Osório César foi um dos primeiros psiquiatras brasileiros interessado em estudar a arte produzida por pacientes psiquiátricos, tendo iniciado esses estudos nos anos 1920 no Hospital do Juquery. Seu nome e seus trabalhos estão quase esquecidos. Este blog procura divulgá-los.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Capítulo 5 – Parte 2 – A Expressão Artística nos Alienados

...continuação do texto...

Vários autores têm classificado a arte dos alienados em diversos grupos diferentes, segundo o estado mental de cada um.
M. Pailhas (d’Albi) (1), tratando das artes nos alienados, distinguiu 5 modalidades diferentes, que classificou da seguinte maneira:

1) – Dos degenerados com mentalidade débil e geralmente mais pervertida do que delirante. Entre eles, encontram-se as tatuagens, as pinturas sobre os muros, etc., cuja composição, ordinariamente muito vulgar, frequentemente obscura, se limita a traduzir tendências desregradas, orgulho, erotismo, misticismo, etc..
2) – Dos loucos circulares no período de exaltação. Alguns desses doentes, dotados de educação geral e de certas aptidões artísticas anteriores, algumas vezes fazem obras extraordinárias e especialmente originais quanto ao sentido e à forma.
3) – Dos maníacos, entre os quais a veia artística se mostra submissa aos processos intermitentes, qualquer que seja a aparente continuidade do delírio. Mais do que no outro caso, a composição traz aqui a impressão desse delírio. Frequentemente, a originalidade das concepções e a habilidade da execução permitem excluir a demência, pelo menos nos graus avançados.
4) – Das demências constituídas. Aqui se acusa manifestamente uma volta para a arte infantil, para as estereotipias, as composições deformadas, incoerentes e hieroglíficas. Isto se verifica por acaso e desde que o doente seja um profissional ou um prático da arte, produzindo obras de algum valor, graças ao exercício automático das aptidões antigas.
5) – Das demências precoces e paralíticas, nos períodos de exaltação iniciais.

Réja (2) classifica, assim, em três grupos as obras de arte dos loucos que nunca produziram antes da moléstia:

  1) Obras que denunciam uma desagregação mental, caracterizada por um automatismo quase puro.
  2)  Obras onde se encontra contida uma emoção ou uma ideia.
  3)   Obras onde se encontra contida uma emoção ou uma ideia com um cuidado de análise literária.

No primeiro grupo estão as obras que os doentes compõem e que são simplesmente reminiscências e coisas lidas e ouvidas antigamente de outros autores e retidas na memória, reveladas agora, desordenadamente, em verso ou em prosa, apresentando estilo extravagante, em certos casos originais, acompanhadas, às vezes, de conceitos pessoais.
Como exemplo dos escritos desse grupo vamos ver, mais adiante, os versos de um demente precoce paranoide, criminoso, compostos durante a sua estada na Penitenciária.
Em primeiro lugar contemos a história de sua doença:

  A. (3), 35 anos, brasileiro, pardo, internado na Penitenciária em 28 de Março de 1922 por homicídio, condenado a 15 anos. Na observação feita pelo Dr. José de Moraes Mello, durante o tempo que o doente esteve na Penitenciária, consta o seguinte:
Exame somático: Bem posto no uniforme, arrogante, inquiridor, sem gestos. Assimetria craniana. Sensibilidade, marcha e movimentos normais. Reflexos normais. Não há disartrias.
Filho de pais lavradores, analfabetos e alcoólatras. A. nasceu nos sertões da Paraíba do Norte, Lagoa Grande, aos 15 de Agosto de 1890.
Anamnese: Frequentou durante 3 anos escola primária, mal viveu com os seus até os dezoito anos, e nessa idade abandonou-os, fugindo para Pernambuco, onde, em 1915, angariaram-no para a Marinha de Guerra; foi, diz ele (o Estado Maior da Armada infirma a alegação), Marinheiro Nacional e praça do Regimento de Fuzileiros Navais até 1918, quando teve baixa. Transferiu-se então para São Paulo, Presidente Alves, onde, como trabalhador braçal, viveu até ser preso aos 14 de Setembro de 1919, por homicídio. Processado, foi condenado a quinze anos de prisão, entrando na Penitenciária aos 28 de Março de 1922.
Como antecedentes mórbidos acusa sarampo, gripe e gonorreia. Era alcoólatra e fumante.
Exame psíquico: Cultura rudimentar que o evolver da vida enriqueceu de conhecimentos e coisas várias, uns e outros mal compreendidos e deturpados; a ideação, que um narcisismo moral e intelectual condiciona, é de uma riqueza de belquior, feita de recordações fragmentadas, mal sabidas e truncadas, ditas com ênfase tola e gesticulação imprópria, e escritas em grafia horrível, sob incansável e irreprimível impulsão; a orientação, no tempo e no espaço, é perfeita e a memória boa e pronta, embora fornida de uma provisão mal adquirida de lembranças, recordações que ele aproveita, quer em prosa cheia de impropriedades e de impenetráveis sentenças, quer versejando a seu modo, mas conservando, através de todos os tropeços e tolices, a cadência dos cânticos populares”.

Termina o Dr. Moraes Mello diagnosticando esse caso como o de uma síndrome paranoide.

No Hospital do Juquery o doente foi examinado durante alguns meses pelo Dr. Mário de Gouvêa, cuja observação psiquiátrica passamos a relatar:

Removido A. da Penitenciária, porque o doutor clínico daquele presídio encontrou na dedução diagnóstica uma síndrome paranoide. Chegou a essa conclusão porque viu no quadro mórbido um delírio persecutório, o raciocínio repousado em bases falsas, a egolatria, um temperamento violento e a inadaptação ao regime da Casa. Documentando a sua bem cuidada observação aparecem versos assinados pelo doente, porém, evidentemente, muitos não são mais que reminiscências de leituras antigas; uma cópia de uma carta que o nosso observando endereçou ao Dr. Pisa dá ideia mais exata do estado mental que justificou o pedido de remoção. Aí está patente um delírio que não é fixo e repousa sobre ilusões e alucinações, que ele descreve sem rebuços: “desejava falar pessoalmente com Vossa Excelência porque é certo que sonhei com coisas importantes para a ordem pública: descobri os processos de uma revolução em vista para ser posta em prática. Fui traído pela turma de bandidos lá do Hospital. Outros vêm pelo subterrâneo, que tem por baixo da Penitenciária, me atormentar com o fim de eu não confessar as ideias religiosas. Devo confessar que sou atormentado noite e dia; estas linhas são escritas em baixo com tormentos. Peço respeitosamente a Vossa Excelência me mande tirar desta cela que está ‘enroscada’... Os doutores do Hospital com procedimento incorreto dizem a Vossa Excelência que eu estou ‘cozando’ das faculdades mentais a fim de prejudicar os meus ‘reitos’, venho dizer que foi ‘um espírito’ que ‘dilou-me lados linha”.
Conta-nos ainda que agrediu, por uma simples observação, a um mestre da oficina, que em 1919 matou estupidamente uma mulher porque repeliu uma proposta imoral.
A nossa observação confirma a síndrome paranoide do nosso colega.
De fato, A. pensa como lhe consente o seu caráter: é – no dizer expressivo de Franco da Rocha – através de uma lente deformada que ele vê e interpreta o mundo. Ouçamo-lo:

