha rígida, em sua essencialidade abstrata e inanimada, sentindo obscuramente seu valor próprio, inexpressivo – isto é, livre de toda representação vital – como parte de uma regularidade inorgânica superior a todo vivente. Nela encontra o homem primitivo – torturado pela caprichosidade da vida, e portanto da mutação – paz e sossego, porque ela é para ele a única expressão intuitiva do inanimado, do absoluto. Assim, o primitivo persegue as restantes possibilidades geométricas da linha, cria triângulos, quadrados, círculos, ressalta igualdades, descobre a regularidade e em suma, produz uma ornamentação que representa para ele não só o gozo do adorno e do brinquedo, senão uma tábua de valores que simbolizam a necessidade e, portanto, satisfazem as profundas aspirações de sua alma”.
O que acabamos de ver com relação à arte dos povos primitivos tem uma significação bem patente no que diz respeito à arte atual.
O homem primitivo nasceu profundamente supersticioso. Todos os fenômenos da natureza que ele observa têm uma expressão de terror manifesta na sua estreita mentalidade. Dessa maneira ele interpreta o trovão, o raio e as chuvas copiosas. Vem daí, talvez, a necessidade da criação do símbolo – origem da arte – para amenizar esse primeiro sofrer, representando já o esboço de uma filosofia elementar da vida. E essa filosofia é uma religião, como se verifica com os totens e tabus (2).

Citações do texto:
1 – La esencia del Estilo Gótico. Trad. Hesp. Pag. 29. Madrid, 1925.
2 – Tabu: palavra polinésia que tem duas significações opostas: 1) sagrado, consagrado; 2) inquietante, perigoso, impuro. Freud analisa o problema pela psicanálise, isto é, com os dados fornecidos pelo exame da parte inconsciente de nossa vida psíquica. O processo do tabu se assemelha ao processo das proibições obsessionais entre os nervosos. A proibição principal, tanto entre os nervosos como no tabu – é o delírio de tocar. – Um homem que se comunica a um tabu, torna-se tabu (pg 51). O tabu manifesta-se nas sociedades contemporâneas. A condição de “homem livre” caracteriza e dá ideia do tabu selvagem, “o tabu dos senhores” (pg.62) – vivem os senhores de certas monarquias dependentes exclusivamente de seus súditos. Hoje adorado como Deus, pode ser morto amanhã como criminoso. Mas nós não temos o direito de ver nesta mudança de atitude de um povo uma prova de inconstância ou uma contradição; bem ao contrário; o povo permanece lógico até o fim (pg. 66). O tabu é uma fórmula social de tendência sexual, que é também o traço característico da nevrose (pg. 104). S. Freud. Totem e Tabu, Payot, Paris.

...continuando o texto...

A arte de hoje tem as suas raízes extensamente ligadas na do primitivo. Cada dia ela vai caminhando para essas representações primitivas, que são simbólicas, constituídas por linhas curvas, quebradas e simétricas, produzindo uma atitude mental materializada em forma grosseira, deformação da natureza, justamente como a arte do primitivo, que traduz sentimento e uma expressão da vida mais consoladora e humana.
“Na vida intelectual do culto moderno”, diz Lafora (1), “podemos surpreender constantemente intenções e volta aos períodos primitivos da vida humana. Nos sonhos hipnóticos, no pensamento esquizoide e na criação artística, vemos analogias extraordinárias com a vida mental das civilizações primitivas e com as da evolução mental da criança”.
“Na vida mental podemos dizer que existe uma ontogenia ou evolução individual, que reproduz as fases da filogenia, ou evolução da espécie, isto é, que a evolução mental do homem desde as raças primitivas até as organizações humanas modernas, e assim como na constituição anatômica do cérebro humano encontramos regiões semelhantes às dos inferiores da série animal ,e outras regiões de estatura superior peculiares do homem, assim também nas funções mentais do cérebro, podemos supor que há regiões de onde surgem as ideias primitivas e inferiores herdadas da série animal, que originam os mecanismos mentais primordiais, e outras regiões de onde assentam as ordenadas funções conscientes e elevadas do homem progressivo moderno”.