- Mas afinal, A. porque estás aqui? Qual foi o teu crime?
- Sr. Doutor. A sociedade mandou me prender julgando que eu a estava ofendendo em alguma coisa. Sou, desde pequeno, um perseguido desde 9 anos não sei que é família... separado dela; se apanho um dinheiro, vou para o jogo, perco; vou na venda, bebo; vou parar na Cadeia... Tenho necessidade, roubo... e a Sociedade entende, ainda por cima, que eu a estou ofendendo...
- Mas, A., então achas direito roubar?
- Mas se eu tenho fome, não hei de roubar? Depois, seu Doutor, eu roubo sempre com muita justiça: nunca deixo o outro desprevenido...
- Queres dizer que só roubas os ricos?
- Certo; não vou roubar quem não tem...

Desconfiança, ousadia, egocentrismo, delírio ambicioso, sem fixidez, tudo isso observamos aqui e são elementos que falam a favor da "síndrome paranoide". É frequente contar bravatas aos companheiros, dizer que é "doutor", que tem muito dinheiro, falar em 152 mil contos que o Dr. Jerônimo Monteiro mandou depositar no Banco de Londres em nome dele, A... Escreve versos e lê, muito "convencido" dos seus "dotes literários".  

Notas de Osório César:
1 – Projet de création d’um musée reservé aux manifestations artistiques des alienés. L’Encephale. Deuxième semestre, 1908, pag. 426.
2 – M. Réja. L’Art chez les fous, pag. 116. Ed. Mercure de France. Paris, 1917.
3 – Archivo psychiatrico do Hospital de Juquery. Anno 1926. 

sábado, 31 de janeiro de 2015

Capítulo 5 – Parte 1 – A Expressão Artística nos Alienados

Osório César inicia o capítulo com um texto com breves citações do que será apresentado.

Como os antigos consideravam a inspiração poética. Os delírios de origem celeste. “Nulium magnum ingenium, sine mixtura dementiae”. Classificação da arte nos alienados por vários autores: a classificação de M. Pailhas (d’Albi) e a de M. Réja. Poesias de um demente precoce paranoide do Hospital do Juquery. Neologismos, incoerências, salada de palavras na literatura dos “loucos” (estudo comparativo com a literatura futurista).

A inspiração poética foi considerada na Antiguidade como o efeito de uma possessão temporária do ser humano pela divindade. Platão enumerou os delírios de origem celeste, assim distribuídos: o delírio dos profetas, inspirado por Apolo; o delírio dos poetas, inspirado pelas Musas; o delírio dos bacantes, inspirados por Baco; o delírio dos amantes, inspirado por Eros. Daí a origem dessa inspiração na antiguidade, considerada como uma possessão temporária dos deuses. Os loucos e os gênios se confundiam num mesmo “furor”, num mesmo “delírio”, inspirados pelos poderes divinos, sendo igualmente respeitados e adorados. Sócrates já havia notado que os poetas “compunham por instinto, da mesma maneira que os oráculos, sem consciência daquilo que eles diziam”. E Platão: “O poeta é coisa sutil, instável e sagrada; ele jamais cantará sem a intervenção de um transporte divino, sem um doce furor”.
Aristóteles dizia que sob os acessos das congestões cerebrais “diversas pessoas tornavam-se poetas, profetas e sibilas; que Marcos de Siracusa fazia versos muito bem quando sua razão se perturbava, enquanto que era incapaz de fazê-los uma vez curado” (1).
Em Fédon, Platão diz (pag. 224) que o delírio não é bem um mal, é antes um bem, e mesmo um dos maiores, quando são os deuses que o enviam, pois foi no delírio que as profetisas de Delfos e de Dódona renderam mil serviços aos cidadãos da Grécia, ao passo que de sangue frio elas não lhes serviram senão bem pouco ou mesmo nada.
Aristóteles tinha observado que os homens ilustres – filósofos, sábios e poetas – eram “biliosos”, isto é, neuropatas, hipocondríacos, melancólicos. Para esses homens, ele dizia significativamente: “Nullum Magnum ingenium, sine mixtura dementiae”. E essa verdade de Aristóteles foi tão bem observada, que no século XVII Boerhaave escreveu também quase com os mesmos termos estas palavras: “Est aliquid delirii in omni magno ingenio”.
Até mesmo Molière, em Le Médecin malgré lui, põe na boca de um de seus personagens a sentença de Aristóteles: “C’est une chose admirable que tous les grands hommes ont toujours du capriche, quelque petit grain de folie mêlé à Science”.
“A poesia”, disse Shelley, “atua de uma maneira divina e desconhecida mais além e por cima da consciência”.
“A função poética é um gênero de processo psíquico que possui grandes analogias com os sonhos e com os outros atos psicológicos de origem subconsciente, tais como êxtase místico, visões e alucinações hipnagógicas que precedem ao sonho e ao período de fulguração imaginativa que inicia a intoxicação alcoólica ou que produz a febre” (2).
“La poésie est l’empire de l’inquietude, dit Max Jacob, vers um puissant realisme visionaire: ‘La poesie est l’enfance retrouvée... le génie n’est que l’enfance nettement formulée... je finis pour trouver sacré le désordre de mon esprit (3)”.
Assim, desde a mais remota antiguidade, o conceito de que os alienados possuíam uma sobrenatural inteligência foi admitido como uma verdade irrefutável. Mesmo entre os psiquiatras antigos, a exaltação da mentalidade nos loucos constituiu objeto de acuradas observações. Areteu da Capadócia (4), que viveu no ano 70, antes de Jesus Cristo, dá disto cabal prova nas suas descrições, cujo espírito crítico é de uma experiência digna de admiração quando se referia aos alienados. “Alguns maníacos”, diz ele, “adquirem uma facilidade e uma concentração de espírito tal, que recordações que não estão senão imperfeitas neles, se revelam imediatamente com a maior facilidade; conhecem a filosofia sem a ter apreendido e a poesia como se eles tivessem estado em comunicação com as Musas”.
No século XVIII, Van Swieten (5) recolhe a observação de uma mulher que compunha versos durante seus acessos de mania com uma admirável facilidade, se bem que ela nunca mostrasse o menor talento poético no estado de saúde.
Hoje em dia, os documentos literários e artísticos dos loucos são bem numerosos, melhores observados, reunindo repositório de estudos psiquiátricos apreciáveis.
“J’ose dire que s’il y a encore un livre curieux à faire au monde” – disse Nodier – “c’est la bibliographie des fous, et que, s’il y a encore une bibliothèque piquante, curieuse et instrutive à composer, c’est celle de leurs ouvrages”.

Notas de Osório César:

1 – De Pronost. – Citado por Lombroso – L’homme de génie, pag. 2, Felix Alcan, Paris, 1909.
2 – Lafora. Don Juan, los milagres y otros ensayos. Madrid, 1927.
3 – René Lalece. Défense de l’homme, pag. 83.  
4 – De causis et signis morborum. Trad. Renaud, liv. I, Chap. VII. Citado por Antheaume et Dromard. “Poésie et Folie”. Paris Doin, 1908, pag. 166.
5 – Citado por Antheaume et Dromard, pag. 167.  

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Capítulo 4 – Parte 5 – A expressão artística nos alienados.

...continuação do texto...
(subtítulo: História Psiquiátrica de um doente com Delírio Místico – Poemas Parabólicos com Interpretação do autor)

Essa é a história que V. conta de sua vida, desde os tempos escolares até a sua entrada neste Hospital. Muitos dos fatos relatados aí são verdadeiros, porém percebemos logo que, de vez em quando, a sua imaginação descamba em delírios místicos, fantásticos, como sejam:

“Dez dias depois, quando fui fazer uma visita ao ‘meu altar-mor’, domingo, enxerguei um coração luzente e em cima dele jazia uma cruz também luzente, entrelaçado por uma coroa de espinhos cheia de luz como a do sol, envoltas por uma chama de Fogo vivíssima, enfim próximo ao vulto luminoso nele residente”.

São ideias delirantes sobre um fundo místico erótico.
Apreciemos agora a Lenda indiana, uma das mais curiosas produções, escrita em 26 de Abril de 1925. É um poema em prosa, composto em estilo bíblico, sob forma de parábola; é um episódio real de sua vida, contado através de símbolos. Ele próprio nos dá a significação dos períodos simbólicos do poema.

Lenda Indiana

“O grêmio triunfante (1) é semelhante a um menino sedento da genialidade (2) alipotente de Arquimedes que procurava a base da lei de um mistério profundo; e tendo concebido o plano do enigma, no momento supremo e sacrossanto da Sublimidade das sublimidades, cento e vinte minutos depois do meio-dia, conquistava enfim, o seu sonho acrisolado de mil e uma noites. Decorrido o mesmíssimo tempo de harmonia da preparação gloriosa de algures em Jericó, sem estar banhado em algo dos eflúvios do terceiro Selo do profeta Daniel, recebia finalmente, no palácio da Ventura, um ente de bondade e ciência intérminas – ‘abrirei em palavras a minha boca, e publicarei coisas escondidas desde a criação’”(3).
“Os miríades e miríades de edifícios mais brilhantes do que o sol lá daquele grêmio triunfante, oh desde a hora sexta até a nona, perderam as suas brilhosidades infinitas, e, cobriram-se então do manto diáfano do Luto, chorando e gemendo noite e dia, andava um anjo, contemplando o panorama da destruição da Cidade Santa” (4).
“Trinta e nove dias depois recebia de novo o hóspede misterioso, no palácio da Ventura, - ‘Destruirei a sabedoria dos sábios, e o entendimento dos entendidos reduzirei a nada’” (5).
“Decorridos mais de dez dias depois pela terceira vez no palácio da Ventura, recebia então o Hóspede misterioso, - ‘Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim; adora-me, porém, em vão ensinando doutrinas que são preceitos de homens’” (6).
“Finalmente, no oitavo dia, pela última vez em sua amena existência, recebia no palácio da Ventura o Hóspede misterioso; - ‘Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés’” (7).
“Trinta e três dias antes da memorável descoberta arquimediana, fora então solenemente, no local onde estava genuflexo o menino, o qual, contemplava ali o Hóspede misterioso, a promessa sagrada, porém, ao lado esquerdo daquela glória alipotente, jazia também genuflexa, no aspecto solene da humanidade, ‘ad majorem Dei gloriam...’” (8).
“Sete anos depois no mesmíssimo dia memorável e sacrossanto como o Leão de Jessé, finalmente, era então assentado o primeiro plano do Pentalago de Ouro fino; e quatro dias depois a segunda misticidade arquimediana, oh onze estrelas pulcras , acolá naquele gabinete eliano, no décimo primeiro ano do século presente, no coração da trilogia branca como a neve, emula convincente e bem refratária de Sidon!!! Hosana ao filho de David! Benedito aquele que vem em nome do Senhor” (9).
“Três vezes cairão os soldados surdos e mudos (10)...! Aonde está a glória moiseana, que servira de instrumento para a receptividade do Hexlago de Ouro Fino!?! Quem tem ouvidos para ouvir, ouça a verdade. Aonde está a glória eliana, que servira de instrumento para a receptividade do Pentalago de Ouro fino!?! (11)”.
“Eu sou a incógnita sublime da lei newtoniana, ‘a pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta como a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos?’ (12)”.
“No septuagésimo oitavo dia do ano santo da graça áurea da comemoratividade solene da maior glória paraclítica, um Apóstolo irmão gêmeo do Rei da Siracusa, assentava, enfim, o primeiro plano da glória sempiterna do Desejado de todas as nações e essa égide sacrossanta é o Moisés moderno de ambos os Testamentos Evangélicos” (13).
“Vem agora pela presente missiva um eflúvio paraclítico diante da gloriosa figura galênica (14) apresentar-lhe ovante de ufania, a chave do enigma dos quatro fundamentos infinitos (15); ora, as seis letras do alfabeto (16) têm mais resplendor do que o centro do sistema planetário. Aqui está a sabedoria. Aquele que tem inteligência calcule o enigma oculto nessas páginas dedálicas”.
“O grêmio triunfante é também semelhante a um generalíssimo que buscava ótimas espadas de cabo de ouro de vinte e dois quilates (17) e tendo visto uma de grandioso valor dentro de um estabelecimento de armas bélicas (18), tendo uma lâmina fundida com aço, manganês e zircônio, foi vender tudo o que possuía e a comprou”.
“Finalmente, o grêmio triunfante é semelhante a um Diógenes (19) moderno, que procurava uma nitroglicerina colossal com aparelhos adrede preparados para a execução final, concebendo então no âmago dos olhos do entendimento essa musculatura química, assentou uma no sol, e a outra no satélite da terra; hoje, ainda está trabalhando o grandioso aparelho que divide os Tempos, porém, somente o nosso Pai que está no Reino dos Céus conhece o segundo exato da solene e amena realização”.
                      “Terceiro Pavilhão, 26 de Abril de 1925”.