Citação do texto:
1 – Estudio psicológico del cubismo y expressionismo, Arquivos de Neurologia, tomo III, Nº 2, pag. 121.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Capítulo 1 - Parte 7 - A expressão artística nos alienados


Continuação do texto...

Entre as crianças anormais o estudo dos desenhos tem particular significação para interpretações das psicoses de fundo sexual. São simples os desenhos dessas crianças e pouca diferença fazem dos desenhos dos escolares normais.
Fizemos o estudo das representações gráficas dos anormais do Pavilhão de Menores do Hospital do Juquery e chegamos à seguinte conclusão:
Entre 30 doentes, apenas conseguimos que 10 desenhassem, espontaneamente, sem modelo.
Esses desenhos são assim distribuídos:
1) R., de 21 anos, imbecilidade, desenhos de figuras humanas muito mal representadas (fig.12) idênticos ao de uma criança anormal de 4 anos.
2) B., 12 anos, imbecilidade, desenho sem forma bem caracterizada. Tem vaga aparência de uma representação animal (fig.13).
3) J., 14 anos, psicose epiléptica, desenho de figura humana, melhor caracterizado do que os anteriores (fig. 14). Os cinco riscos embaixo e de cada lado da figura representam dedos. Em cima da cabeça, a bola do meio representa o cabelo e os dois pequenos pontos, ao lado, piolhos.
4) V., 14 anos, psicose epiléptica, desenho regularmente acabado de uma figura humana (fig. 15). Como o anterior, este pode ser comparado ao de uma criança normal de 5 anos.
5) S., 15 anos, psicose maníaco-depressiva, desenho regular, mostrando uma figura humana vestida e uma casa com duas janelas e uma porta (fig. 16). Igualmente como o anterior, pode ser comparado a desenhos de crianças normais de 6 a 7 anos.
6) R., 12 anos, nevropata (encefalopatia infantil) desenho de um navio, mais ou menos bem feito (fig. 17). 
7) A., 15 anos, imbecilidade, nunca aprendeu a ler nem escrever. Desenho de riscos desordenados e em espirais, sem nenhuma significação pictórica (fig. 18).
8) J., 11 anos, imbecilidade, nunca aprendeu a ler nem a escrever. Desenhos de riscos esféricos e desordenados, sem significação pictórica (fig. 19).
Os dos últimos menores, também imbecis e analfabetos, fizeram rabiscos desordenados, como os anteriores.
Os 20 restantes anormais, imbecilizados em grau avançado, foram incapazes de produzir qualquer desenho por mais simples que fosse.
Os que desenharam as suas produções gráficas espontâneas, como vimos, foram formas humanas. As representações de origem vegetal (flores, frutos, etc) não verificamos em nenhum desses desenhos. Também não encontramos figuras obscenas nas garatujas desses pequenos anormais. 
É bem curiosa a semelhança que existe entre essas artes. Também não ficaria mal se colocássemos aqui a arte futurista. 
Por isso é que “nas realizações preconcebidas, nas intenções sistematizadas”, diz Porciúncula Moraes, “o novo, em arte, tem mais de três mil anos”.
“Aceitando que cada artista vê o mundo a seu modo, procurando, portanto, formas estranhas, formas originais para expressar novas sensações, é levado assim a nos dar o novo verdadeiro, o novo legítimo, o novo atualíssimo, que é o pessoal. Donde se conclui que a arte das crianças (podemos também acrescentar  –  dos primitivos e dos alienados) é nova novíssima. Como a maioria delas despreza a terceira dimensão, essa maioria se manifesta francamente futurista”.





quinta-feira, 5 de julho de 2012

Capítulo 1 – Parte 6 – A expressão artística dos alienados


Continua o texto...