Como acabamos de ver, a Lenda indiana é um amontoado de frases com caracteres simbólicos calcados num misticismo erótico que V. reproduz, rememorando acontecimentos ocorridos durante a sua vida escolar. Todos os seus trabalhos literários são assim desse feitio. Há, neles, porém, algumas vezes, períodos interessantes criados com bastante originalidade.
Para terminarmos, escutemos dele mais a seguinte poesia:

O canto do Cisne (20)

“Num lago cristalino vários Cisnes gemem
O hino da morte álgida. A coruja infrene (21)
Abrindo o bico solta o alarido atroz, tremem
Os Cisnes na solidão sem cilício perene”.

“No augúrio nunca fica em silêncio profundo,
Ninguém afugenta essa ave muito enfadonha
Da inclemência sutil no merencóreo Mundo.
O símbolo da última Dor soluça e sonha”.

“O hino da morte álgida vendo no espaço
O fundo azul sob uma forte tempestade (22)
Sente então Nostalgia e bastante cansaço...
Não desce jamais algo de melifluidade”.

“Nota altíloqua solta ainda a ave maldita
No lago cristalino sem piedade, tontos (23)
Os pobres Cisnes não tem uma hora benedita
De silêncio no Rosário de suas contas”.

“Mas um dia a trombeta (24)
Galênica soará
Lá no azul
Religioso
Do paul,
Carinhoso
Lenitivo sentirão.
Os Cisnes bastante álgidos,
E enfim, surgirá a Visão
De seus dias insípidos.
A asa da morte será
Mais suave e gentil na meta.
Jesus
Da glória (25)
De luz
História
Contará
A Galeno
No fundo Azul
No ígneo Inferno
O Rei Saul
Perdeu o trono
De Israel,
Forte Assomo
Gabriel
Galênico
Desmanchai (26)
Dedálico
Augúrio santo
Daquela triste
Ave de encanto,
Ninguém resiste
Tempestade acolá!
Caridade
Tem Jehovah
Autor
Dos teus
Do amor
De meus
Dias residente
No lugar bem quente.
Bela lição
Do coração...”

Essa poesia foi escrita em 1924, quando já havia desaparecido o período de excitação de que o doente foi acometido durante um certo tempo, como já vimos mais atrás.
Não há encadeamento lógico nessa sua inspiração; encontramos nela uma associação de ideias extravagantes. As representações simbólicas como “Cisne”, “coruja”, “Galênica”, etc., surgem do subconsciente de V. mecanicamente evocadas, provavelmente, pela contiguidade de ideias.
Também encontramos frequentemente nas produções artísticas desse doente, neologismos, símbolos e estereotipias, que apresentam certo interesse para se proceder a um estudo psicológico retrospectivo da sua vida anterior à vesânia.
“Os neologismos”, diz A. Marie (27), “assemelham-se à linguagem dos crônicos, refletindo seus simbolismos e sintetizando seus sistemas delirantes. Este último se cristaliza de certo modo em seu automatismo e em sua monótona repetição. Através de suas aparências incoerentes é, às vezes, possível deduzir de sua amálgama as grandes linhas de uma cadeia de concepções progressivas, fixadas em certo modo em seus grandes rasgos e imobilizados pelo mecanismo de detenção ideo-emocional sem mais significação, às vezes, para o mesmo demente, que esquece o seu valor mnemônico primitivo. Entretanto, se se segue o caso, podem-se encontrar, em certo modo, registradas nestas estereotipias as estratificações delirantes extintas, de que não formam mais que o córtex vazio. Como nas camadas geológicas, o sábio pode ler as fases atravessadas pelo planeta, o linguista pode encontrar o eco da evolução histórica dos que falaram, do mesmo modo, as estereotipias destes delirantes, em aparência incoerentes, refletem e conservam à sua maneira e fielmente, o traço de sua evolução sistemática”.
“Por outra parte, as estereotipias são fenômenos de evolução normal como a tendência ao simbolismo e as determinações ideo-emocionais”.   

Notas:
1 – O grêmio triunfante simboliza o reino do céu.
2 – O menino sedento de genialidade é o próprio V.
3 – Esta se refere à vida de V. ; foi no dia 12 de Fevereiro de 1904, domingo, que ele conquistou, por intermédio de Jesus Cristo, uma coroa de ouro, no segundo dente molar do maxilar superior.
4 - ?
5 – Isto significa que V. recebeu Jesus Cristo, pela segunda vez, na sede da alma; Maio de 1904. (Provavelmente quando ele refere que recebeu Jesus Cristo na alma, devemos entender isso como reminiscência de comunhões ministradas na Igreja ao doente, quando frequentou colégios religiosos).
6 – Tem o mesmo significado.
7 – Idem, idem.   
8 – Refere-se este trecho à realização da promessa da coroa de ouro.
9 – Aqui, V. relata que no dia 14 de Fevereiro de 1911 fora-lhe colocado meio pivô de ouro no seu dente incisivo; no dia 15 do mesmo mês, o 2º pivô. Por último, em 18 de Fevereiro, fora-lhe colocada a 2ª coroa de ouro.  
10 – Provavelmente, V. se refere neste trecho à Ressurreição de Jesus Cristo.
11 - ?
12 – V. explica que essa passagem se refere à trilogia celina.
13 – Este trecho é alusivo ao Cirurgião Dentista que colocou nos seus dentes as coroas de ouro.
14 – Ele se refere ao diretor do Hospital do Juquery, a quem é oferecido este poema.
15 – Os quatro fundamentos infinitos referem-se às quatro datas misteriosas: 25 de Março de 1904; 3 de Maio de 1904; 13 de Maio de 1904 e 21 de Maio de 1904. Estas datas v. não as revelou.
16 – As seis letras do alfabeto no algarismo romano (DCLXVI = 666) são alusivas ao Coronel E.L.D. (Fazendeiro residente em São José do Rio Preto) que V. chama a besta principal do Apocalipse.
17 – A espada de cabo de ouro de 22 quilates simboliza a riqueza e a glória de V.
18 – O estabelecimento de armas bélicas simboliza as escrituras santas.
19 – Diógenes simboliza o homem puro.
20 – O canto do Cisne é uma metáfora escrita por V. e dedicada ao médico alienista do 3º Pavilhão, com o fim de solicitar deste providências contra um companheiro que gritava o dia todo, perturbando  a paz dos doentes que se achavam de cama. O canto do Cisne simboliza a morte e é alusivo aos que estão passando mal na Enfermaria.
21 – A coruja infrene, etc., refere-se ao companheiro que passava o dia todo gritando no Pavilhão.
22 – Refere-se este trecho à agonia dos doentes moribundos. Quando se aproxima a morte, os doentes têm a sensação rápida e nítida de ver e passar pelos seus sentidos como se fosse uma visão caleidoscópica, os quadros e as paisagens que a natureza impressionou as suas células cerebrais anteriormente.
23 – Os pobres Cisnes, como já vimos, são os doentes; “o Rosário de suas contas...” representa os últimos dias da vida.
24 – Simboliza a justiça do médico que deverá por termo às gritarias do companheiro.
25 – O médico será interrogado por Jesus Cristo sobre o barulho da Enfermaria.
26 – Esta passagem é interpretada do seguinte modo: vós, doutor, deveis calar o canto daquela ave terrível que é a coruja, isto é, o companheiro que gritava na Enfermaria.
27 – Misticismo e Loucura, tradução espanhola, pag. 250, Madrid. 

domingo, 7 de setembro de 2014

Capítulo 4 – Parte 4 – A Expressão Artística nos Alienados

Devemos atentar para o fato de que estes textos de Osório César são do início do século XX, com as conceituações e termos psiquiátricos de então. O que assinalamos é o interesse do autor em conhecer a arte dos doentes psiquiátricos.