A arte na criança apresenta o mesmo caráter simbólico e representativo da arte do primitivo. Ela é simples e desprovida em grande parte de fantasia.
A imaginação da criança, como a do primitivo, é realista em extremo. Os seus desenhos se limitam em arremedar a natureza com representações de cenas da vida diária.
De 3 a 7 anos os desenhos desses pequenos observadores se resumem em rabiscos com aparências de animais e na maioria com forma humana. Em grande parte são desenhos muito simples e despidos de decoração.
Após os 10 anos é que se verificam, principalmente nos meninos, desenhos de flores e frutos, bem cuidados e com esmero decorativo. Assemelham-se muito os desenhos de crianças com os das raças primitivas e com os desenhos dos alienados, principalmente os dos dementes precoces.
“Na primeira e na segunda infância”, diz Spencer (1), “verifica-se uma absorção de sensações semelhantes à que caracteriza o selvagem”.
“A criança que destrói os seus brinquedos, que fabrica figurinhas com terras, que dirige seus olhos para todas as coisas e pessoas, dá provas de muita perceptividade e de uma reflexão relativamente débil. A mesma analogia existe na tendência à imitação. As crianças repetem em seus brinquedos cenas da vida dos adultos e dos selvagens e, entre outros atos de imitação, repetem as ações de seus hóspedes civilizados.”
“O espírito da criança carece da faculdade de distinguir entre os fatos inúteis e úteis; o mesmo acontece ao selvagem”.
Mais adiante continua Spencer: “A criança de nossa raça é como o selvagem, incapaz de concentrar sua atenção em algo complexo ou abstrato. O espírito da criança, como o do selvagem, não tarda em divagar por puro esgotamento, quando tem que se ocupar de generalidades e de proposições complicadas. Tanto num como noutro, são débeis as faculdades intelectuais superiores; é claro que precisam ideias que se não compreendem senão mediante concurso dessas faculdades, e se possuem algumas são muito poucas. As crianças, como os selvagens, têm em suas línguas algumas palavras de abstração menos elevadas e não têm nenhuma das mais elevadas. Desde cedo a criança sabe muito bem o que é cachorro, gato, cavalo, boi; mas não possui nenhuma ideia do animal, independentemente da espécie; passam-se anos sem que o abstrato entre em seu vocabulário. Assim, tanto na criança como no selvagem, faltam os mesmos instrumentos de um pensamento desenvolvido”.
Nos primeiros meses de idade, o que mais impressiona a sensibilidade da criança é o barulho, são os objetos brilhantes e as cores muito vivas (o vermelho, por exemplo). É a primeira manifestação de arte que a criança experimenta. Depois de um ano, mais ou menos, é que começa a aparecer uma certa afinidade pela música e sobretudo pelo desenho. Este tem agora a sua primeira manifestação caracterizada por rabiscos, garatujas com significação simbólica, constituindo para a criança divertimento precioso encher folhas e mais folhas de papel do que lhe dita o inconsciente. Dos dois anos e meio para cima, são as representações humanas e de animais domésticos que fazem o seu grande prazer gráfico. É neste período que ela mais se assemelha aos selvagens atuais. Seu desenho é sintético; constitui apenas uma tosca caricatura dos objetos que lhe rodeiam. Depois vem o período imitativo, dos 10 anos em diante, no qual as reproduções gráficas são mais cuidadas, estilizadas e já ornamentadas com objetos do mundo vegetal (folhas, flores, etc.). As tendências artísticas nas crianças desta idade são infelizmente ainda hoje, principalmente entre nós, sacrificadas, em virtude da má orientação dessas disciplinas nas escolas. A criança não tem liberdade artística nenhuma. Limita-se a copiar servilmente a natureza, reproduzindo os modelos que os mestres lhes dão. O resultado disto é que elas sempre fazem coisas semelhantes, sem originalidade e despedidas do cunho pessoal, o que não deveria ser. O ensino do desenho precisaria ser completamente livre. Nada de modelo. A criança espontaneamente reproduziria as imagens com ela sentisse realmente, sem a preocupação de linhas, proporções e nem perspectiva. Só assim veríamos surgir a arte sã, independente e subjetiva. Isto que acabamos de dizer não constitui uma novidade. No México, o ensino do desenho nas escolas públicas segue este princípio. A figura 11 é um desenho livre de um escolar do México. Representa um Cristo crucificado. Encontram-se nele individualidade e originalidade. À primeira vista parece tratar-se de um desenho hindu, tal é a delicadeza e o rendilhado da estilização que ele representa. A figura do Cristo é muito original. A cabeça contorcida mostra somente o perfil. Os cabelos anelados caem sobre o pescoço. Braços muito longos pregados à cruz. Uma tanga, espécie de toalha bordada, prende-se à cintura. A liberdade que o pequeno artista mexicano teve para exprimir o seu sentimento de beleza foi tanta que a sua imaginação criou uma inédita figura de Cristo, tão interessante como a dos artistas da Renascença.
Victor Mercante (1*), nas suas investigações experimentais sobre os sentimentos estéticos da criança, chegou a um resultado bem curioso. Em 280 crianças ele tirou as seguintes conclusões, que resumimos aqui:
1 – Os sentimentos estéticos nas crianças são manifestações instintivas e não produtos de análises mentais.
2 – Há um pequeno grupo de indiferentes (classificação Binet), em sua maior parte retardados.
3 – nos adolescentes (classificação Baldwin) não existem senão sentimentos estéticos inferiores.
4 – A idade e o estudo, dentro do círculo primário, são fatores que não orientam tendências estéticas elementares nem estabelecem nas variações do afeto a ordem progressiva notada no desenvolvimento das demais aptidões.
5 – O sexo, pelo contrário, inclui diferenças notáveis. O sentimento estético da mulher é flutuante e dispersivo, enquanto o do homem é fixo e reconcentrado.
6 – o significado dos gráficos indica que as cores orientam melhor a afetividade do que o tamanho e a posição.
7 – Tratando-se de matéria inerte e formas simples, parece lógico o supor-se que a simetria arrasta e centraliza os gostos. Mas esta centralização não é absoluta e os sentimentos afetivos sofrem desagregações importantes que se deve ter em conta uma classificação distributiva de alunos. A evocação é, em geral, o elemento mais poderoso na orientação dos afetos.
8 – No tocante a tamanhos, as crianças preferem o pequeno ao grande, sem que a instrução e nem a idade determinem um princípio de variabilidade nos juízes.
9 – No tocante às cores, os homens preferem o verde e as mulheres o vermelho. O amarelo apresenta uma percentagem de gostos mais acentuados nas mulheres do que nos homens.
As conclusões de Mercante estão bem observadas.
Também Reja (1**) estudando a evolução do desenho na criança, observou que ela apresenta três fases distintas:
A primeira fase se limita a garatujas informes, a confusões e linhas, onde a criança acredita ver os elementos do objeto que deseja representar; a segunda fase, que constitui o estilo pueril propriamente dito, se distingue por toscos esquemas, balbucios de um simbolismo incipiente; a terceira fase de transição para um novo período mental, onde se inicia uma nova direção: a da cópia realista da natureza.
“Existe nas crianças (2) uma certa lei natural, um ‘canon’ podemos dizer, quanto à representação das formas mais comuns. Em milhares delas, as interpretações coincidem num mesmo sistema de estilização. A figura humana, por exemplo, envolvendo da síntese dos palitos é assim representada: a cabeça por um círculo, o tronco por uma elipse, dois palitos para as pernas, com extremidades quadradas representando os pés, ordinariamente em sentidos opostos, dois para os braços com ramificações nos extremos para os dedos, isso em número indeterminado... à vontade do artista... Alguns, observando mais a anatomia, partem as pernas e os braços, atendendo às principais articulações. Outros, cogitando de detalhes, juntam dois pequenos círculos ou simplesmente pontos para os olhos, um traço vertical para o nariz e um horizontal para a boca. Ainda outros cogitam das orelhas, dos cabelos e dos dentes, dependendo essas diferenciações da idade, do adiantamento e principalmente da tendência artística seguida... Quando executam composição onde haja superposição de planos, não admitem corpos opacos. Absolutamente. Numa figura de chapéu, a cabeça deve ser vista em transparência: é lei inflexível”.   