...continuação do texto...

Estes doentes, segundo Kraepelin, são orgulhosos, soberbos e excitados; mas, frequentemente, eles são amáveis, abertos, predispostos aos “chistes” e brincalhões, ou exageradamente eufóricos.
Vejamos um interessante diálogo que transcrevemos da observação de um parafrênico do serviço do ilustre psiquiatra Dr. Mário de Gouvêa, pertencente aos Arquivos do Hospital do Juquery:

“- Mas... ouvi dizer, J., que a inveja que tinham da tua inteligência concorreu para seres aqui internado. Será exato?”
“- É, seu doutor; eu tenho as virtudes do sol e da lua. Sou a árvore da inteligência. Quero aqui a minha família completa para ir salvar o mundo. O inferno está na terra; todos vão para lá quando morrem; o purgatório é o estômago porque o homem sofre por ele; aí estão o bem e o mal”.
“- E o céu onde está? – perguntamos nós”.
“- O céu é a natureza da mulher; ali é que estão o divertimento, a alegria e o gosto!”
“- Mas... (não te interrompendo), qual foi a doença que fez vires para aqui?”
“- Foi esta, seu doutor. Ninguém acredita nas minhas profecias. Todo o corpo do homem representa a terra: os dedos representam a multiplicação da espécie, os pelos das mãos a vegetação da terra,  os cabelos as estrelas do céu, a digestão é o mar, os intestinos o fundo, os dois olhos representam o sol e a lua, a barba e o bigode representam a ciência...”

Como vimos, o doente apresenta na sua linguagem ideias delirantes de grandeza e religiosa de mistura com ideias eróticas sob a forma de um rico simbolismo.
Os poetas parafrênicos são muito curiosos nas suas composições em metáforas e símbolos. Seus escritos são em grande parte místicos e de uma prolixidade notável.
Escutemos o poema abaixo:

“Hino ao Paráclito”
“Magnífico incriável Espírito de Deus!
Santo Refrigério da Divina Promessa
Do nosso Bondoso Jesus, que lá dos Céus,
Descera sobre os Apóstolos no Cenáculo de Jerusalém!
Maravilha mística e insondável
Opera-se naquele Santo Recinto!
Doze línguas como do Fogo, indelével,
Apareceram perante os olhos da Congregação!
Uma partícula de sua bela omnisciência
Nas almas dos presentes adrede convidados,
Ficou acrisoladamente gravada com clarividência
Tal, que houve sublime conversão sobre o povo!
Oh! Magnitude imensa do Amor!
Dignai-vos reger com vossa ígnea graça
Nossos desejos, além de termos por Espelho, nosso Salvador!
Difícil será sem o vosso auxílio haver perfeita imitação!
Oh! Nosso místico Espelho do culto Salvador,
Ensinai-nos a doutrina magnífica
Compreender com perfeito e santo amor!
Sedentos sempre somos dos arcanos da Bíblia!
Semelhante maravilha de outrora
Operando-se em nossas almas, aqui,
Neste recinto onde estamos congregados agora,
Poderemos então imitar os Apóstolos assim!”

Este doente escreve com muita facilidade e as suas poesias são todas desse teor. A sua história psiquiátrica é muito interessante.
Vejamos:

“V... (1), 24 anos, branco, solteiro, brasileiro, entrou no Hospital do Juquery em 18 de Junho de 1913.”
“Pai e mãe vivos. Tem 9 irmãos vivos e fortes; 2 irmãos já falecidos de moléstia ignorada. Tem um tio condenado por homicídio. História de sua infância: esteve durante 10 anos em colégios diversos, dos quais era expulso ou fugia. Em casa era turbulento e mentiroso. Tinha medo, via vultos, fantasmas. Sofreu uma grande queda, conservando forte cicatriz na região occipital. História da puberdade: alucinações frequentes. As primeiras práticas sexuais aos 19 anos. Onanismo e pederastia. Nunca trabalhou regularmente.”
“Conhecemos o presente doente na Casa de Saúde do Dr. Homem de Mello onde deu entrada em Julho de 1912.”
“Aqui no Hospital prestou algumas informações. Assim, refere que tem um tio condenado por homicídio, que esteve durante 10 anos em colégios diferentes, dos quais era expulso ou fugia, que sofria de terrores noturnos e de micção involuntária no leito. Dava-se ao onanismo e à pederastia e, abandonado pelo pai, passou a ter uma vida de vagabundo, tomando dinheiro emprestado dos amigos e parentes.”
“Vimo-lo em setembro de 1912. Por essa ocasião estava excitado, tinha alucinações visuais frequentes e aterradoras, auditivas (telefone) perturbações cenestésicas (eletricidade), insônia, gatismo. Quebrava os vidros, rasgava as vestes, recusava alimentos, etc.”
“Antes de dar entrada para a Casa de Saúde, andou vagando pelas ruas de São Paulo, até que uma noite, sem motivo algum, deu sinal de alarme ao Corpo de Bombeiros num dos aparelhos da cidade, sendo preso então e em seguida internado no referido estabelecimento.”
“Um mês depois do nosso primeiro exame, caiu em um período de depressão com imobilidade quase absoluta e sitiofobia, sendo necessário recorrer-se à alimentação pela sonda esofagiana. A salivação era abundante, a pele sempre fria e o emagrecimento considerável.”
“Três meses mais tarde, começou rapidamente a alimentar-se, levantou-se e pouco a pouco passou para o período de excitação, que perdura ainda.”
“Tem noção do tempo e do meio, não apresenta confusão de espírito, respondendo com precisão as perguntas. Conserva-se alegre e calmo, com outros períodos de maior excitação em que rasga roupas.”
“Há perda dos sentimentos afetivos, referindo-se ao pai e à família com a maior indiferença.”
“Sente-se bem no Hospital, não manifestando o menor desejo de sair.”
“Refere-se constantemente à aparição de fantasmas na enfermaria”.
“A pequena cultura que teve ainda conserva, tendo boas noções de história, geografia, cálculo e conhecimentos gerais.”
Atualmente este doente acha-se calmo e a sua preocupação constante se revela em compor versos e poemas em prosa ou então dirigir cartas, numa linguagem enfática, aos médicos e ao Diretor do Hospital. É um grafômano infatigável. A sua imaginação, sempre excitada, está cheia de palavras místicas. Daí observamos o gênero místico de suas produções literárias. Vê-se que a leitura de livros sagrados deixou no seu cérebro uma forte impressão, pois quase todos os personagens de seus escritos são bíblicos. E, também pela história de sua formação intelectual, relatada por ele mesmo, resulta que, em grande parte, a sua educação foi religiosa.
Assim V. descreve a sua história:

“Alfa e ômega de um labirinto.”
“Os agridoces mistérios do alfa e ômega de minha educação intelectual são verazes, e, no conteúdo deles, predomina o aforismo filosófico do nobre autor da ‘Relíquia’:”
“Sob a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia. Por mais que o cérebro, gentil e alado, penetre neles, sempre o labirinto tem o encanto de não evidenciar a entrada e a saída. Caldas, formosa cidade do sul de Minas Gerais, em teu seio pulcro, dorme o meu coração, ora, sempre ameno e grato.”
“No primeiro mês do penúltimo ano do século dezenove, principiei a beber o licor superfino dos sinais característicos do alfabeto sob o bafejo de Auta Amarante, predileta e virtuosa filha de João Pereira Elias Amarante, o proprietário do colégio particular situado à margem esquerda do caminho que vai terminar em Pocinhos do Rio Verde. Daquela localidade ao colégio do saudoso Lusitano, temos mais ou menos a distância de quatro quilômetros. Permaneci, então, ali, consecutivamente dois anos. Aquele nobre Lusitano era natural do Vila Nova de Gaia, florescente e risonha cidade ligada ao Porto por uma grandiosa e atraente ponte metálica. Mas a minha educação moral e intelectual estavam sob o patrocínio daquela bondosa Lusitana, unicamente, por um encanto sobrenatural. Dentro desse grêmio fecundante fora a semente bem desenvolvida na terra fértil e amena do meu coração.”
“Mas a procela da inveja de Caim aparecera enfim medonha e fatal. Fundaram com intuito pentapólico quatro escolas particulares durante os dois primeiros anos do século vinte, em minha terra natal, a Babilônia nefasta do livro escrito pelo apóstolo amado! Nela o autor maravilhoso dos ‘Sertões’ iniciara essa obra prima da literatura brasileira, tenho ainda presente em meu mundo subjetivo a leonina fisionomia desse vulto proeminente da história brasileira, como num espelho de cristal de raríssima perfeição reflete a imagem inteira do templo de minha alma! Em 1902, fui então internado na Escola Americana, onde permaneci durante dois anos. Em 4 de Fevereiro do ano comemorativo  da festividade áurea de minha sacratíssima Mãe, em uma bela e radiosa manhã, quinta-feira, cheguei sedento de uma tristeza jeremiada, ao seio da Neo-Sião-Pouso-Alegre...Dez dias depois, quando fui fazer uma visita ao meu ‘altar-mor’, domingo, enxerguei um coração luzente e em cima dele jazia uma pequenina cruz também luzente, entrelaçadas por uma coroa de espinhos cheia de luz como a do sol, envoltas por uma chama de Fogo vivíssimo, enfim próximo ao vulto luminoso nele residente. Recebi então ali a promessa sacratíssima de que no segundo dente molar do maxilar superior de minha face direita, naquele momento completamente perfeito, haveria de ser colocada uma coroa de ouro finíssimo, no dia comemorativo da festividade do Mensageiro Divino. Sete dias depois, assentei a primeira pedra fundamental de minha vida. Trinta e nove dias depois assentei a segunda pedra fundamental. Dez dias depois assentei a terceira pedra fundamental. E, finalmente, oito dias mais tarde a última por toda a extensão da eternidade!”
“Executei essa proeza davídica sem estar banhado em algo do terceiro selo do profeta Daniel! Nesse quatro colóquios sublimes e convincentes eu enxergava solenemente assentado num trono de Ouro finíssimo o meu Amor infinito. As suas vestes possuíam uma brilhosidade infinita sob a semelhança da cor desse minério pulcro e misterioso. Sobre a sua fonte sagrada estava uma coroa de ouro finíssimo cheia de pedras preciosas. Esse mistério saudoso imperava na sede de minha alma zaqueana. Não sei se me faltava a inteligência, sendo enfim matriculado no 2º ano primário anexo ao 1º ano ginasial. Não possuía competência, embora tivesse seis anos de estudos e perseguições.”
“Caldas era a terceira entidade incrível, e, a Escola Americana o primitivo Eden em toda a sua beleza intérmina.”
“Em 13 de Novembro do ano imediato ao da Conferência de Haia, retirei-me do 5º ano ginasial para o mundo familiar eivado das sentimentalidades de duas criaturas diante da majestade cefálica. Fiquei na casa das seis letras do alfabeto bem erótica ‘oitocentos e onze dias’. Surgira então o sol da liberdade espiritual no dia comemorativo da purificação da mais formosa e cândida filha de Abraão.”
“Vivia, docemente, em casa de um saudoso amigo, ex-secretário interino do Tribunal de Justiça. Alma cândida e nobre possuía esse meu saudoso amigo, banhado em algo dos eflúvios daquele patriarca cheio de paciência evangélica. Mas um dia a política do chefe do partido republicano paulista de minha terra natal, concebeu a ideia fúnebre de mandar algures aconselhar-me por um beijo de Judas, a minha internação na ‘Casa de Saúde do Dr. Homem de Mello’. Lá permaneci trezentos e vinte três dias, ininterruptamente. Depois então, para maior segurança pueril, esse êmulo de Judas um dia enfim arranjará um lugar no Palácio da Desventura, situado no quilômetro cento e onze da São Paulo Railway (2).”
“Ele é mais ameno do que o seio pulcro como o marfim da linhagem nefasta. Como um relâmpago, caíra na inércia, três horas depois que o meu Amor infinito assentara solenemente, pela primeira vez o seu Trono de Ouro finíssimo, aqui, na sede do meu coração ovante de ufania como o daquele vulto na mística harmonia outrora! Semelhante cena acontecera com a moderna Laís, progenitora daquele chefe político supra mencionado, e de seu corpo brotam miríades de vermes... Nessa hora solene e alada fui transportado misteriosamente para o ambiente da capela, onde eu recebi o excelso filho de David, no altar-mor de meu coração. Dalí enxergava com os olhos do Entendimento a fúnebre messalina da inércia.”
“O esposo dela ficara subitamente paralítico dos braços e das pernas no mesmo segundo! A sogra deles muitos anos antes ficara também paralítica. O sogro delas fora gravemente ferido na perna esquerda num engenho de serra vertical, perdendo-a completamente, no último ano do século dezenove. Com esses dois exemplos mesmo ainda assim os pais desse chefe político seguiam sempre o caminho de Caim... Surgindo a luz messiânica em minha alma, via então um motivo plausível de abandonar os bancos escolares, unicamente para não prestar exame de mecânica e astronomia, em virtude da lembrança de Isaac Newton, o assombro do Universo, e, fanal de meus dias pretéritos e vindouros...”
“O alfa da honra de Deus”
“Oh suave alfa da honra do Espírito
De Deus, meu sol aqui nesse orbe transitório,
Sem vacilação nunca ouvirei outro grito
Surgir dentro de minha alma! Não é ilusório.
O mistério da casa de David! A divina
Promessa fora feita sobre o monte Maria
A respeito da sua perfeição crastina
Com revelação solene e bem perfunctória!
Não somente lá como a Elias, a primeira
Entidade da antiga aliança, nas duas
Nuvens místicas saídas do mal. Herdeira.
De minha alma paupérrima, a minha Mãe Santa
Também sempre há de ser aonde tu flutuas,
Graças bem convincentes, como o orvalho a planta!”

Notas de rodapé:
1 – Arquivos Psiquiátricos do Hospital do Juquery.
2 – refere-se ao Hospital do Juquery.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Capítulo 4 – Parte 3 – A Expressão Artística nos Alienados


...continuação do texto...

História Psiquiátrica de um Doente com Delírio Místico

Vejamos um curioso relato escrito por um outro parafrênico, com o fim de ser publicado em todos os jornais do mundo, acerca dos acontecimentos de sua vida.

                                 “Prova – nova”.
“Sua Exa. Revma. D. Duarte Leopoldo e Silva. Mto. Digo. Arcebispo da Diocese de S. Paulo anunciará ao mundo a boa nova”.
“C.V.R. filho de pais espanhóis; católicos: apostólicos romanos. Obedientíssimo a todas decisões dos papas ou sumos pontífices de Roma, em matéria de religião. Casou-se em Santos no ano 1904. Para casar, antes do ato matrimonial, confessou C., e C. .,; suas culpas e pecados. Ligado o C., a sua esposa, com ataduras que só o céu pode desatar; roga ao Céu: que lhe desse fruto de salvação”.
“Teve 4 filhos com vida este casal. Recebendo todos o Santo batismo da Igreja Católica em Santos e em S. Paulo. C., pouco tempo depois de casado, entrou num estado de vida profana: sumamente pecaminoso”.
“Os seus empregos não davam tempo para assistir a atos religiosos da Igreja Católica. Apenas batizou filhos. Em sua casa, sempre rezou. Porém, pecou? Vida sumamente suja e imunda. Aparentemente, caráter de Santo ou Sepulcro esbranqueado. Interiormente, C. era um poço de malícia infernal. O C. caminhou em sua perversidade; pouco tempo depois de seu casamento! Ano 1904: até Outubro de 1915. C., por causa de suas iniquidades; foi açoitadíssimo pelo Céu: pelo inferno e pela morte. C., a vista dos sofrimentos, padecimentos e perseguições; teve sempre uma coragem de Leão. Mas sua esposa enferma, dobrou e humilhou o grande pecador C. E em Outubro de 1915, agradou ao Céu a sua Conversão. Como se deu a conversão de C.? Ato sumamente maravilhoso e Celeste”.
“Viajava C., em pé, na plataforma do Bonde da Penha; em demanda do bem amado. E o carteiro C., em dado momento, ficou sozinho na plataforma”.
“O condutor do Bonde achava-se ocupado em seu trabalho. O C., em voz bem inteligível, ouviu as seguintes palavras. Homem, volta-te para Deus! ; que só Deus te pode salvar!! O C. ia no bonde a procura de remédio para sua esposa. Ouvindo o que ouviu, murmurou em si mesmo. Vou a procura de remédio para salvar a esposa e eu sou o perdido. Sou um desgraçado, vou confessar-me. Não procuro mais o benefício da cura de minha esposa, com a tal pessoa. Vou lá em sua casa e digo estas palavras, faço estas perguntas e ofertas. E volta já para casa, cheio de temor, murmurava em pensamentos; vou confessar-me. O C., crer firmemente que Deus havia de curar sua esposa, pelo seu arrependimento. Fez o seu exame de consciência e ao terceiro dia confessou-se com Dr. Conego Mel. Meirelles Freire, na Igreja de São João Baptista, Braz. Desde Outubro de 1915, data de sua conversão a 23 de Agosto de 1921, cheio da virtude Celestial que nele reside; fez o C. diversas obras: que devem ser publicadas nos púlpitos das igrejas Católicas. As tais obras Celestes, feitas pelas mãos de C., em união com N. S. J. Cristo; dão claro testemunho da santidade do pecador maior do mundo: convertido pela Sta. Bondade de Deus. A Igreja Católica, por meio de meus confessores, não conhece tais obras da caridade: feitas sobre a humanidade. Estão ocultas. O C. oculta-as tudo, até a presente data. D. Duarte como chefe superior da Diocese de São Paulo, venha ao hospício. Encher-lhe-ei seu coração de obras, para pregar nos púlpitos sagrados. C. acabou de compreender que foi joeirado por satanás desde Outubro de 1915 a 6 de Outubro de 1920. E desde 6 de Outubro de 1020 a 22 de maio de 1922, tirou satanás de C., servo de N. S. Jesus Cristo: muitas provas para a sua melhor orientação. C., o servo de predileção Celestial; foi santificado em S. Paulo. Em 4 de Outubro de 1921, foi conduzido para o hospício Juqueri; localizado neste deserto, C., além de muitos jejuns rigorosos, jejuou 40 dias com 40 noites sem comer nem beber coisa alguma deste mundo: na Quaresma de 1926. Iniciou-se o jejum em 17 de fevereiro. E terminou em 28 de Março do referido ano. Em 15 de Maio p. p. preguei um Sermão no terceiro pavilhão do hospício, denominado Sermão da Montanha ou Deserto”.   
“D. Duarte, quero muito em breve trabalhar publicamente pela salvação das almas, previne a S. Exma. Rvma. D. Duarte, para evitar as dolorosas operações de satanás, que por má ventura sugeriu em espírito. Caso frieza para não dar passos sem atenção a esta Celestial obra. Lembre-se que é satanás inimigo das almas, infundindo falta de animo; para não obrar”.
“Importa que S. Rvma levante-se de sua cadeira apressado e dê passos para conduzir o C., para São Paulo. Do Servo Amantíssimo de NSJ Cristo, por santos trabalhos de ordem Celestial. S. Sta. Benção. Em nome de Padré, Filho, Espírito Santo. Amen”.