No rodapé constam:
1 – Los dados de la Sociologia. Trad. Hesp. Tomo I. pág. 137.
1* - Sentimientos estéticos del Nino. Arquivos de Psiquiatria y Criminologia. Ano V, janeiro-fevereiro, 1906. Buenos Aires.
1** - Reja – L’Art dês fous – cit. Por Nombela – Arquivos de Psiquiatria y Criminologia. Maio – Junho de 1909, pág.311.
2 – Porciúncula Moraes – O ‘canon’ universal das crianças e a sua tendência futurista. “O Jornal”, Maio, 1928.

Comentários sobre o texto:
Ao mesmo tempo em que o autor repete tendência da época na interpretação entre aspectos cognitivos e psíquicos em diferenças entre masculino e feminino, conforme já notamos anteriormente, ele aponta para fatores limitantes da criatividade no ensino de então e cogita a respeito de outras possíveis formas pedagógicas que pudessem ser mais estimuladoras da arte espontânea.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Capítulo 1 - parte 5 - A expressão artística dos alienados


...continuando o texto...

Na caverna de Isturitz, Passemard (2) encontrou dois fragmentos de chifre de rena com inscrições decorativas provenientes do período Magdaleniano. São desenhos de linhas onduladas, profundas e em número de quatro. (O desenho é original e de uma simplicidade ingênua. Passemard julga tratar-se de uma expressão puramente decorativa e obra de um artista livre, esperto e inventivo).
A sua música (3) era composta de sons agudos e graves, sem melodia, estridentes, que se assemelhava ao guincho de certos animais. “L’art préhistorique – diz Lalo (4) – si remarquable par son exactitude realiste lorsqu’il s’agit de representer des animaux, est gauche, incomplet, mauvais observateur et comme paralysé lorsqu’il s’agit de representer des hommes: au point qu’on a cru devoir interpreter la plupart des types humains des cavernes, ou comme des caricatures, ou comme des représentations de sorciers déguisés em bêtes. Même disproportion chez les Japonais: ils pratiquent um dessin et um coloré merveilleusement riches, souples, scrupuleusement fidèles à l’égard des animaux et des végéteux; ils sont au contraire relativement pauvres d’invention et même d’observation à l’égard des hommes: anatomies embryonnaires, gestes forces et laides physionomies des masques aux rictus stéréotypés, visages conventionnels, aux traits semblables jusqu’à l’identité: il y a um contraste frappant entre cette aptitude prodigieuse à observer directement la nature, et cette sorte de repugnance où ce manque d’intéret relatif pour l’êtude directe de l’humanité”.
Esse esboço de arte do primitivo encontramos identificado tanto nos idiotas e nos imbecis como nos selvagens atuais e nas crianças de 4 a 6 anos, como já vimos as representações gráficas. Esta é uma das razões pelas quais pensamos que uma só mentalidade dirige essas diversas manifestações artísticas. Assim, a criança de 4 a 6 anos que rabisca numa parede uma figura tosca de animal; o idiota ou o imbecil que traça no chão, desordenadamente, com um palito de fósforo, uma figura de homem; o selvagem atual que pinta a sua pele com cores vivas, possuem todos uma só mentalidade artística, uma estética simbólica do primitivo. 