“Juquery 23 de Outubro de 1927”.                                “ C.V.R.”
                                                                          “3º Pavilhão do Hospício”
  

domingo, 18 de maio de 2014

Capítulo 4 – Parte 2 – A Expressão Artística nos Alienados

Como usualmente frisamos, devemos estar atentos a que este texto de Osório César foi escrito na década de 1920, portanto com as características dos conceitos e da linguagem da Ciência Psiquiátrica de então. Acentuamos a singularidade de o autor focar as produções artísticas dos pacientes nesse momento.

...continuação do texto...

Os poetas parafrênicos são comuns nos Hospícios. Há os de todo gênero: satíricos, parnasianos, românticos, bucólicos e futuristas. As suas produções são pejadas de prolixidade. São todos grafômanos. Vivem continuamente inspirados. Qualquer coisa desperta neles uma poesia. Tudo o que escrevem distribuem entre os médicos e enfermeiros. São desconfiados. Quando percebem que alguém troça deles, magoam-se e escrevem versos satíricos, alusivos ao indivíduo. São orgulhosos. Muitos deles escrevem os seus poemas numa linguagem simbólica e cheia de misticismo.
Vejamos a observação de um poeta romântico parafrênico do Hospital do Juquery:

M... (1), 43 anos de idade, branco, casado, católico, brasileiro, procedente da Capital, internado a 19 de Abril de 1925.
Histórico: É o único caso, o presente, que existe na família do observando. Não há referência sobre o passado da família. O que sabemos, por intermédio do próprio doente, é que o estado de saúde de todos os seus parentes é o mais lisonjeiro possível. É provável que o observando, consciente como é, oculte qualquer pormenor em que se possam basear para a justificação da “sua loucura”. “Aliás”, diz ele, “eu não sou louco! Raciocino com toda a lógica imaginável; sou funcionário público e sempre desempenhei com a maior probidade o meu dever; minha família não tem a mim a menor queixa, como chefe zeloso e bom que tenho sido. Não sei, portanto, e isso é que talvez me faça ficar louco, porque essa prisão injusta, fonte exclusiva da perseguição que movem contra mim os meus inimigos, a famosa camorra do Forte de Itaipu!” E o doente discorre, delirando já, sobre a “poderosa quadrilha” que, tendo assentado no Forte de Itaipu um possante aparelho de rádio-telefonia ou rádio-telegrafia, “sincroniza as ondas artesianas sobre o fone que cada um de nós traz invisível em nosso corpo e nos faz então, para perseguir-nos, cometer certos atos de indelicadeza contra a nossa família ou então responder por gestos ou palavras às vezes que nos são transmitidas”. “E veja o senhor”, continua o doente, “dizem que sou louco porque falo sozinho! Quererão levar a perseguição ao ponto de me proibirem até de responder ao que escuto no telégrafo sem fio?! É uma ignomínia! Mas hei de me vingar! À primeira oportunidade que se apresente, farei a minha representação junto ao senhor Dr. Delegado Fiscal do Tesouro Federal, afim de desmascarar esse infame que, não só a mim, mas também à Fazenda Federal, quer prejudicar. O senhor há de ver! Não considero loucos os companheiros; são vítimas, como eu, da camorra. Olhe aquele” – e mostrava um doente que, preso de grandes alucinações, saltava de um lado para outro, com grandes gestos de quem se defende – “está neste momento sob o efeito da irradiação do telégrafo sem fio”. E por aí vai; seria longo descrever tudo quanto o doente diz, logicamente, com sólida argumentação, para provar a injustiça de sua reclusão e os malefícios que poderão advir do serviço público da perseguição que se lhe move. Os autógrafos que juntamos à observação são bem elucidativos quanto à forma de delírio persecutório de que o paciente é vítima. Aqui no Hospício, “se bem que atenuadamente, tem ainda sofrido os efeitos das irradiações da Camorra”. Inquirido sobre se usava bebidas alcoólicas, tentou negar o seu vício, mas depois confirmou que, de 6 anos a esta data, se entregava ao vício da embriaguez. Tem, de fato, alguns sinais físicos de intoxicação etílica: tremores das mãos; língua saburrosa e trêmula; exagero dos reflexos tendinosos e cutâneos. Nada de particular no reflexo pupilar e nas sensibilidades. O estado geral de saúde física é bom. O paciente alimenta-se bem e tem, dizem os enfermeiros, sono tranquilo.
Diagnóstico: Delírio de perseguição. Falsa interpretação. Conservação das faculdades psíquicas. Parafrenia.

Apreciemos agora os seus versos:

Na mesma Fé

O meu samburá
Carrego frutinhas;
Às moças, Sinhá –
Pai Chico às Quindinhas.

Quero-as muito bem...
São pombas, são garças...
Flores do Lychen,
Roseiras esparsas.

Bem nos entendemos,
No mútuo respeito.
Sempre que nos vemos
Peito bate em peito.

Sou velho, são moças,
Trilhando um só fato;
Cancelas de força
Do mesmo riscado.

- Coitado! – elas dizem,
- Coitadas! – digo eu...
E somos felizes
No afan que Deus deu!

Louco velho

Lá detrás daquele morro,
Na escarpada do Fandango?
Sacisinha anda de gorro,
Plantando mato-ximango.  

Erva amarga ou Capitão,
Pra curar dor de barriga;
É melhor que a herva-tostão
Dos passeios do Bexiga.
Masserado có a raiz,
Pondo álcool é fernet-branca;
Com a marca “Flor de Liz”,
Égua velha de retranca.

Gente louca dá trabalho,
Muito mais que um burro chucro;
Ferro frio bate o malho,
Porco não sai do tijuco!

Come fruta verde ao lume,
Bebe estanho derretido;
Não mais peca, não faz crime,
Louco velho aborrecido.

Louco velho
Degadelhos;
Enxovido,
Carcomido!

As carapucinhas

 Adoro o seio da virgem,
No casto amor de donzela.
Meu peito bate em vertigem
De amor em chamas por ela.

Seus lábios são rosa-flores,
Na haste pênsil do jardim;
Sorrindo em francos humores,
Ao rescenso do alecrim.

Na face a pétala arfante,
Olhos me matem de amor;
Entre os rios flamejante
Do orvalho fresco da flor.

Adoro a branca, a morena,
Também a pardinha esgueira
E as roxinhas... Rosa... Helena...
Maria... Ismenia faceira...

No alvrar sacudindo as ancas,
Ponta a ponta, sempre a andar;
De carapucinha branca,
Da insana aflita a cuidar.

É tão grande o número das produções literárias desse doente que as suas poesias são para encher alguns volumes de duzentas páginas cada um.
Todos os dias ele compõe versos. Qualquer acontecimento, por mais banal que seja, é motivo para uma série de quadrinhas. A cadência dos versos lembra a dos versos de Gonçalves Dias.

Notas de Osório César:

1 – Dos Archivos Psychiatricos do Hospital do Juquery.