No rodapé constam as referências:
2 – E. Passemard – Dessins sinueux sur bois de renne de la caverne d’Isturitz, Basset-Pyrénées. Bulletin de la societé Préhistorique Française. T.XXII n.3 Mars, 1925, pags. 135-136.
3 – A música sempre existiu, em toda parte, antes de toda cultura propriamente dita e mesmo entre os animais (O. Spengler – A decadência do Ocidente, 2 vol. Pag.24, trad. Esp.)
4 – L’Art et la religion. Revue Philosophique, N. 9-10, pag.279, Paris 1919. 

sábado, 2 de junho de 2012


Capítulo 1 – Parte 4 – A Expressão Artística dos Alienados

Assim prossegue o texto de Osório Cesar:

As produções estéticas dos alienados, como vamos ver mais adiante, apresentam em parte concepções originais, harmoniosas e agradáveis; em parte, porém essas produções são grosseiras, falhas, incoerentes e revelam feitio acentuadamente primitivo. 
Baseados, pois, na falta de homogeneidade das produções artísticas dos alienados, somos forçados, para melhor orientação deste estudo, a traçar aqui um quadro comparativo dessas produções. Dividiremos esse quadro em quatro grupos, seguindo ordem cronológica, de acordo com a evolução das artes, e colocaremos em cada um deles, seriadamente, os seus diversos ramos.

QUADRO DA CLASSIFICAÇÃO DAS ARTES NOS ALIENADOS
                               (ESTUDO COMPARATIVO)
1º GRUPO: ARTE DO PRIMITIVO: DESENHO; MÚSICA.
2º GRUPO: ARTE PRIMITIVA: DESENHO; ESCULTURA; DECORAÇÃO; POESIA; MÚSICA; DANÇA.
3º GRUPO: ARTE CLÁSSICA: DESENHO; PINTURA; ESCULTURA; DECORAÇÃO; POESIA; MÚSICA; DANÇA.
4º GRUPO: ARTE DE VANGUARDA: DESENHO; PINTURA; ESCULTURA; DECORAÇÃO; POESIA; MÚSICA; DANÇA. 

Devemos assinalar que, hoje em dia, o termo “arte primitiva” tem sido rejeitado por ser considerado pejorativo e eurocêntrico. Têm sido usados os termos “arte tribal”, ou “arte etnográfica”, ou “arte nativa”, e outros similares.

As manifestações artísticas dos alienados que classificamos no primeiro grupo, constam de desenhos rudimentares, de caráter simbólico (figura 1), cuja semelhança apresentada com os desenhos pré-históricos (figuras 2 a 4), com desenhos de povos primitivos (figuras 5 a 7) e com os desenhos de crianças de 4 a 9 anos (figuras 8 a 10) é positivamente notável. 



Continuando o texto do primeiro capítulo:

A composição desses desenhos lembra a infância da humanidade, época indeterminada, em que o homem se abrigava em cavernas, cobria-se com peles de animais bravios e cujos utensílios eram fabricados com pedras duras como o sílex e com pedras ígneas, dando-lhes conforto e prazer à sua atribulada existência. 
Nesse remoto período o homem era pescador, caçador, e desconhecia a agricultura.
A sua arte decorativa (1) era constituída por ideogramas e por representações de animais desenhados toscamente com fragmentos de ossos e pedras nas paredes e nos tetos das cavernas.

No item de número (1) consta o seguinte texto no rodapé:
A origem da arte é tão antiga como antiga é a origem da humanidade.
A arte nasceu com o primeiro homem. A mais remota manifestação  de arte que se conhece pertence à idade da pedra. Dessa época são dignos de admiração os desenhos de animais gravados em ossos e em pedras os quais, segundo os autores, apresentam quiçá, maior antiguidade que as estátuas egípcias. Cada povo tem sua predileção ornamental. Assim, Lubbock (Les origines de la Civilization, pg 36, trad. franç. 1873, Paris) diz que encontramos frequentemente bons desenhos de animais, datando da idade da pedra e que esses desenhos desaparecem quase inteiramente no período da idade da pedra polida, durante a idade do bronze, e que durante essas duas últimas épocas a ornamentação consiste unicamente em diferentes combinações de linhas direitas e curvas e em desenhos geométricos. E é nessa desigualdade de épocas que Lubbock acredita na existência de uma diferença de raça na população da Europa ocidental. Em favor da opinião de Lubbock estão os Esquimós, bons desenhadores, enquanto os Polinésios, gente muito mais adiantada em outros pontos de vista, muito engenhosa nos enfeites e na ornamentação de suas armas, no entretanto, são incapazes de desenhar figuras de animais e de plantas.
Grosse (Les débuts de L'Art. Felix Alcan, 1902) considera a arte dos primitivos como um fenômeno e uma função social. 

sábado, 5 de maio de 2012

Capítulo 1 – Parte 3 – A Expressão Artística dos Alienados


A arte nos alienados tem sido objeto de apurados estudos por parte de alguns psiquiatras. Assim, entre os inúmeros trabalhos aparecidos de 1876 até hoje, podemos citar os seguintes (3):

Nesta referência número 3 está escrito no rodapé:
“No fim deste trabalho, na parte referente à bibliografia, daremos uma lista desenvolvida dos autores e das obras aparecidas até hoje, concernentes ao assunto”.

Continuando o texto:

Simon (4) em 1876 publicou uma curiosa análise de desenhos, pretendendo especificá-los em cada caso para chegar como meio, a um diagnóstico certo de moléstias mentais.
Lombroso (5) em 1889 reuniu as produções artísticas de 107 doentes que começaram a pintar ou esculpir depois da moléstia. Ele foi o primeiro observador que chamou a atenção para a semelhança da arte de alguns alienados com a arte primitiva e considerou, genuinamente, as obras artísticas desses alienados como uma espécie de atavismo à infância da humanidade. Lombroso observou que há doentes que mostram capacidades originais de inovação: esta originalidade, diz ele, chega às vezes à singularidade, à rareza, a qual é todavia explicável logicamente quando se aprofundam nas ideias dos doentes e se compreendem a liberdade e a largueza com que se move a sua fantasia.

Nas referências de números 4 e 5 há as citações de rodapé:
4 – L’imagination dans la folie. Étude sur lês dessins, plans, description et costumes dês alienées. Ann. med. Psychologiques, 1876.
5 – Sull’arte nei pazzi. Arch. Di Psichiatria e scienze legale, 1880.

Morselli (1) em 1894 também se preocupou com os desenhos dos alienados.
Em Portugal, Julio Dantas (2) publicou em 1900 uma interessante monografia sobre as produções artísticas do Hospício de Rilhafolles.
Rogues de Fursac (3) em 1905 reuniu em volume algumas produções artísticas de vários alienados.

Nas referências de números 1, 2 e 3 há as citações de rodapé:
(observação: o autor reiniciava a numeração das notas de rodapé a cada página)
1 – Manuale di semiotica delle malattie mentale. Milano, 1894.
2 – Pintores e Poetas de Rilhafolles. 1900. Lisboa.
3 – Les écrits et les dessins dans les maladies nerveuses et mentales, Paris, 1905.

Dos muitos trabalhos aparecidos ultimamente, mencionaremos ainda os seguintes: H. Prinzhorn, “Das bildnerische Schaffen der Geisteskranken”, publicado no Zeitschrift f. d. ges. Neurologie und Psychiatrie, Berlin, 1919. “Bildnerei der Geisteskranken”, do mesmo autor, obra notável, rica em observação, constituindo um grosso volume de 361 páginas, com muitas reproduções de desenhos em cores, pelo que representa o trabalho mais completo, neste gênero, destes últimos tempos. “Bildnerei der Gefangenen”, também do mesmo autor, trabalho recente, publicado em 1926. “Ein Geisteskranker als Kunstler”, de Morgenthaler, obra saída em 1921, na Alemanha, onde se encontra já a aplicação da psicanálise na interpretação dos trabalhos artísticos de um esquizofrênico. “L’art et la Folie” de Vinchon, publicado pela livraria Stoch, de Paris, em 1925. 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Capítulo 1 – Parte 2 – A Expressão Artística dos Alienados

O insano também não é um ser desafeiçoado e sem iniciativa pelas coisas de arte. Do mesmo modo que no indivíduo normal, a imagem, o pensamento formado no cérebro do alienado cria, em determinados casos, uma atitude estética bem curiosa.
Os poetas, os desenhistas, os escultores, etc., são artistas que frequentemente deparamos nos manicômios. E a nossa admiração se extasia quando encontramos com qualquer das produções desses artistas insanos e nelas vemos estilizadas, segundo a psique de cada um, concepções filosóficas, literárias ou plásticas, de uma ideação algumas vezes surpreendente.
Esses grandes artistas, na grande maioria, são todos homens.
Nas mulheres alienadas as produções artísticas (literatura, desenho, pintura, escultura e música), pelo menos nos nossos hospícios são escassas. Temos observado, no Hospital do Juquery, que entre as mulheres internadas, somente um pequeno grupo das mais calmas, essas produções de arte se resumem em objetos manuais, como sejam cestas de palha, crochet, bordados, etc., e raramente trabalhos decorativos, como flores de papel e cestas com flores fabricadas de massa de pão. (1)

Na observação de número (1) o autor escreve no rodapé:

Exceção feita de uma demente precoce do Hospital do Juquery, antiga internada, pintora paisagista, de que mais adiante falaremos.

Continuando o texto:

Não parecem ser frequentes nessas doentes, trabalhos literários, esculturas, pinturas murais, etc., por mais insignificantes que sejam.
“Se voltarmos as vistas para os tempos primitivos, [diz Havelock Ellis] (2), podemos estar perfeitamente seguros de que os desenhos toscos de homens, animais e de objetos naturais que se encontram nos instrumentos primitivos e nas rocas, são trabalhos de homens. Hoje em dia o impulso para desenhar, pintar e trabalhar – o impulso artístico em sua forma mais primitiva, - é muito mais acentuado nos meninos e homens do que nas meninas e mulheres. Nos colégios e nas prisões, esta diferença é decisiva. Por isto pode-se dizer que as mulheres são menos imaginativas do que os homens”.

No item de número (2) o autor escreve no rodapé:

Estudios de Psicologia sexual, vol. 1, trad. Hesp. Madrid, 1913.

Continuando o texto:

“A mulher alienada, [observa Toulouse], tem absoluta falta de invenção no conceito das ideias delirantes; não demonstra nada da riqueza de extravagância manifestada pelos homens. As características de grandeza que afetam tão amiúde os homens são raras nas mulheres, e então são visualmente de um caráter débil e vulgar, limitando-se em sua maior parte à região do tocado, ou a uma herança secreta suposta”.

Comentário sobre o texto:
Observa-se algo próprio desse período no que concerne à então suposta diferença entre homem e mulher em relação a pendores artísticos. Como esses estudiosos são citados por Osório César sem crítica aos mesmos, é provável que ele concordasse com essas visões.
É bastante interessante assinalarmos que entre 1 e 2 anos após a publicação desse livro, Osório César passou a viver com Tarsila do Amaral, com a qual viajou à União Soviética.
Podemos nos perguntar como ficaram esses conceitos a partir da estreita convivência com artista tão singular como Tarsila. Por outro lado, provavelmente conhecedora do livro de Osório, o que Tarsila teria pensado desses conceitos...